Os pombos de Sete Rios

Quando, à minha volta, as paisagens humanas me afrontam com o descalabro das suas chacinas e devassidões, pede-me o amor à vida e à alegria que eu me resguarde de possíveis danos, porque tenho a isso direito e porque não possuo armas capazes de arrostar com a medida dessa violência. O único instrumento de defesa que possuo é o da palavra escrita. A palavra  que  quase toda a gente assume como sendo fugaz e inoperante. Mesmo assim vou dizendo o que penso e, se não posso interferir nos destinos do mundo, vou cuidando do meu; e relembro a quem eventualmente passe os olhos por estas linhas, que há outras espécies, além da espécie humana, merecedoras de atenção.

A verdade é que, mais do que nunca, se assiste a um movimento de defesa dos animais, preocupados que estão alguns humanos com a destruição dos valores de respeito, comiseração, e atenção devidos aos mais fracos e indefesos; à  conta, também, do processo geológico de  defesa do  planeta. A todo o momento surgem vozes, campanhas e projectos, acções benfazejas de salvamento de espécies ameaçadas, de animais agredidos e abandonados nas serras e nas lixeiras. Está aqui em causa uma questão de sofrimento. Mas acrescento, neste momento,  o que me interessa hoje realçar:  Apesar das contingências, ressalvo a capacidade de resistência duma espécie alada que tem o seu domicílio na cidade de Lisboa: Os pombos de Sete Rios.

A Gare de Sete Rios é um largo espaço onde os pombos se sentem afectuosamente consentidos, ainda que a mole humana que por ali circula não se aperceba da sua presença. São vultos  silenciosos, esvoaçando em curtas ondulações por entre os passantes para escapar ao passo ligeiro de quem se dirige apressadamente ao próximo autocarro  de  saída. Por ali andam debicando as migalhas que os pés dos transeuntes arrastam para fora do bar, numa rotina diária que inclui, além da alimentação, os passes de discreta insinuação entre os enamorados, de passinhos leves  à volta da companheira fugidia, perfeitamente convicta do efeito iniludível do seu jogo de sedução.

Aparentemente tranquilos, os pombos de Sete Rios têm uma história por saber, que esconde alguns dramas particulares. Vejo-os e lamento o estado em que o infortúnio os deixou. Há alguns anos encontrei um deles desprovido de voo, a saltitar num pé só,  triste pé coxinho, que me inspirou uma pequena crónica. Por estranha circunstância, a ave cruzou-se repentinamente com um homem coxo e fitou-o de lado com olhos de espanto ,talvez por ter reconhecido nele um companheiro de desgraça, tão igual na diferença a que a vida os destinou.

Voltei recentemente à estação rodoviária que me leva a todo o país, nas minhas habituais  digressões domésticas. Lá estavam os pombos.

Mas a surpresa paralisou-me o olhar.  Por  ali  saltitava  ainda o pombo coxo… Seria o mesmo ?    Verifiquei depois que este lugar continha, indesmentivelmente, uma qualquer fatídica condição. Não havia apenas um pombo coxo na estação de Sete Rios, mas vários, com as mais diversas anomalias de locomoção. Pouco a pouco foram surgindo: Um de asa pendida, outro sem dedos  numa das patas, a pisar o chão com o pequeno coto calejado; alguns coxeavam sem se perceber bem donde provinha a mazela. Outro ainda, trazia a pata flectida, assentando no chão a perna até à articulação da coxa. Qual a origem da razia  que atinge esta população alada, que nem as asas lhe servem para a defesa essencial ?

Olho e penso: Nunca posso considerar a vida parcelada. Pombos e homens, aves e gente são seres expostos a uma agrura comum que é a da destruição pelas mais diversas incúrias e catástrofes.

Evoco no momento  imagens de estropiados. Folheio páginas de guerra, de terror e morticínio.

Percorro  a gare de Sete Rios com a convicção de que a vida não se explica, por ser, antes de mais, um fenómeno misterioso e por ser também uma dádiva precária sujeita a circunstâncias adversas e indomáveis.

Parto dali à procura da beleza que oferecem as paisagens do meu país. Mas a adversidade das aves mutiladas abre uma pausa de reflexão na minha serena expectativa: Um minuto de silêncio sobre a fragilidade e a imponderabilidade   da vida.