Ensino superior, UMa e ciência: dar um futuro à Madeira

A educação, ensino superior e ciência devem ser pilares fundamentais da visão de desenvolvimento de longo prazo de Portugal e da Madeira. Um região ultraperiférica e com um mercado de reduzida dimensão como a Madeira precisa de apostar em sectores económicos de alto valor acrescentado e que não exijam elevados custos de transporte como o desenvolvimento de software, aplicações, conteúdo digital ou jogos; nanotecnologia; bioquímica; biocombustíveis ou indústrias criativas, como a criação de filmes de animação e outros conteúdos audiovisuais ou design de: interior, gráfico, moda, jóias, brinquedos, etc. Para essa aposta nestes sectores de alto valor acrescentado é crucial ter profissionais bem preparados e nesse sentido é fundamental que a Universidade da Madeira seja uma universidade de referência e excelência nos sectores definidos como estruturais para a economia da região e ao mesmo tempo em consonância com a evolução do mercado de trabalho.

Actualmente as universidades portuguesas, onde a Universidade da Madeira não é excepção, estão fortemente condicionadas com as limitações externas, mas também internas na substituição de professores que permitam a adequação da sua oferta educativa à realidade do mercado de trabalho e da economia regional. Essa desadequação cria problemas sociais e económicos como: a quebra das expectativas dos alunos e a incapacidade da economia de gerar inovação e diferenciação nos sectores mais estruturais e com maior probabilidade de impacto positivo na economia regional. No quadro abaixo, ficam os cursos leccionados na UMa e o número de vagas abertas para o ano lectivo 2017/2018 que provam a clara desadequação da oferta educativa desta universidade com a realidade económica regional.

Curso 1º Ciclo de Bolonha Nº de vagas (1ª + 2ª fase) Nº de colocados (1ª + 2ª fase)
Artes Visuais 36 6
Comunicação, Cultura e Organizações 38 38
Design 29 29
Estudos de Cultura 73 42
Línguas e Relações Empresariais 37 39
Psicologia 32 35
Bioquímica 33 26
Engenharia Civil 20 2
Engenharia Electrónica e Telecomunicações 35 6
Engenharia Informática 61 62
Matemática 34 9
Ciências da Educação 29 31
Economia 73 33
Educação Básica 22 23
Educação Física e Desporto 33 36
Gestão 60 65
Biologia 36 11
Enfermagem 33 33

As principais condicionantes externas que impossibilitam o desenvolvimento da qualidade das universidades e a sua evolução mais de acordo com a realidade social e económica são a falta de fontes de financiamento, grande distância entre decisores políticos e decisores académicos que muitas vezes cria as condições para a criação de legislação que promove a manutenção de um status quo e a redução da procura em termos de alunos. Como forma de promover soluções para estas condicionantes externas, na minha opinião, é importante:

1)     Que o Governo Regional passe a ter a tutela da Universidade da Madeira e que passe a contribuir também para o orçamento dessa instituição;

2)     Implementação de Júnior Empresas na Universidade da Madeira potencializando: a aproximação da Universidade à sociedade civil e ao mercado, bem como a componente de aprendizagem prática dos alunos ao mesmo tempo que ajuda no financiamento complementar da academia;

3)     Reforço das bolsas de estudo do Governo Regional e criação de novos escalões de apoio para níveis de rendimento familiar per capita superiores aos actuais limites para a concessão de bolsa;

4)     Melhorar as condições e abrangência dos empréstimos de garantia mutua para os estudantes do ensino superior;

Por outro lado, a principal condicionante interna que potencia este mesmo desfasamento da oferta académica face à realidade regional deve-se ao tipo de governance interno das universidades que promove a manutenção do status quo visto que a grande fatia do poder na eleição dos reitores e consequentemente na definição da estratégia da instituição está nas mãos dos professores e assim sendo, nenhum reitor tem grandes hipóteses de eleição se tiver uma proposta para a academia que mexa substancialmente na oferta académica e consequentemente na necessidade de recursos humanos. Assim sendo, considero crucial que se promova um novo modelo de eleição do reitor com uma distribuição equitativa entre representantes: 1) do Governo/Sociedade Civil; 2) dos alunos; 3) dos professores/funcionários não docentes. A distribuição do poder por estes 3 grupos, garantindo que nenhum deles tem capacidade de decisão unilateral sobre os destinos da instituição, permite criar as condições necessárias para que os superiores interesses da Universidade, no longo prazo, sejam defendidos.

Por fim, defendo a implementação das seguintes medidas com o objectivo de melhorar a qualidade de ensino, aumentar a autonomia das universidades e contribuir para a democratização do ensino superior em Portugal:

1)     Promover o fim dos testes estandardizados, ou seja, exclusivamente estilo escolha-múltipla nas universidades;

2)     Implementação da semana das actividades extra-curriculares, conforme acontece em outros diversos países europeus, em cada um dos semestres académicos como forma de promover a aquisição de competências sociais, culturais ou desportivas e o reconhecimento da importância dessas competências no desenvolvimento curricular dos estudantes;

3)     Promoção da autonomia para que cada universidade defina os seus critérios de admissão no acesso aos seus cursos substituindo a selecção exclusivamente baseada na média de candidatura;

4)     Luta para que, a nível nacional, se decida pela isenção de propinas para os primeiros anos de estudo, por exemplo: duração média de conclusão do curso, a exemplo do que é feito em diversos países europeus, como forma de promover a maior democratização do acesso ao ensino superior e a redução do abandono escolar, por razões económicas.

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Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.