
Os meios culturais e académicos madeirenses têm andado incendiados por causa de uma decisão unilateral, anunciada publicamente por Guilherme Silva, da Comissão das Comemorações dos 600 anos. Trata-se da anunciada aquisição de algumas pinturas realizadas por Margarida Jardim, pessoa que se comenta ser familiar do antigo presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim. Alegadamente, tratar-se-á de uma prima. O certo é que foi anunciado, e não por nenhum governante, mas por Guilherme Silva, que as ditas pinturas, inspiradas em “revoltas” que se passaram na Madeira ao longo da sua História, serão adquiridas pelas instâncias governamentais e até já terão poiso certo: a Torre do Capitão, em Santo Amaro.
O modo como tudo se processou roça o estranho, para não dizer inusitado. Margarida Jardim, que o DN-Madeira cita como sendo professora e artista plástica, revelou àquele matutino o seu projecto artístico, integrado nas comemorações dos 600 anos, e que aparentemente consiste na mostra, numa exposição, de algumas pinturas, acompanhada por uma teatralização a cargo de alguns actores. A dita iniciativa já foi apresentada em alguns locais da RAM. O projecto terá sido concebido “a partir do resumo de uma obra” do historiador Alberto Vieira, recentemente falecido, que lhe foi facultado por Alberto João Jardim. Margarida Jardim contou ao DN-Madeira que foi apresentar um projecto à secretária regional do Turismo e Cultura, Paula Cabaço, e que esta lhe terá perguntado se não ia abordar os 600 anos. “E fiquei a pensar. Após conversa com o dr. Alberto João, ele falou-me naquela expressão “O madeirense é um ser superior. E daí nasceu a ideia de abordar as revoltas. Parti de uns resumos do Alberto Vieira (…)”.
Entretanto, Guilherme Silva, que preside à Comissão para as Comemorações dos 600 Anos, decretou a “importância histórica deste projecto” e anunciou que as pinturas já têm destino: Serão adquiridas pela SRTC e serão expostas na Torre do Capitão.
O FN sabe que este projecto também chegou a Santa Cruz, mas terá sido recusado pela autarquia. Entretanto, as redes sociais fervem com comentários de historiadores, professores universitários, artistas plásticos, etc., que questionam o critério desta aquisição e como serão apresentadas as pinturas na Torre do Capitão, espaço que já foi remodelado pelo arquitecto Victor Mestre mas entretanto ficou ao abandono e precisa novamente de melhorias. Aliás, está fechada há bastante tempo e actualmente serve de armazém a umas cantarias retiradas da ribeira aquando das obras que alteraram a foz da Ribeira de São João.

Francisco Clode, director de serviços de Museus e Património, tinha um projecto para a musealização da Torre do Capitão, para o qual chegaram a ser adquiridas obras artísticas antigas (como um cofre com Cristo trifonte) e “até encomendas contemporâneas para o espaço da capela (“mesa de altar” de Rui Sanches e pintura para altar de Pedro Calapez) , tendo em vista a criação de um núcleo museológico”, refere o responsável pelos serviços educativos de um importante museu do Funchal, ao comentar o assunto no facebook. Porém, até hoje, nada terá sido feito.
Por isso se questiona agora qual a razão para estas aquisições, qual o critério, qual o valor artístico, qual a sustentabilidade desta decisão em critérios de qualidade ou interesse cultural. Sobretudo, pergunta-se o porquê do modo como tudo foi feito e anunciado.
Margarida Jardim já terá recebido mais de 6 mil euros, por ajuste directo, para este projecto que Guilherme Silva considerou de interesse histórico. Ainda há dias o mesmo passou pelo Golden Gate, com direito a intervenção do antigo presidente do Governo, A. J. Jardim, sobre as revoltas da Madeira ao longo dos séculos.
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