O “Mayday” cazaque ontem em Lisboa

Ontem, o Cazaquistão quase passava a ser lembrado em Portugal por uma tragédia que eclipsaria a memória filme cómico do “Borat” (rodado na Roménia e nos EUA), e que é considerado pejorativo pelos cidadãos da antiga república da URSSS.

Um Embraer 190 da Air Astana (nome da capital do Cazaquistão, um sítio que vale a pena visitar) esteve a fazer um Check-C (revisão extensa) nas OGMA, que são propriedade da construtora. Ontem à tarde seguia para casa, com escala técnica planeada em Minsk. Após a descolagem de Alverca, os pilotos reportaram uma emergência “Mayday”, e o avião passou duas horas no ar a seguir uma trajetória errática em direção e altitude. Durante esse tempo ficaram registadas nas gravações das comunicações com o controlo de tráfego aéreo de Lisboa, intenções da tripulação em amarar, tanto no mar como no Tejo.

Os pilotos referiam problemas com os sistemas de comando, e dificuldade extrema em controlar o avião, a meio de alertas de segurança sonoros. Isto num dia de mau tempo em Lisboa e visibilidade quase nula do solo. Dois F-16 da Força Aérea Portuguesa (FAP) saíram de Monte Real e conseguiram ajudar o E190 a dirigir-se a Beja, onde após duas tentativas, aterrou finalmente em segurança, com mazelas mínimas para alguns dos ocupantes. Tudo isto foi visível no flightradar24, em gravações públicas de comunicações do LiveATC, no facebook da FAP, e em fotos tiradas por pessoas em Beja.

Foto Rui Marote: um avião da companhia Air Astana

Sobre o que realmente se passou e porquê, esperemos pelo relatório de investigação do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários (GPIAAF), evitando especular demasiado sob factos que ainda não são conhecidos, ou replicando rumores infundados.

Dois casos que me vêm à memória:

– Em 1973 morreu Alexander Socrates Onassis, filho do magnata grego que desposou a viúva de JFK, num acidente à descolagem de Atenas. Ia como passageiro no seu avião pessoal, e a investigação concluiu que se o acidente se deveu a comandos de voo trocados, em virtude de os ailerons terem sido incorretamente ligados na prévia manutenção.

– Em 1985, um Boeing 747SP de Taiwan sofreu a falha de um motor em cruzeiro. Após uma série de erros da tripulação, o avião fez várias acrobacias, e sofreu esforços “G” tão extremos que lhe fizeram perder parte da cauda, saltaram portas do trem de aterragem, e empenaram-lhe as asas irreversivelmente. Já a baixa altitude, o comandante conseguiu recuperar o avião, e no final sobreviveram todos. É o tema do episódio “Panic Over the Pacific” da série Mayday.

Felizmente, para alguns portugueses a ridícula personagem “Borat” continua a ser a imagem daquela nação em vez de pilotos vitimados, e em vez de restos de chapa torcida e molhada, fica o serralheiro da aldeia romena com o maçarico a gás ligado.

Nota mais para a nossa FAP, para a (aparente) preocupação dos pilotos em consumar o desastre no mar e não em zona povoada, e pelo seu sangue frio numa situação de stress que nenhum simulador poderá realmente emular. Talvez assim passemos a dar valor ao investimento nas aeronaves FAP, e a podermos contar com alguém quando se está perante uma situação catastrófica.