Deitar contas à vida

Adoro calculadoras. Ainda no último dia da mãe recebi uma linda, rosa choque. E gosto de fazer contas. Faço muitas, até porque sou eu que faço a gestão financeira cá de casa. Sou a mulher do dinheiro.

E sou boa nisso. Ou pelo menos, era. Agora começo seriamente a questionar os meu dotes contabilísticos…

Olho para o meu recibo de salário. É mais agradável à vista do que era nos anos de crise. Indubitavelmente. Ignorando o valor obsceno de impostos, pelo menos. E parece-me básico, recebo mais, portanto posso fazer, comprar, gastar e poupar mais.

Só que não. E por mais que eu faça e desfaça contas na minha calculadora rosa choque, o resultado no final do mês é sempre pior.

Serei mesmo eu quem perdeu o dedo para a coisa? Que me tornei uma perdulária sem emenda? Dizem-me que não, que é transversal, que todos estão a passar pelo mesmo e que os anos de crise são agora.

Mas o Dr. António Costa e o Dr. Mário Centeno discordam. Portugal está na mó de cima, em recuperação milagrosa e somos um exemplo de sucesso.

E fico baralhada.

Tive então uma epifania. Se as contas do Governo, vulgo Geringonça, são um sucesso –  mesmo sem calculadora rosa choque – e as minhas votadas ao fracasso, vou governar o meu reino copiando a sua genialidade. Estudar estratégias e pôr mãos à obra.

A primeira medida será aumentar a mesada que todos temos cá por casa.

Felicidade geral e eu sou a maior!

Só depois é que introduzo o aumento dos impostos indiretos. Assim como quem não quer a coisa e de mansinho.

Queres um gelado, amor? Com certeza. Mas se antes te custava um muito obrigada agora custa um muito obrigada acrescido de 3 euros. E não digas que vai daqui. Ai, que vi um vestido na Zara que tem a minha cara. E vou dizer, de mim para mim, que mereço porque trabalho muito e sou mãe e coisa e tal. Pago o vestido, mas tenho de pagar 10 euros à nossa conta conjunta. Muito bem. E vai dizer o meu marido – que também pagará uma percentagem à conta conjunta por tudo – não percebo, tenho o mesmo dinheiro no início do mês, mas não dá para nada. Impressão tua, querido.

A segunda medida será que ninguém adoece. Vou decidir isso por decreto caseiro. Porque isso está fora de questão. Gastar dinheiro na saúde e bem estar? Que disparate. Onde já se viu semelhante desplante e desperdício de dinheiro?

Educação também está fora. Já podem tirar o cavalinho da chuva dessa coisa de gastar para estudar. Precisas de um livro, querida? Temos pena. Já pareces os professores, essa classe vampírica que está sempre a exigir qualidade, estabilidade no ensino e remuneração justa. Uns pica miolos, é o que são.

Mas depois vou brilhar quando decidir que os transportes serão muito mais baratos cá em casa. Viagens de/para a escola, casa e trabalho custarão, em vez de um beijinho e desejos de um bom dia, só um beijinho. Nada mau. Mas para poupar gasolina não haverá carro para fazer os percursos. Mas se houvesse carro seria muito mais barato, estão a perceber, meus amores?

E como tenho de começar por algum lado, serão estas as primeiras medidas a adotar e sei que vou deliciar-me novamente a teclar sem fim na calculadora rosa choque. E vou poder sentar-me com amigos e gabar-me do sucesso das minhas políticas económico-financeiras.

Perfeito.

Só que não.

Dá que pensar, não dá?