A Mulher Que Correu Atrás Do Vento, de João Tordo

*Docente na Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira / Investigadora no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa (Projecto: “Viagem e Utopia”)

Publicado pela Companhia das Letras em março de 2019, A Mulher Que Correu Atrás Do Vento comprova a capacidade de efabulação de João Tordo, bem como o engenho do escritor em mesclar “estórias” que se desdobram por cartografias e épocas distintas. Com enredos bem urdidos, com protagonistas problemáticas, com situações insólitas e, ainda, com reflexões de carácter interdisciplinar ou divagações metaliterárias, tudo concorre para que este livro cative a atenção do leitor.

O título desta narrativa complexa reenvia para um versículo bíblico, retomado em jeito de epígrafe (“Vi tudo o que se faz debaixo do Sol e achei que tudo é ilusão e correr atrás do vento”, Eclesiastes (1,14)). Está, assim, dado o mote para o leitor seguir o percurso de quatro histórias diferentes, mas que, em constante diálogo nos vários capítulos deste livro, interpela o sentido de decifração do recetor do texto de João Tordo.

O índice do livro A Mulher Que Correu Atrás Do Vento anuncia que uma das histórias terá lugar em 1992. A narrativa “A Gaivota (1992)”, cujo título reenvia para uma peça de Tchekhov, vai adquirir na narrativa de Tordo um contributo notório. Este capítulo inicial retrata a vida instável de Beatriz, uma jovem coimbrense que se encontra a estudar em Lisboa. O incipit do capítulo anuncia o tom da narrativa: “O rosto foi uma desilusão” (p.17). Perdida nos meandros de uma tese em tradução, Beatriz refugia-se da solidão de Lisboa ajudando alguns sem-abrigo. Vai assim conhecendo outras histórias de miséria humana, de sobrevivência, de incertezas e de desajustes identitários.  Apreciadora das artes e das letras, leu a A História do Silêncio, cujo autor desconhece até então. Acabará por encontrar o autor numa sessão de apresentação do livro. Jaime Toledo não corresponde, porém, à imagem do escritor. Professor desempregado, não se ajustou a um ensino universitário conservador, sendo, por isso, um académico que contraria o modelo instituído pela Academia. Toledo encontrou o sucesso editorial com a sua primeira incursão pela escrita. Introvertido e resignado, o seu ar melancólico corresponde a um dos enigmas que Beatriz não consegue traduzir na obra de Joyce: dogsbody. Se o encontro com o escritor vai permitir revelar à jovem mestranda o sentido da palavra, será para melhor expor a fragilidade deste homem e desvendar que o romance entre ambos está condenado ao fracasso (ou não fosse Toledo um dos protagonistas de um outro livro de João Tordo, Biografia Involuntária dos Amantes, situação recordada pela voz que conclui o último capítulo do livro em apreço). Em todo o caso, o encontro entre escritor/leitora (de certo modo, entre Mestre e Discípula, como sugere o final da narrativa) permitirá compreender o que une Jaime Toledo a Lisbeth Lorenzt ou a Graça Boyard, duas mulheres que ocupam as duas histórias circunscritas a tempos e a espaços diferentes. Se “um romance não é um romance” (p. 52) ou se a “ficção é a verdade” (214), o leitor vai poder acompanhar mundos fictícios e situações aparentemente reais que se entrecruzam no caos relacional, no labirinto dos mundos e no silêncio dos seres. Diga-se, desde já, que esta imbricação entre realidade e ficção será depurada no último capítulo do livro, que pode, de certo modo, funcionar como um posfácio à narrativa de Tordo. Caberá ao leitor desvendar quem é o autor do livro. Tordo ou Beatriz? Beatriz ou Toledo? Ou será Beatriz o alter-ego de João Tordo?

