Hélder Spínola acusa Cafôfo de destruir a coligação que poderia dar vitória em setembro e “isso pode custar caro, o preço pode ser o PSD continuar a governar”

Hélder Spínola
“Há uma diferença pública profunda entre a imagem que Miguel Albuquerque tinha quando era presidente da Câmara e a imagem que tem agora enquanto presidente do Governo”. Foto Rui Marote

Hélder Spínola foi cabeça de lista pelo PND nas eleições regionais de 2011. O partido acabou entretanto. Mais ecologista do que político, mais defensor de causas do que de militâncias partidárias, avesso mesmo à forma de organização dos partidos tradicionais, chegou a afirmar, na altura, que a organização pela qual concorria, apesar de ser formalmente um partido, era “apartidária”, queria com isso dizer que o que estava em equação era um objetivo de luta por convicções, eram mais as tais causas do que propriamente coisas. Foi presidente nacional da Quercus entre 2003 e 2009, hoje é professor universitário e investigador na Universidade da Madeira. Tem formação em Biologia, doutoramento em Biologia Molecular. Nasceu em Moçambique, cresceu na Madeira. Tem 45 anos de idade.

A imagem é de serenidade à distância do tempo em que Jardim tirava o PND do “sério”. O Partido Nova Democracia, na Madeira, marcou episódios de algum radicalismo político, visando sobretudo a governação de Jardim. Era pelo “choque”, do género “acordar consciências”, às vezes, para muitos, tocando no exagero. Hélder Spínola estava “metido” no mesmo grupo que a dado momento desestabilizou a política madeirense, saiu da normalidade, ganhou palco nacional, no fundo atingiu os objetivos, alertar.

Ocupou a cadeira ocupada por Jardim e foi retirado à força

Quando em dezembro de 2013 ocupou a cadeira normalmente utilizada pelo presidente do Governo Regional, na Assembleia Regional, em protesto contra o facto de Jardim ter abandonado a sala de plenário, acabando por ser retirado à força com o mundo a ver, tinha a noção de conseguir os fins por meios que eram, na realidade, extremos. O interesse superior falou mais alto, defendia o PND. Já se falava de mudança na altura, foi como que o “pontapé de saída” do que veio a seguir. A coligação que levou Cafôfo à vitória na Câmara do Funchal foi outro dos passos seguintes. Uma coligação, então denominada Mudança e com seis partidos, PS, BE, PND, MPT, PTP e PAN. Hoje, passados seis anos, Hélder Spínola diz que “Cafôfo destruiu a Coligação que poderia ser governo em setembro e pode custar caro a uma alternativa de governo, em setembro, pode custar a vitória do PSD. Um recado para o candidato que se assume como a mudança e alternativa a Miguel Albuquerque. Mais por aquilo que não fez para garantir projeto vencedor.

Algumas das minhas atitudes eram de resposta

Mas voltando atrás no tempo, em 2011 e aos episódios radicais protagonizados então pelo PND, explica-nos que “na altura, o PSD tinha uma forma de exercício do poder que era muito estranha à própria democracia. E algumas das minhas atitudes eram, sempre, uma resposta a essas circunstâncias. Há o caso em que me sentei na cadeira que era ocupada pelo Dr. Alberto João Jardim, quando ele saiu da sala no momento em que eu ia falar, resultando depois numa situação que não foi agradável, até para mim. Há outro caso, no ano anterior, em que o Dr. Jardim também abandonou a sala e reagi virando-me de costas quando foi a intervenção dele. Mas devo dizer que foram situações importantes, era preciso mostrar, há coisas que não chegavam dizer, era preciso mostrar que aquela forma de governar não era aceitável, aquele desrespeito por quem não concordava com ele, desrespeito pela oposição e desrespeito pelos cidadãos que tinham uma outra visão, não podia continuar. E essa forma como exerci o cargo de deputado acabou por ser um contributo para que a sociedade madeirense visse que já era passado o tempo de Alberto João Jardim, o tempo da dívida normal mais a dívida escondida. Dei o meu contributo, modéstia à parte, nesse fim de ciclo, um ciclo que foi muito longo”.

