Da Casa Figueira à Livraria Esperança

À  D. Maria de Lourdes Santos a minha homenagem. Nos anos cinquenta, o Funchal não tinha quase livrarias, antes sim, muitas papelarias que também vendiam um ou outro exemplar dos escritores da Ilha.

Lembro-me de no princípio dos anos 50, ir com meu pai, quase  diariamente, à Casa Figueira, situada no fundo da Rua dos Ferreiros,
em frente da nova loja “Vista Alegre”, ver as novidades sobre cinema, pois importavam dos Estados Unidos, magazines sobre cinema e actores em American-English. Estávamos na era do cinema no seu melhor e, tal como as amigas e colegas do Liceu, adorávamos ver e ler sobre as “stars” da época, tendo eu mesma escrito para os estúdios de Hollywood; recordo a “loucura ” que tive com as amigas por o “Gregory Peck” – um dos galãs da época – ter enviado uma foto bilhete postal com a assinatura. Também escrevi ao “Glenn Ford “e, então, esse enviou uma grande foto com dedicatória, que nos deixou encantadas e “apaixonadas”. Fazíamos assim inveja às que não acreditavam ter sido verdade.

Para o meu pai, era a Casa Figueira o ponto de encontro com velhos amigos e colegas: Dr. Álvaro Favila Vieira – à época Deputado da Nação -, Octávio de Marialva, Dr. Baltazar Gonçalves e demais escritores e poetas. Foi ali que conheci o jovem Jorge Figueira que, anos mais tarde, fundou a Livraria Esperança, que se veio a tornar a maior da cidade e a 2ª  maior a nível  mundial.

Jorge Figueira era um negociante nato, pois foi das primeiras pessoas a comercializar vendas a prestações (li no D.N. , nas minhas
investigações e disse-o mais tarde numa das muitas vezes em que visitei  a Sra. D. Maria de Lourdes ) acabando por se fixar naquilo
que mais gostava: LIVROS. Teve a felicidade de ter encontrado na D. Maria de Lourdes não só a companheira e colaboradora ideal, dedicada, que o acompanhou até ao fim da sua longa vida e continuou igualmente os seus ideais de promover e incentivar nos jovens o gosto pela leitura.

Deste modo, e com este propósito, em 1991 criaram a Fundação Livraria Esperança, a 1ª maior da Europa e a 2ª maior do mundo, com todos os livros, digamos raros, encadernados e brochados.

livraria mantém uma organização rigorosa e é visitada por nacionais, estrangeiros e todos os que procuram as últimas novidades livreiras.

Na Feira do Livro anual, a Sra. D. Maria de Lourdes mantinha sempre o seu stand; ultimamente chegou a organizar Tertúlias Literárias e, apesar da gravidade da doença que a vitimou, trabalhou até ao fim, sempre com o apoio e carinho da actual responsável, D. Cássia Câmara.
Esta, sendo uma senhora muito jovem, sustenta agora uma responsabilidade invejável, fruto do amor com que os seus pais adoptivos a souberam educar e criar. Ficou em boas mãos e estou segura de que a nossa querida amiga partiu em paz.

Tenho algo a acrescentar: quando a partir de Fevereiro deste ano estive na Ilha, uma das primeiras visitas foi ir à Livraria Esperança
para saber da minha boa amiga D. Maria de Lourdes. Fiquei pesarosa porque ela piorara e eu não pude já subir a escadaria para lhe dar um beijo e conversarmos um pouco, como era habitual. Ela era uma das amigas que logo chegando ao Funchal, eu não ia para a minha casa na Ponta Delgada sem nos vermos, telefonando-lhe de Santo Tirso durante a minha ausência da Madeira. Dias depois da minha estadia, que durou até fins de Abril, fui surpreendida pela triste notícia do seu falecimento, mas só soube pelo D.N. Que pena não termos estado juntas ainda essa última vez; já só pude acompanhá-la na missa do 7º dia, na Igreja de S. Pedro, onde apenas compareci eu, alguns amigos, e a D. Cássia com mais duas ou três senhoras! Afinal, onde estavam os outros amigos ?

A amizade é um bem precioso, mas esquece-se depressa. A minha homenagem a uma senhora que tanto deu à cidade, mas que o tempo esqueceu.