“O Prodígio da Baviera (1891)” apresenta outra situação de desassossego feminino, a partir da história atormentada de Lisbeth. Tal como na história de Beatriz, falta à professora de piano a referência materna. Mulher destemida para a época, sobram-lhe excessos nervosos. Trata-se de um ser ostracizado numa sociedade conservadora, misógina e retrógrada. A Baviera, tal como o resto do mundo, era nesse tempo oitocentista regida por um sistema patriarcal. São, pois, questões de género que o texto literário permite analisar. Lisbeth é uma mulher moderna, muito embora se apresente com traços febris e com uma clara tendência caótica. É, na verdade, uma mulher nervosa, como reconhecemos no cânone literário da época. Apresenta-se como um ser atormentado que procura a alma da arte, em geral, e da música, em particular. Neste sentido, o capítulo impõe-se como uma reflexão interessante em torno da arte da composição, em particular a de Edvard Grieg, Dvorák, Tchaikovsky, Beethoven e Mozart. Trata-se de um capítulo que permite reconhecer a genialidade e o momento em que os acordes monótonos podem passar da banalidade à excelência. Será com Jost, um jovem autista de origem humilde, que a professora se perderá, quer no universo enigmático da música, quer nos trilhos que com ele ousa percorrer.  Tudo vale para acender as centelhas de génios que a história da música tem revelado; tudo vale para manter viva a memória de um prodígio, tudo vale para que perdure “Das Auge des Zyklons”. Esta obra, que em português se poderia traduzir por “O centro do ciclone”, parece evocar esse momento em que a fúria, seguida de um momento de acalmia, redobrada de dissonâncias se converte em Arte. Estes seres desajustados, fragmentados e “perdidos dentro de um labirinto sem fim” (p. 216) acabam por trazer do caos beleza, essência e estética.

A terceira narrativa “Das Tuas Assombrosas Criaturas (2015)” permite-nos deixar a Baviera de Lisbeth e encaminharmo-nos, de novo, para Lisboa, uma cidade que agora ostenta traços claros da turistificação. Tentamos acompanhar a história de Elisa, que pode ser Lisa ou Lia, mas que também foi a Mudinha ou a Silêncios, cognomes sintomáticos de um ser sem voz. Numa Lisboa multicultural, a narrativa procura reabilitar o ser humano, dando a compreender percursos femininos que se entrecruzam em curiosas encruzilhadas da vida. Na verdade, começam a delinear-se algumas formas idênticas que unem estas mulheres. Na verdade, também, é aqui que encontramos corroborado o sentido da epígrafe ao ser citado o livro de Eclesiastes. Desenterrar as nossas raízes e compreender que por vezes somos espelhos de outros seres levar-nos-á a concluir que somos atores da realidade ficcionada. Ou seremos seres da ficção que se tornou encenação de um real assombroso? Falo de um real assombroso porque é, de facto, neste capítulo que percebemos que o Mundo se apresenta ordenado mediante paradoxos, correspondências e “ligações extraordinárias” (p. 141). Note-se que é também aqui que está reavivado um cânone literário que atravessa, regra geral, a escrita de João Tordo: Gogol, Dostoieevsky, Chekhov ou Korolenko: “[o]s clássicos do realismo” (p. 116). Note-se que é também aqui que se recupera a ideia de que o romance História do Silêncio teve a sua adaptação para teatro. Nela, a mãe de Lia interpreta o papel dilacerante e cruel de Lisbeth Lorentz. É também aqui que o segundo enigma da tradução de Beatriz do capítulo inicial se impõe. Como poderá traduzir “muskperfumed”, perguntou Beatriz ao Professor Gusmão no primeiro capítulo desta narrativa. Ora, neste terceiro capítulo, a mãe de Lia cheira a acre e a tabaco. Exala, na verdade, o cheiro almiscarado de uma mãe ausente, que preferiu os palcos da ribalta à cena matricial do afeto. Este muskperfumed permite interligar as narrativas e recuperar situações anteriores como as que levam Graça Boyard para a cidade de Londres. Permite (ou talvez não) compreender por que razão esta mãe, que se tornará uma atriz conceituada do seu tempo, abandonou a filha, logo que iniciou a sua carreira em Portugal.

O quarto capítulo “Os Mortos (1992)” retoma as histórias das quatro mulheres que ocupam as diferentes narrativas deste livro. Nele se entrevê a possibilidade de se atribuírem novas roupagens e novos discursos em torno destas vozes dilaceradas. São seres que navegam à margem, por entre dois espaços: o do equilíbrio e o da fragilidade, o da temperança e da desordem emocional, o da demanda e o da repulsa. Em “Os Mortos (1992)” conhece-se outra experiência de escassez de afeto: a da própria infância de Jaime Toledo: “(e)ra filho único, o produto de uma família onde os afectos eram ou escassos ou excessivos” (p. 178). Este homem é o elo de ligação entre as diferentes protagonistas. A mãe de Jaime Toledo era neta da compositora Lisbeth Lorenzt. Também ele sofrerá com a morte de sua mãe. A procura da figura materna será sempre este cheiro almiscarado, que tanto pode corresponder a brevíssimos instantes de felicidade como a impulsos mórbidos. Aconselho o leitor a ensaiar um esquema sobre as múltiplas figuras do enredo do livro. Gosto, em particular, deste jogo de xadrez e de deixar anotações nas margens dos livros. São breves notas que permitem seguir a sinuosidade hábil da escrita deste autor. Vale a pena ensaiar essas notas para melhor desconstruí-las no último capítulo do livro. Todos os esquemas são inconclusivos, todos os ensaios são errâncias pela escrita de um autor, todas as notas de leitura são possibilidades de interpretação.