Pós Jardim não foi o que eu gostaria que tivesse sido

Hélder Spínola diz, no entanto, que o pós Jardim “não foi propriamente o que eu gostaria que tivesse sido, que era existir uma mudança efetiva. Mas pelo menos foi um passo para que essa mudança pudesse acontecer, talvez já nas próximas eleições regionais”. Mostra-se crítico para com os partidos tradicionais, no fundo a organização partidária em si, aborda a opção pelo PND e admite que se tratava de um partido que tinha a sua linha ideológica, mas que na Região estava a funcionar como “uma plataforma que juntou algumas pessoas que tinham uma determinada perspetiva e achavam necessário agir de uma certa maneira. Havia uma agregação de pessoas, mas só estavam alinhadas na noção que era preciso fazer a política de outra forma. Esse tempo passou e podemos dizer que, hoje, já não se justificam as atitudes de então”.

Diz que os partidos são “estruturas voltadas para dentro, cristalizadas, muito focadas no poder, seja a governação ou seja um lugar de deputado ou mesmo o financiamento. Há muitas pessoas que se aproximam do poder só para ver o que este lhes pode dar, vão para os partidos motivadas pelo contributo à sociedade, mas motivadas pelo poder em benefício próprio. Não é essa a minha forma de ser é por isso que o meu histórico sempre revelou alguma distância relativamente aos partidos”.

É sempre mais confortável ficar com boca fechada e abanar a cabeça que sim

Hélder Spínola nunca quis ser político. A sua passagem pela política explica-se com “momentos que me chamam, que eu sinto que não me devo dar ao luxo de ficar à margem. É importante olhar para a política como algo que deve ter a nossa participação, a política não pode estar circunscrita aos contextos partidários. É preciso percebermos que a política define todos os pormenores da nossa vida. E podemos marcar essa presença sem ser nos partidos. Se cada cidadão percebesse a importância de participar, a nossa sociedade seria melhor e os nossos políticos seriam melhores, eles reagem muito com aquilo que a sociedade exige”.

Hélder Spínola
“Cafôfo tem carisma, mas deve ter algum cuidado para não apostar só nisso”.D

De que forma podemos motivar essa participação se os números da abstenção são elevados e a participação dos cidadãos parece ser cada vez menor? “As pessoas continuam com receio de assumir posição. É sempre mais confortável ficar com a boca fechada e abanar a cabeça que sim, esperar para ver se cai alguma coisa no nosso colo. O que muitas vezes vemos é que, à medida que determinados partidos se aproximam do poder, acabam por ser envolvidos por uma crosta, muitas vezes grossa, deste tipo de pessoas que vão concordando e confirmando tudo. E aqueles que têm o poder de definir o nosso presente e o nosso futuro, acabam por achar que são os maiores, que sabem tudo. É fundamental que as pessoas que estão nos partidos derrubem essa crosta, que no fundo tolda-lhes a visão e a capacidade de gerir a sociedade da melhor forma. Se houver uma sociedade que age e reage, que exige e dê a sua opinião, pode haver um equilíbrio relativamente às opções corretas”.

Diferença profunda entre Albuquerque no governo e Albuquerque na Câmara

Está dececionado com o que veio a seguir ao jardinismo, com a renovação do PSD, mas também com a alternativa de mudança que com o PS, mas muito mais com Paulo Cafôfo? Hélder Spínola não tem dúvidas e desabafa que “aquilo que aconteceu foi bem pior do que eu pensava. Mesmo quem não estava com o PSD, que era o meu caso, tinha a perspetiva que Miguel Albuquerque, à luz da imagem que tinha na Câmara do Funchal, pudesse trazer um horizonte de esperança, um caminho diferente, mas todos nos apercebemos que a dado momento houve uma falha, não foi uma falha de governação, foi mesmo de governação. Começámos a assistir, em várias áreas, a falhas que afetam o dia a dia dos cidadãos. E muitas vezes, o problema nem era de recursos financeiros, era mesmo de estratégia, de opção. E foi assim que muitas pessoas, que ainda tinham alguma esperança, mesmo que comedida, ficaram desiludidas”.

Não tem dúvidas que “há uma diferença pública profunda entre a imagem que Miguel Albuquerque tinha quando era presidente da Câmara e a imagem que tem agora enquanto presidente do Governo. Mesmo aqueles que o apoiam sentiram essa desilução. O que tivemos foi um olhar para os pés quando precisávamos que a Madeira olhasse para a frente, com um caminho para percorrer. Não há uma perspetiva de futuro”.

