Figuras que marcam o Funchal – Maria Abreu, a alegre varredora do Bom Jesus: “Tenho orgulho no trabalho que faço”

Fotos: LR

É uma daquelas pessoas que se tornam características de uma cidade, que lhe emprestam um certo colorido. Tudo pela sua atitude positiva e modo de viver. Maria Abreu é uma figura conhecida das manhãs do Funchal. Trabalhadora dos serviços de limpeza da Câmara Municipal, exerce uma profissão frequentemente pouco valorizada, mas que cumpre uma função importantíssima. Sem o seu desempenho e dos seus colegas, estaríamos atolados no lixo que despreocupadamente produzimos.

Mas Maria Abreu não se limita a limpar a sujidade da cidade. É, ao mesmo tempo, uma autêntica psicóloga amadora. Observamo-la desde há anos, vendo com curiosidade como certas pessoas um pouco à margem do socialmente comum a procuram. Há anos era uma mulher idosa que a procurava para conversar, nas manhãs, e que trazia a sua própria vassoura para limpar com ela as ruas da urbe. Agora, é um senhor simpático e loquaz, que se apresenta como um autêntico ajudante da profissional, como se de varredor amador se tratasse. Encontra-a todas as manhãs, envergando um colete reflector para ser bem visto pelo trânsito, o qual, aliás, pretende ajudar a orientar com a ajuda de um apito. É só contemplar uma manobra automobilística que lhe desagrade, e logo chama a atenção do condutor imprudente, levando aos lábios o dispositivo sonoro. Maria Abreu ri-se, e o seu riso não deixa dúvidas de que é uma pessoa de bem com a vida. “É alegre, não é?”, questiona-nos, acerca do sorriso que exibe todas as manhãs.

Fala com muita gente no eixo cuja limpeza lhe compete, entre duas ribeiras funchalenses, a de Santa Luzia e de João Gomes, Muitos a conhecem, nos cafés, nos estabelecimentos, entre as pessoas que se dirigem para o trabalho. Alguns passam e buzinam-lhes alegremente, a ela e ao seu colega varredor diletante.

Não desdenhamos do trabalho feito pelos colegas de Maria Abreu. Antes pelo contrário, valorizamo-lo ao máximo, sendo objectivamente mais essencial e necessário do que o de muito boa gente que circula engravatada pela cidade, e se tem em melhor conta do que um simples varredor. Mas o ritmo, a vontade e o profissionalismo com que esta trabalhadora dos serviços de limpeza labora merecem ser enaltecidos. A senhora, faça chuva ou faça sol, varre a um ritmo impressionante, e com uma vontade genuína. Vê-se que tem orgulho num trabalho bem feito.

“Tenho, por acaso tenho!”, admite, sem complexos. Se acha que a labuta dos serviços de limpeza é importante? “É sim senhor! Se ninguém limpasse a cidade era bonito. Ainda bem que há este trabalho”, ri-se. “Não é? Senão, era uma tristeza”, sublinha.

A chuva e o frio matinais incomodam, mas não é nada com que não saiba lidar. Estes últimos dias tem tido muito que fazer. “Vai-se tirando o máximo que se pode”, frisa. As ruas em que trabalha não são nenhuma brincadeira para limpar; Rua do Bom Jesus, Rua João de Deus… Principalmente a última, é das poucas da cidade onde ainda existe denso arvoredo, com os seus imponentes jacarandás, mas cuja folha e pequenos ramos dão um trabalho infernal de Inverno e Verão. No Inverno, caem no chão galhos por vezes grandes. Os pequenos, somados à temível folhinha do jacarandá, ajudam a entupir as sarjetas e a sujar as ruas por todo o lado. “Já há aqui algumas sarjetas entupidas. Nem sei como foi..”, constata, aborrecida. “A chuva também arrasta os detritos…”

No Verão, as ditas folhas formam uma autêntica cola nos passeios, que se gruda na sola dos sapatos dos transeuntes e emporcalha os “trottoirs”. A somar a estas ruas, a nossa entrevistada tem também a seu cargo as travessas perpendiculares às mesmas.

Maria Abreu, que já está há 22 anos neste serviço de limpeza e salubridade, já trabalhou noutros locais, como a Avenida do Mar, mas diz que, embora tivesse as suas dificuldades, não tinha nada a ver com isto. A Rua João de Deus, até ao Campo da Barca, é bem mais difícil.

Começa a trabalhar às 7 horas da manhã, mas frequentemente já a vemos na rua pouco passa das seis e meia. “Às vezes venho um pouco mais cedo, gosto de começar adiantada”, referiu ao Funchal Notícias, bem disposta. “Às vezes facilita vir mais cedo, por causa dos carros… E eu gosto disto!”, assume. Há quem passe de carro por vezes sem cuidado com quem está a trabalhar a limpar a rua, mas a nossa interlocutora diz que felizmente, nunca apanhou, até hoje, nenhum susto. E, admite, “às vezes até tenho um pouco a mania de andar a meio da estrada!”

É uma pessoa já sénior na sua linha de trabalho, e, volta a frisar, “gosto do que faço”. Só temos que lhe estar agradecidos. Até porque, admite, “isto custa. Às vezes chega-se à tarde com as costas todas doridas… Esta é uma rua onde, por causa das árvores, em todo o lado tem lixo! Esta rua é pesada”, confessa. No Inverno é mais difícil.

“Agora, no Inverno, já tenho medo das árvores”, comenta, mas de modo despreocupado e acompanhado de risos. “Mas não é só aqui… é aqui e em todo o lado, quando pega aquele vento, já se tem mais receio”.

Mas, se as pessoas que a vêem pensam que mora no Funchal, dado o horário matinal em que entra ao serviço, enganam-se. Mora no Jardim da Serra, Câmara de Lobos, e vem para o Funchal por volta das cinco, cinco e meia da manhã, acompanhada do seu marido, que felizmente tem automóvel. Ao chegar, já tem o seu “ajudante” à espera.

“E eu vou falando, e vou rindo, e assim passa-se o tempo! Há pessoas que gostam de me vir ajudar a varrer, e eu, graças a Deus, dou-me bem com todos. Aqui, conheço mais pessoas do que na minha zona, acredite”. Acreditamos, sim. “Sempre gostei de vir para o Funchal, não sei porquê (…) A gente diz uma brincadeira, ninguém leva a mal, e assim, na “bilhardice”, é que é bom”, ri-se. Pode gostar de falar, mas trabalha como poucos. É duma eficiência assinalável, e que merece ser enaltecida.

Tem uma filha que, quando era mais nova, não tinha vergonha de a ajudar no trabalho matinal nas ruas. Aliás, testemunhámo-lo. Actualmente, seguiu um curso superior e, diz-nos orgulhosamente Maria Abreu, está a fazer um mestrado, no Algarve, em gestão de empresas. Exemplar, sem dúvida.

Despedimo-nos afirmando que gostámos muito de falar com ela. Maria Abreu sorri, com um franco “Obrigado”. E acrescenta: “Um dia feliz para si!”