Ao consultar o índice deste livro, o leitor poderá verificar que dos oito capítulos, três não apresentam indicação temporal. O primeiro capítulo sem indicação temporal pretende desdobrar-se em torno de “O lugar perfeito”. Este capítulo, curioso e enigmático por sinal, apresenta um espaço algures situado num planalto da Baviera. Lugar de extrema solidão, situa-se longe de tudo e será, como veremos mais tarde, o lugar “perfeito para o abandono de Jost por parte de Lisbeth Lorentz. Acto de fúria? Acto de amor? Acto de desumanização extrema?

Como docente que se ocupa de disciplinas que interligam questões literárias e problemáticas culturais, optaria, em contexto de sala de aula, por analisar um dos capítulos deste livro. Selecionaria o sexto capítulo, sintomaticamente intitulado “Ensaio Geral”. Porquê? Por várias razões. Em primeiro lugar, porque este capítulo configura-se como uma escrita dramatúrgica dentro da própria narrativa. É, na verdade, a peça de teatro que versa a História do Silêncio de Jaime Toledo. No entanto, João Tordo atribuiu-lhe uma função ensaística. Em segundo lugar, porque à questão genológica outras premissas são passíveis de debate mais informal: a questão de género e do estereótipo, a problemática do tédio, o peso do sucesso, as questões da diferença. Em terceiro lugar, porque este texto dramático dá conta da condição humana, ensaia a verdadeira essência do ser humano, aponta o vazio que molda a fragilidade de uma qualquer conformação identitária carente ou negligenciada. Em quarto lugar, porque acredito que, a partir da leitura deste capítulo, os estudantes procurariam compreender a ligação aos restantes capítulos. Por fim, porque poderia ser um ‘ensaio’ para se começar a dinamizar o Clube de Teatro da UMa, captando públicos e renovados leitores. Afirmo os meus ideais utópicos. Por convicção.

É também neste sexto capítulo que o leitor intui o sentido do brevíssimo capítulo anterior; é aqui que sentimos o pragmatismo de Lisbeth e a fragilidade de Jost. É aqui que se oferece um dos maiores testemunhos da história da (des)Humanidade. É aqui que o comportamento humano pode apresentar o expoente máximo do horror e do desequilíbrio.  É aqui que acompanhamos almas desajustadas na experiência da disforia.  É aqui que compreendemos a “fuga quase permanente de uma pessoa para dentro de si própria” (p. 251). É aqui que percebemos que os lugares perfeitos não existem para finais felizes.

Curiosamente, a acção do capítulo sétimo não decorre em ambiente citadino. “E Achei Que Tudo É Ilusão e Correr atrás do Vento (2014)” mostrar-nos-á um Alentejo pacato, solarengo e convidativo. Lia procura a mãe. Graça optou pela tranquilidade de Alvito para fugir a um escândalo sexual que a liga a um adolescente. Entrega-se à fúria da pintura, em arrebatados traços de cores. Note-se, desde já, que o primeiro quadro o intitulou “O Lugar Perfeito”. Recupera, pois, o capítulo do livro de João Tordo. Recupera, também, a paisagem solitária que pode servir de cenário a «crimes e castigos» muito ao jeito da narrativa russa. É também aqui que todas as histórias se interligam, a de Lisbeth Lorentz e a de Jost, que é, na verdade, a história do livro de Jaime Toledo, bem como a história de Lia à de Graça Boyard, recuperando-se aliás aqui a sua atormentada passagem por Londres. Estes jogos de intertextualidade e de decifração, jogos de duplos e de espelhos, acentuam os variados caminhos da contaminação, da rejeição, de esquecimento ou de superação. Todos concorrem para reavivar “o doloroso e insuportável passado” (p. 344). Todos desvendam o acto doloroso de dizer a dor, de expiar o erro, de se libertar do peso ou de dizer o absurdo das relações humanas.