Cafôfo tem carisma mas não pode apostar só nisso

Se este pode ser um aviso para Paulo Cafôfo, não sabe Tal como Albuquerque, Cafôfo tembém tem popularidade em alta à conta da governação da Câmara do Funchal. Se essa é ou não suficiente para chegar ao Governo, só em setembro se saberá. Hélder Spínola remete para aquilo que o povo diz, que somos os espelhos uns dos outros. “Penso que qualquer pessoa que esteja na política percebe que a sociedade madeirense está diferente, não quer voltar ao tempo das personagens que, por si só, constituam um projeto político. Tivemos Alberto João Jardim, que valia mais do que o PSD, depois tivemos Miguel Albuquerque, que conseguiu chegar ao poder pelo seu carisma pessoal, que entretanto, em minha opinião, perdeu. Cafôfo tem esse carisma, mas deve ter algum cuidado para não apostar só nisso. Deve mostrar à sociedade madeirense que existe uma equipa, existem pessoas, um projeto todo ele consistente e coerente. O que eu tenho visto, naturalmente de fora, é que apesar do que se diz relativamente a uma coligação com a sociedade civil, é que o Partido Socialista está fechado sobre si próprio e não me parece que esteja a acontecer a falada abertura à sociedade civil. Ainda vão a tempo”. Nem os estados gerais se entusiasmam? “Não, muitas personalidades vêm do continente, não residem na Madeira, não conhecem a realidade madeirense por dentro”.

Cafôfo está a fazer sombra ao PS

Regionais 2019

Sabe que a sociedade madeirense está diferente e que já não se presta a ser convencida apenas pela imagem, o que não deixa de ser um alerta para Paulo Cafôfo enquanto líder de um projeto alternativo. Hélder Spínola está convencido que “a sociedade madeirense não vai colocar os ovos no mesmo cesto e porventura vai criar uma circunstância inédita, na Madeira, que é criar uma solução governativa multicolor. E acho até que essa será o melhor para a Madeira”. De Cafôfo, diz que neste momento “está a fazer sombra ao PS Madeira”. Não acha isso relevante, mais importante seria haver um projeto e uma equipa. A questão, em setembro, não será nem o PSD nem o PS, mas sim a composição do futuro Parlamento e o governo que vamos ter. Até pode ser constituído por partidos que não incluam o partido vencedor. Depois de António Costa, a caixa de Pandora abriu-se”.

Critica o facto dos partidos não assumirem claramente uma definição, relativamente às questões centrais, “preferem um discurso redondo. Nesta fase, até às eleições, era bom que houvesse uma clarificação sobre aquilo que cada força política defende”.

Estas eleições de 22 de setembro poderão ser observadas como estando em jogo o contencioso das Autonomias, uma luta Madeira/República, expressas nas candidaturas de Miguel Albuquerque e Paulo Cafôfo? Já está em curso, mais ou menos, um “quem dá mais”, por um lado com números sobre governação quase perfeita, e por outro medidas anunciadas que eventualmente poderão ser associadas ao facto de termos eleições próximas? A resposta encaminha-se para a generalidade do “tudo estará em cima da mesa”, mas não fica por aí, vai mais longe, diz que “as pessoas já conhecem esse jogo há muito tempo. Até ligam as obras ao facto de termos eleições e às vezes, inclusive, aproveitam essa realidade para reivindicarem algumas melhorias. E os eleitores já sabem que as promessas de agora poderão não acontecer depois das eleições”.

Este jogo de contencioso Madeira/Lisboa pode ser perigoso

Hélder Spínola recorda que “esta dialética Madeira/Lisboa já vem de trás, funcionou muito bem no passado, mas hoje os resultados poderão ser outros, as pessoas já têm acesso a outra informação, mudou muita coisa. Por isso, digo que este jogo de contencioso Madeira/Lisboa, que está a ser jogado tanto pelo PSD como pelo PS, pode ser perigoso. Não sabemos muito bem como é que os eleitores vão ler isso”.

Perante a previsibilidade de uma luta entre dois candidatos, que potencia a possibilidade de uma bipolarização, Hélder Spínola coloca algumas reservas se será esse o cenário das eleições de 22 de setembro. Pensa que não, vai mais pela dispersão de votos e vê nisso, por um lado uma vantagem, mas por outro, um problema. Faz uma leitura daquilo que podemos ter no pós eleições regionais, mas não poupa críticas a Paulo Cafôfo, mais ou menos com a ideia que o candidato do PS, como diz o povo, “tinha o pássaro na mão e deixou-o fugir

Lamento que se tenha quebrado a tendência construída em 2013

Explica que a eventual dispersão de votos traz a vantagem no sentido de “um Parlamento mais diversificado, com melhor representatividade, conseguindo reunir várias sensibilidades políticas em caso de não haver maioria absoluta”. E refere a desvantagem com lamento por se ter quebrado a tendência que começou a ser construída desde 2013, “de agregar várias forças nas candidaturas, através das coligações. O que pode acontecer em setembro, com a proliferação de candidaturas, é que muitas delas poderão nem conseguir eleger um deputado, beneficiando o partido mais votado, que até pode ser o PSD. Se tivessemos mantido aquela perspetiva de coligação, que começou na Câmara do Funchal, e se atendermos às sondagens, certamente estaríamos a falar de uma vitória quase garantida e muito provavelmente próxima da maioria absoluta em setembro”.

