Comerciantes do Bom Jesus indignados, fartos e agastados com obras que nunca mais acabam; denunciam falta de planeamento das mesmas

Agastados, fartos, cansados. Em três palavras, é como se poderia descrever o estado de espírito dos comerciantes da Rua do Bom Jesus, no centro do Funchal, com as obras que lá decorrem já há um bom semestre, e que prometem não acabar tão cedo. A indignação pelo prolongamento inusitado dos trabalhos naquela artéria vem somar-se à estupefacção por uma circunstância que aproveitam para denunciar, e que, em seu entender, denuncia uma clara falta de planeamento: a instalação de tubagens que afinal se encontravam no eixo errado, e que tiveram de ser duplicadas depois de já estarem concluídas – um custo que pesa, obviamente, sobre o contribuinte.

A chegar-se à frente nas críticas à Câmara Municipal do Funchal, que acusa de insensibilidade para com a situação dos lojistas e comerciantes daquela rua, está o relojoeiro Alexandre Pita, proprietário da conhecida Relojoaria Pita. E o seu aborrecimento e indignação encontram eco nas palavras de diversos outros empresários daquela rua, com quem falámos. Todos são unânimes em denunciar uma quebra muito acentuada de clientela, que associam aos trabalhos efectuados naquela rua por uma empresa ao serviço da edilidade funchalense. Todos estão fartos do barulho dos martelos pneumáticos, da poeira que desde há meses lhes invade as lojas, da lama que se acumula nos passeios, com passagem de peões muito condicionada, das interrupções frequentes do trânsito automóvel na artéria, que são acompanhadas pela presença de maquinaria pesada e camiões. Todos anseiam por um fim para as obras. “Já não se pode!”, protestam. “Isto é inqualificável, não aguentamos mais isto. Todo o comércio está a ressentir-se”.

Alexandre Pita não poupa nas palavras. A obra, diz, iniciou-se a 26 de Março, e era, admite, “extremamente necessária”. A mudança da tubagem de esgotos e escoamento de águas pluviais, acompanhada da melhoria da instalação eléctrica e de comunicações na zona, é, reconhecidamente, algo que era preciso fazer. Mas o que já não é admissível, diz, é que uma obra cuja duração estava prevista para três, aproximadamente quatro meses, dure até ao momento presente, “sem se ver o fim”.

“O que estamos a ouvir, é que talvez se prolongue até ao final de Novembro”. É inaceitável, considera.

Por outro lado, a estrada, cujo fecho tinha provocado grandes condicionamentos ao trânsito, e que se viu afunilada para uma faixa, depois de reaberta ao trânsito automóvel, continua a ser diariamente encerrada aos carros durante determinados períodos de tempo. E por quê, denuncia o nosso interlocutor? “Pelo que considero ser uma autêntica falta de planeamento”, denuncia.

O empreiteiro, diz este comerciante, fez passar uma tubagem de cabos eléctricos, num total de oito tubos, num determinado eixo ao longo da rua. Mas, depois da tubagem “estar já implementada, desde a esquina da Rua da Conceição à Rua das Hortas, tapada e com terra por cima, descobriram, ou lembraram-se, que faltava montar os “caixões” onde serão colocadas as novas árvores, e que apanhavam exactamente, por baixo deles, a tubagem que se tinha acabado de colocar”.

Ou seja, era preciso desviar a dita tubagem, em direcção à parede dos edifícios situados a sul, na Rua do Bom Jesus. “O que já estava feito foi destruído, foi pura e simplesmente abandonado. Fez-se um desvio e instalou-se nova tubagem. Apesar de que em Julho, o mais tardar em Agosto, já tudo estava pronto. Só que, como entretanto se descobriu que havia árvores para plantar ali… Toca a fazer tudo de novo. É estranho, e muito mau planeamento”, refere.

Entre os comerciantes com quem falámos, há quem ponha a possibilidade de que, inicialmente, não estava previsto efectuar o polémico corte das árvores no Bom Jesus, que muita gente critica. E que por isso ter-se-á planeado as coisas assim.

O dono da Relojoaria Pita é que é peremptório nas críticas ao mau planeamento, “para já não falar”, aponta, “dos custos acrescidos” que estes erros causam: “É muito dinheiro”, conclui. A ser pago pelo cidadão.

Os comerciantes, diz, estão a ser claramente prejudicados por todo este prolongamento das obras. Isso é claramente unânime entre todos com quem falámos. Por exemplo, Margarida Gouveia, do estabelecimento “Ongles”, Paulo Caires do Café Smart e outros que preferiram não dar a cara nem ver o seu estabelecimento citado, mas que concordam com Alexandre Pita.

Margarida Gouveia confessa-se farta de ver o seu estabelecimento de cabeleireiro invadido pela poeira das obras, queixa-se de uma quebra acentuada na clientela e acha incrível a maneira como “estes arquitectos, engenheiros” ou quem quer que seja que é responsável pelas obras, as está a executar. Queixa-se dos danos que a sujidade que invadiu o seu estabelecimento já causou no interior do mesmo e de claros prejuízos financeiros decorrentes da quebra no negócio.

Por seu turno, Paulo Caires, do Café Smart, diz não ter qualquer problema em dar a cara para este artigo, refere ter o mesmo descontentamento e queixa-se do inusitado prolongamento das obras: “É sempre poeira a entrar, mesmo à hora do almoço, das refeições, sempre maquinaria a andar, sempre a rua a ser constantemente interrompida e ocupada por mais maquinaria”, reclama. Concorda em absoluto com as reclamações dos outros comerciantes, denuncia uma séria quebra no negócio e refere que a sua irmã redigiu, inclusive, uma carta reclamando à Câmara Municipal do Funchal, a qual, todavia, recebeu uma resposta “absurda”, da qual até se ri na nossa presença. “Disseram-nos que mais ninguém se tinha queixado”, comenta. Ridículo, em seu entender, quando sabe que não há um comerciante na rua que esteja satisfeito com o andar das coisas.