Este livro de João Tordo trata, pois, de experiências de abandono. São quatro histórias que operam ressonâncias entre si e que exploram este efeito de eco através de séculos e de situações aparentemente diferentes. A noção de perda e a questão da ausência da figura feminina são, de facto, os elos que unem as quatro histórias. São quatro quadros de “paralisia emocional” (p. 378), com o mesmo sufoco, abismos e solidão. São mães medusas, pais ausentes, descendentes problemáticos. No entanto, não julgue o leitor que são apontamentos meramente dissonantes. Se a literatura tem (algum) poder, este livro tem o condão de ser um livro de reencontros: reencontros com mitos e remitologizações, reencontros com pactos de leitura, reencontros com infinidades de retratos, reencontros com trilhos de múltiplos cambiantes e matizes. Acredito que um (bom) livro é uma escrita de demanda, de compreensão de conflitos, de entendimentos de desafio, de deleite. Quero acreditar que a escrita tem o poder de revelar situações e de dar a conhecer os meandros mais sinuosos da condição humana.

Aprecio um livro que enverede pelos trilhos da metamorfose e da incompletude. Gosto de estruturas complexas que revelem inúmeras situações. Ao recuperar uma das personagens com quase 50 anos de vida sofrida, o texto ganha renovada(s) força(s): de busca de sentidos e de contra-encenação. De facto, aos 47 anos, Beatriz regressa à tradução e, de certa forma, à sua juventude. Termina a tradução de Dubliners e aceita fazer a tradução de Ulisses, um dos livros mais “trancados” de Joyce. Como traduzi-lo? Como ganhar uma batalha que se afigura à partida perdida? Voltam os enigmas. Insiste no erro. Regressa à demanda em torno dos símbolos. Irrompe a ideia de errância, a procura de sentido e a tentativa de preenchimento do vazio. Talvez por isso o texto nos diga: “Assim é a vida humana: a repetição dos mesmos erros, dos mesmos atalhos. Da mesmíssima esperança, da mesmíssima melancolia” (p. 417).

Creio que o terceiro enigma que se coloca à jovem Beatriz acaba por ser compreendido neste derradeiro capítulo que circunda este artefacto literário. Como traduzir shellcocoacoloured? Como tornar “um livro legível noutra língua” (p. 424)? Optando por correr atrás do vento, não como uma “compulsão inútil” (p. 431), mas como impulso, arrojo e desejo de superação. Para Beatriz, a literatura e a tradução operam um chamamento difícil de controlar. Pode ser visto como uma espécie de fuga ao conforto e à medianidade. Compreender-se-á que Beatriz se afaste da firma para a qual trabalhou e procure outros trilhos, mesmo que se apresentem como caminhos de desassossego. Compreender-se-á então o sentido desta afirmação: “A vida bifurca-se inúmeras vezes, incontáveis vezes. Existem bifurcações pequenas, que nos fazem desviar do nosso caminho. E há outras que nos levam por décadas de engano (p. 425).

O último capítulo do livro “Tão Verdadeiro como (2017)” colocará ao leitor renovados enigmas. Quem será o autor do livro? Como se construiu esta narrativa? Apresentando-se como um livro apócrifo, este livro será, em todo o caso, um desafio para o leitor. A multiplicidade de vozes que se fundiram no texto de João Tordo levanta também agora a questão da essência do próprio texto. Terão decorrido os acontecimentos narrados? Ter-se-á a voz do texto inspirado na voz de um outro escritor? Poder-se-á escrever um livro sobre nada? Qual o contributo dos efeitos intertextuais e intratextuais concentrados neste curioso apontamento final?

São de facto vários os enigmas levantados pela voz do texto, corroborados, aliás, pelas questões que se seguem: “Qual é o interesse de uma narrativa? Sobretudo de uma narrativa como esta, que já vai longa e confusa, dividida em múltiplas perspectivas, escrita em vários tons, repleta de vozes diferentes e, por vezes, contraditórias?” (p. 428). Independentemente da interpretação de cada leitor, sublinhe-se o espaço reservado ao desafio neste livro de João Tordo. Acredito que o Livro pode ser “lugar onde existe consolo” (p. 17). Acredito que “a Literatura [tem] o poder de remediar” (p. 430). Em todo o caso, a escrita de João Tordo possibilita inúmeras leituras, levanta múltiplas possibilidades de interpretação, permite-nos encetar várias viagens, leva-nos a equacionar mundos em (de)construção constante.

Referência bibliográfica:

João Tordo, A Mulher Que Correu Atrás Do vento, Lisboa, Companhia das Letras, 2019.