Hélder Spínola
“Seria dramático termos um Miguel Albuquerque ou um Paulo Cafôfo num Governo com rédea solta”.

Considera que “esse foi um grave erro que podemos pagar muito caro e o preço pode ser o PSD continuar a governar. Lamento que esse caminho tenha sido destruído. E é preciso dizer que foi o próprio Paulo Cafôfo quem destruiu a coligação que estaria em condições de dar praticamente a vitória nas próximas regionais. Cafôfo era líder de uma coligação que governava o Funchal e tinha uma obrigação de equidistância relativamente a todos os partidos que formavam a coligação, ele era independente e continua a ser, a sociedade pedia que no seu percurso político agregasse essas forças”.

A estratégia do PS não é a mais correta

Hélder Spínola diz mesmo que a reação do Partido Socialista depois das eleições europeias ao dizer que o número de votos permitiria ter maioria no Funchal, envolvendo a coligação, é o reconhecimento que essa estratégia era correta se aplicada às Regionais. Em minha opinião, a estratégia do PS não é a mais correta para o objetivo de garantir que o PSD não ganhe e de termos uma nova governação na Madeira, Foi um erro. O que está feito, está feito. E o fundamental, neste momento, para quem quer uma mudança, é fazer uma convergência de votos num conjunto de forças políticas que garantam representatividade de governação.”

É neste enquadramento de raciocínio que já anunciou o apoio ao Bloco de Esquerda? Porquê o Bloco? “Durante o meu percurso político mais ativo, sempre estive envolvido em projetos que tinham objetivos mais concretos. O meu apoio ao Bloco vai no mesmo sentido. Julgo que é fundamental dar força a alguma candidatura fora dos partidos alinhados para a vitória, de modo a que se consiga garantir que em termos de governação temos algum controlo. Penso que seria dramático termos um Miguel Albuquerque ou um Paulo Cafôfo num Governo com rédea solta. Além disso, o BE tem sido muito concreto em matérias às quais eu dou muita atenção, designadamente a questão ambiental, a precariedade do trabalho, problemas sociais, a forma como a sociedade está estruturada em termos económicos. E na questão ambiental, particularmente, existem situações em que as forças políticas não têm demonstrado grande definição, caso por exemplo do regresso do gado às serras. O Bloco defende claramente que não quer que o gado volte à serra e que venham os prejuízos que já tivemos”.

O grande desafio é a sustentabilidade

É neste “mundo” de incursão política pontualmente feita nos partidos, numa procura de causas e convivendo, em termos familiares, com várias sensibilidades (Victor Freitas, o irmão, líder parlamentar do PS, a esposa, Idalina Perestrelo, fez parte da equipa de Paulo Cafôfo na Câmara do Funchal, faz parte do mesmo elenco agora liderado por Miguel Gouveia), que Hélder Spínola aponta os grandes desafios que se colocam ao próximo Governo, a partir de 22 de setembro:

– “O grande desafio do próximo Governo Regional é a sustentabilidade, quer do ponto de vista ambiental, quer social e económico. A Madeira tem andado a se enganar durante muito tempo, achávamos que éramos os maiores do mundo e que ia haver sempre dinheiro para pagar. Para o futuro, é preciso que a Madeira tenha a verdadeira autonomia, que até ao momento ouvimos falar como ligada à Política, mas que deve ser alargada numa outra perspetiva, na capacidade da Região ser mais autónoma, também em matéria dos desafios ambientais. E temos várias situações entre mãos, que se arrastam há muito tempo, como os incêndios, como a gestão dos nossos lixos, com custos demasiado elevados e desempenhos muito maus, com quebras até nas taxas de reciclagem. Andamos a fazer uma política de quase pedincha, de culpa dos outros, e perdemos inúmeras oportunidades para criarmos uma sociedade diferente, soluções próprias, para que os nossos filhos, os nossos netos, possam ter condições para viverem cá”.