Fátima Marques destaca papel da Mulher na Literatura Portuguesa

Fátima Marques, na sua intervenção, que cativou o público presente. Foto DR.

O Serviço de Nefrologia, do Hospital Dr. Nélio de Mendonça, desenvolve hoje, no Colégio dos Jesuítas, uma jornada científica designada “A mulher e a doença renal”, que associa o Dia Internacional da Mulher à celebração do Dia mundial do Rim.

Para a sessão de abertura, foi convidada Fátima Marques, docente da Escola Secundária Jaime Moniz, que proferiu uma preleção acerca da Mulher na Literatura Portuguesa. Intercalando a sua intervenção com apartes que cativaram o público e o levaram a assistir, de forma atenta e considerada, a oradora percorreu algumas das mais marcantes produções da Literatura portuguesa, feita por homens, sobre as mulheres ou, mais recentemente, por estas.

Das cantigas de amigo, às designadas “Três Marias”, Fátima Marques recordou os diferentes modos como, ao longo dos séculos, as mulheres foram retratadas – na Literatura, sobretudo por homens – sublinhando a referência à Mãe da Ínclita Geração – lendo Camões, Júlio Dinis, Eça e Garrett, vincando, ainda, o papel de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, com as suas Cartas Portuguesas, num episódio que, como sublinhou, nas palavras da primeira, poderiam ter sido as grandes responsáveis pela inscrição, na Constituição portuguesa de 1976, do princípio de igualdade.

A oradora terminou a sua preleção com a leitura de dois poemas: um de Sofia Mello Breyner:

 

“Porque os outros se mascaram, mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam, mas tu não.

 

Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.

 

Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam, mas tu não.

 

Outro texto, de Eugénio de Andrade, dedicado à Mãe:

 

No mais fundo de ti,

eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou

o retrato adormecido

no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras

que há leitos onde o frio não se demora

e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo

são duras, mãe,

e o nosso amor é infeliz.

 

Tudo porque perdi as rosas brancas

que apertava junto ao coração

no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,

talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;

esqueceste que as minhas pernas cresceram,

que todo o meu corpo cresceu,

e até o meu coração

ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —

às vezes ainda sou o menino

que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração

rosas tão brancas

como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa

no meio de um laranjal…

Mas — tu sabes — a noite é enorme,

e todo o meu corpo cresceu.

Eu saí da moldura,

dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.

Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

 

Além da intervenção de Fátima marques, que cativou os médicos, enfermeiros e outros técnicos de saúde presentes, é de salientar também o contributo do médico-nefrologista Alves Teixeira, assim como a importância das Letras na formação, inicial e contínua, dos médicos e outros profissionais de saúde. Esta dimensão, nada despicienda, foi elogiada pelos presentes e entendida como uma mais-valia nas jornadas.