Aliás, já em Julho os comerciantes da zona dizem ter mantido uma reunião com o vice-presidente da autarquia funchalense, Miguel Silva Gouveia, e na qual esteve também um representante da ACIF, a câmara de Comércio e Indústria.

“Quando pusemos a questão dos custos, dos prejuízos, que isto nos estava a causar, o sr. vice-presidente não quis saber de nada”, acusa Alexandre Pita, que foi à reunião. “Disse que a obra seria rápida, e que dentro de mais um mês, estaria pronta. Estamos já agora em Outubro”.

A CMF acenou aos comerciantes com alguns benefícios, como a isenção da taxa de água, alguns impostos municipais. Mas, refere, isso em nada ajuda efectivamente quem tem sofrido grandes prejuízos com o arrastar desta situação. O relojoeiro Pita dá o exemplo da cidade do Porto, para apontar que, em zonas que tiveram de passar por obras idênticas, “fez-se um levantamento do movimento que eles tinham e do volume de negócios, e mensalmente os comerciantes recebiam uma comparticipação”, para ajudar a enfrentar as dificuldades.

Ora, aqui no Funchal, critica, não há equivalente. “Três meses, a gente ainda aguenta, agora, já se está a caminho de sete meses!”

Da reunião na CMF, no Verão, Alexandre Pita saiu muito desiludido. “Fiquei com a ideia de que nos poderiam dar algumas contrapartidas. Mas as contrapartidas que efectivamente nos dão são migalhas para aquilo por que estamos a passar”.

Já relativamente à redução da rua de duas para uma faixa de trânsito, não é consensual entre os comerciantes. Há quem ache que se circulava demasiado depressa por causa das duas faixas, a 70 e 80 km/h, por vezes, não sendo isso já normal na entrada de uma cidade. A redução para uma faixa faz com que o trânsito passe mais lentamente. Por outro lado, há quem considere, como Margarida Gouveia, que o que se fez, inclusive com o inusitado corte das árvores, foi destruir a beleza de uma entrada emblemática na cidade do Funchal, ao mesmo tempo que se complicou severamente o trânsito numa zona de escolas, onde necessariamente se tinham era de tomar medidas para que o mesmo fosse mais fluido.

“É um pau de dois bicos”, admite Alexandre Pita. Se há o supracitado aspecto que considera positivo, considera, por outro lado, que a circulação de viaturas de socorro, ou de combate a incêndios, no caso de sinistro, “não está devidamente salvaguardada”.

Os comerciantes constatam que a Rua João de Deus, que antecede a Rua do Bom Jesus, está completamente bloqueada, com pinos metálicos verdes em cima dos passeios, árvores que impedem os carros de subir o passeio para dar passagem a carros de bombeiros, e uma faixa de rodagem ocupada por estacionamentos pagos, algo que Margarida Gouveia, da “Ongles”, por exemplo, considera não fazer sentido. Os veículos não têm, por outras palavras, para onde se desviar. A Rua do Bom Jesus, reduzida a uma faixa, concorre para tornar ainda mais difícil o tráfego de carros de bombeiros, por exemplo, em caso de grave incêndio. O que pode ser catastrófico tendo em conta que há muitos edifícios antigos na zona, que corre o risco de “ficar completamente bloqueada, em caso de incêndio”.

A boca de incêndio corre o risco de impedir a passagem dum carro de bombeiros que queira subir a Rua da Conceição

Alexandre Pita, a este respeito, aponta mesmo o exemplo do sítio onde colocaram uma boca de incêndio, na esquina da Rua do Bom Jesus com a Rua da Conceição. “Se chegar ali um carro dos bombeiros que queira virar para subir, ou vai ficar bloqueado pela boca de incêndio, ou vai arrancá-la no seu percurso. É um contra-senso, o que ali está”.

A questão dos estacionamentos sobre uma das antigas faixas de rodagem, como se fez na Rua João de Deus, também não é vista da mesma forma por todos os empresários. Alexandre Pita, por exemplo, é um dos que entende que poderia ser uma maneira de suprir a falta de estacionamentos na baixa da cidade, e chamar pessoas para o comércio do centro. Em todo o caso, acha que são precisos muitos mais estacionamentos no centro da cidade. “O comércio do Funchal, enquanto não tiver estacionamento com a mesma facilidade dos “shoppings”, não conseguirá fazer frente aos mesmos. Podem vir com todas as promessas do mundo, mas o estacionamento é sempre a parte principal. Nenhum “shopping” funciona sem estacionamento, e se o estacionamento de um “shopping” ficar a duzentos metros do mesmo, ninguém vai lá, que as pessoas nem sequer querem andar 200 m”.

No Funchal, reconhece, há alguns parques de estacionamento, mas “bem no centro, são muito poucos”, e têm custos que “se alteram durante os meses do ano, o que é um erro tremendo. Basta haver um evento e os preços já se alteram”.

O que era preciso, diz, era um estacionamento subterrâneo mesmo no centro do Funchal, como, lembra, chegou a estar previsto para a Praça do Município. Não é com estacionamentos no Almirante Reis que as pessoas continuarão a fazer compras no centro do Funchal, porque as pessoas “não estão para carregar com sacos até lá”.