O Clube dos Cinco, uma Velada Homenagem


O nº 33 da Conde de Carvalhal encerra, para os cinco primos, um sem fim de doces recordações de infância onde a leitura dos primeiros livros infantis e rores de imaginação estiveram na génese de várias aventuras e episódios que, todavia, permanecem bem vivos na memória dos seus atores.
Mais de meio século separa os cinco primos de então dos dias de hoje, recentemente entristecidos pela partida prematura do Júlio, o primo mais velho e, por isso mesmo, o mentor habitual das peripécias montadas pelos cinco primos.
Durante praticamente toda a sua infância, o palco favorito dos cenários de brincadeira e aventura das cinco crianças foi a Quinta do nº 33 e os seus jardins, com os seus relvados, lindas árvores algumas das quais tantas vezes escaladas num misto de prática circense de malabarismo equilibrista e de ingénua irresponsabilidade infantil face ao risco, os seus tanques de jardim onde nos seus primeiros anos repetidamente mergulharia o Tim num rotundo falhanço das suas experiências de competição com o Júlio que frequentemente o desafiava e de quem o distanciavam 2 essenciais anos de evolução estrutural humana, o seu pequeno bananal das traseiras e a sua modesta horta a nascente.
A larga e inclinada rampa de acesso à casa a partir do portão principal da Conde de Carvalhal também era sobejamente utilizada pelos cinco, sobretudo para as gincanas de bicicleta via abaixo, cuja mais arrojada prova de fogo era atribuir a vitória a quem corajosamente atingisse o percurso mais longo antes da inevitável travagem, de preferência sem atingir a dura parede sobranceira ao portão que os acolheria na falta disso ou num erro de estratégia com consequências mais gravosas para a integridade da criançada!
Apesar da perícia de todos na condução dos seus pequenos velocípedes, eram comuns entre eles os arranhões, as nódoas negras e outras pequenas marcas distintivas do “arrojo” demonstrado durante essas competições desportivas, sobretudo entre os micro participantes masculinos que os respetivos detentores tentavam, desesperadamente e quase sempre sem sucesso, esconder dos seus progenitores como forma de evitar o correspondente e merecido corretivo.
Cedo se desenvolveu entre os primos uma amizade e uma cumplicidade fraternais a par de um espírito de solidariedade e partilha cujos resquícios, quiçá mais acentuadamente entre os rapazes do grupo, se estendem até aos nossos dias.
Na época, estava na moda e era leitura praticamente obrigatória a dos livros de aventura dos famosos cinco da autoria da escritora britânica Enid Blyton e os cinco garotos não escaparam a essa regra. Eram oferta habitual das festas de aniversário da pequenada e, surgido o primeiro, seguiram-se os demais, absorvidos com deleite também pelos cinco amiguinhos.
Daí até que o Júlio se lembrasse de sugerir ao grupo a criação do próprio clube dos cinco foi um ápice. Todos aceitaram a ideia com entusiasmo e vai de concluir que um clube precisa de sede, local das reuniões diárias do grupo! Mas onde instalá-la? Dentro da casa da Quinta? Nem pensar, mas no exterior tão pouco seria viável pois ficaria destruída com as primeiras chuvas…
Depois de muito magicarem as crianças, surge a solução “óbvia”: teria que ficar numa loja da casa com acesso apenas a partir dos jardins, pouco frequentada pelos adultos da família, usada como quarto de arrumações e diariamente pela Florinda, a jovem e simpática costureira que prestava os seus predicados serviços de modista a toda a família. Como o espaço disponível na loja era exíguo e encontrava-se quase totalmente ocupado pela mesa de “ping-pong”, o clube ficaria então sedeado em cima da dita mesa, acedendo-se-lhe por um escadote que assim passava a ter utilidade. As pequenas cadeirinhas de vime madeirense que cada um possuía, passaram a mobilar o espaço.
Concluía-se assim, com sucesso, a primeira assembleia geral do clube dos cinco. Urgiu em seguida dotar a sede da “privacidade” adequada e nova reunião teve lugar para decidir o que fazer para isolar o espaço clubístico do resto da oficina de costura. A Ana, a segunda mais velha e a mais senhorinha do grupo, descobre a solução: comprar um tecido que submeteriam à Florinda para dele fazer um cortinado que circundasse o espaço da sede-mesa do clube.
Certo, muito bem, aprovado, mas como obter os fundos para tamanha aquisição e depois, como adquirir o tecido? Nova deliberação do grupo e ficou assente que teriam de juntar alguns brinquedos dispensáveis e uns tantos “bibelots” dispensados pelos adultos, a subtrair nos respetivos lares. Os mesmos seriam então rifados a todo e qualquer familiar ou amigo que visitasse nas próximas semanas os respetivos pais, ou ainda a qualquer estranho que ousasse tocar às respetivas campainhas! Imagine-se alguns dos visados: o leiteiro, o amolador de facas, o carteiro etc.
Esta estratégia foi posta em prática nos dias que se seguiram à correspondente deliberação e a azáfama foi grande entre todos, não escapando dela nem a Zé, irmã da Ana e do Tim, nem o David irmão do Júlio, os membros mais novos do clube. Não sem que alguns dos objetos rifados tenham sido devolvidos à procedência no ato de tiragem da rifa pelos próprios beneficiários…
Feitas as contas da escassa coleta, a Ana ficou encarregada de transpor o último obstáculo entre os cinco e a escolha e compra do tecido. Eram todos crianças, certo? Não podiam pura e simplesmente sair de casa a seu bel-prazer e muito menos alguém no seu perfeito juízo lhes venderia o que quer que fosse sem a presença de um adulto responsável! Lembrou-se então a Ana de convencer a tia Clara, uma simpática tia-avó dos cinco, solteirona e com uma vida cheia dedicada à caridade alheia que habitava a Quinta, a tratar com ela da compra e lá foi finalmente adquirida uma peça de chita com padrão colorido de duvidoso gosto, mas foi para o que deu a famosa coleta recolhida!
E lá se foram sucedendo os dias, as semanas e os meses entre tantas outras brincadeiras, travessuras e aventuras sem que do tecido surgisse a famosa cortina que determinaria a fronteira entre o clube dos cinco e a oficina de costura! Oh Aninha, que fim levou o tecido que pertence ao clube? indagava insistentemente o Júlio bem como o David, a Zé e o Tim.
A Ana sabia obviamente o que se passara e acabou por confessá-lo, mas durante algum tempo não ousara contar aos irmãos e primos que, movida por um sentimento de compaixão, solidariedade e ajuda, cedera aos desígnios da tia Clara e oferecera-lhe o tecido do clube para que ela dele confecionasse roupas que foram doadas a uma família muito carente que delas necessitava!