Physalia: centenário marcante da história naval da Madeira

Humberto Passos Freitas
Rui Marote
A 15 de Dezembro de 2026 é o centenário  do trágico acidente marítimo do iate Physalia, que naufragou ao largo do Funchal, num acontecimento que causou grande comoção na população madeirense na época. O acidente vitimou o seu proprietário Humberto Passos Freitas, além de três tripulantes e uma cidadã de nacionalidade britânica, que tinha sido convidada a ir a bordo.
Tratou-se de um dos eventos marítimos  marcantes da história local.
Fotos Museu de Fotografia da Madeira (Vicentes)
O Funchal Notícias alerta às entidades madeirenses com antecipação de seis meses, para que seja prestada uma homenagem póstuma aos que perderam a vida durante o violento temporal. Achamos apropriado dada a relevância da efeméride. Daqui deixamos o nosso apelo às entidades, entre elas a Direcção Regional da Cultura, Secretaria Regional da Economia, que supervisiona os portos  e outras e sugerimos a colocação de uma lápide na Marina do Funchal, local de convívio de velejadores, e onde na altura deu à costa o iate.
Esta história diz-nos muito, inclusive do ponto de vista pessoal. O jornalista que assina este texto viveu a sua infância na casa dos avós, a paredes meias com a Fortaleza de São Tiago, uma vez que na casa dos pais não existia um quintal.
Do balcão da nossa avó materna víamos o mar e escutávamos o turbilhão das ondas nos dias e noites de tempestade.
E também escutámos várias vezes na infância a narração do que tinha acontecido ao “Physalia”, em dias que a força das ondas engolia o calhau.
Na travessa do forte, conhecida por Beco da Artilharia, tínhamos uma vizinha de nome “Mariazinha do tabaco” que nos finais do dia visitava a casa da nossa avó para partilhar uma pitada de rapé. Era uma contadora nata de histórias e descrevia a tragédia do iate de forma vívida.
Toda a nossa família materna estava ligada ao mar, começando pelo avô Francisco, velho lobo do mar e primeiro arrais da lancha “Mosquito”, além dos tios Francisco, Luís, Alfredo, António e João, maquinistas da Gaivota, Lucia,
Carmina e da lancha que prestava assistência aos hidroaviões da Aquila Airways, que foram a principal ligação aérea da ilha da Madeira com o continente (Lisboa) e a Europa entre 1949 e 1958. As aeronaves amarravam directamente na baía do Funchal. Em dias de Inverno e mar tempestuoso também entre eles vinha à “baila” o nome Physalia.
Quem era Manuel Humberto Passos Freitas? Nascido em 1893 e falecido em 1926, foi uma das personalidades  mais marcantes, ricas e excêntricas da sociedade madeirense do início do século XX. Nascido no Funchal, estudou na Inglaterra e era conhecido pelo seu espírito boémio e irreverente, além de aventureiro. Foi um pioneiro no desporto: esteve directamente ligado à fundação do Nacional, organizou a primeira maratona na ilha da Madeira… Além disso, velejador, sagrou-se vencedor da prova do Gran Canaria Royal Yacht Club em 1919.
Terá colocado à disposição uma sua embarcação para ajudar os feridos aquando do bombardeamento dos submarinos alemães ao Funchal. Escreveu o livro “Vinte e um dias em bote” onde relatou uma audaciosa viagem que fez pelo arquipélago da Madeira em 1923. Chegou a planear a fuga de presos monárquicos do Lazareto do Funchal.
O Physalia foi construído pelo mestre António, alcunhado “quatro olhos” e lançado ao mar em Machico em cerimónia que se realizou a 7 de Junho de 1925.  O iate tinha todos os requisitos exigidos para uma viagem  longa tendo telegrafia sem fios.
Publicamos o certificado de registo do Physalia, embarcação com 18 metros de comprimento boca máxima 5,79 m e 50 toneladas.
Dispondo dum motor auxiliar a gasolina e de instalação eléctrica, a sua construção custara cerca de 800 contos. A construção fora dirigida e executada em conformidade com as indicações do seu proprietário Humberto Passos Freitas, um verdadeiro homem de aventuras.
Humberto dos Passos Freitas chegou a fixar residência em Machico fazendo parte  da comissão administrativa da Câmara local. Alugou o forte de São João Baptista para residência de férias na baía de Machico junto ao cais assistindo diariamente à construção, e dando aulas de marinharia aos pescadores locais. O iate estava registado como embarcação de luxo para lazer privado, nele realizavam-se festas  de elite e exploração marítima, mas tinha finalidade mais ambiciosa: na época estava registado como iate oficial da “Expedição Portuguesa  do Pacífico”.
O objectivo era utilizá-lo para grandes viagens de exploração e aventuras transoceânicas unindo o gosto  pelo mar à investigação e ao prestígio internacional.O porquê de se chamar “Physalia”? Este nome de baptismo fazia referência ao nome científico da “caravela portuguesa” que aparece nas águas da Madeira e a que os residentes chamam águas vivas ou alforrecas.
O que aconteceu naquela trágica noite de 15 de Dezembro de 1926: o barómetro começou a subir, o vento rondou mais para sudoeste, continuou a soprar  cada vez com maior violência e as vagas foram ficando mais e mais alterosas, invadindo a Estrada da Pontinha e subindo até o largo da Sé. Várias fragatas encalharam, uma de carvão e outra de água. Nos navios Butio e Falcão, as tripulações chegaram abandonar as embarcações.

Às seis horas da tarde o mar inspirava sérios cuidados e muitas embarcações tinham mudado de ancoradouro, indo fundear mais ao largo. O Physalia tinha duas âncoras de 250 Kg cada uma, tendo qualquer delas 120 braçadas de corrente. Segundo relatos de altura uma das amarras rebentou-se e pediram socorro pois estavam prestes a naufragar.
Impelido pelas vagas alterosas, o iate aproximava-se rapidamente de terra quando era já noite cerrada pelas  19h05. Foi então que uma enorme vaga atirou o navio para a terra apagando -se a electricidade de um dos mastros.
Os tripulantes fram arrebatados pelas ondas e atirados para terra, sendo um deles agarrado e salvo por João Firmino Caldeira, empresário  dos cinemas da Madeira.
Foi este indivíduo, de seu nome Óscar da Mota alcunhado por “Marão” que sobreviveu. Além do proprietário Humberto Passos estavam a bordo 4 tripulantes: Manuel Sousa (conhecido  como o Ramalho ), António Marques, José da Silva  e finalmente o sobrevivente Óscar Mota o “Marão”.
Além disso, como convidada de  Humberto estava no iate a cidadã britânica Mrs. Angela George, que tinha ido para um passeio marítimo. Esta jovem britânica chegou ao cais do carvão dos Blandy de táxi, quando o mar já estava alteroso. O taxista que a transportou não conseguiu demovê-la de ir a bordo. Com a ajuda de uma pequena embarcação (canoa), a britânica foi a bordo do Physalia.
O Funchal Noticias descobriu o filho do Óscar Mota, o “Marão”,  o único sobrevivente. Nas nossas pesquisas  no arquivo regional  verificámos que os jornais que noticiavam esta tragédia só mostravam fotos do Physalia encalhado no  calhau nas proximidades do Teatro Circo, Praça da Rainha hoje onde hoje se encontra a escadaria principal da Marina. A maioria do texto poucas imagens apresentava, muito menos dos protagonistas do acidente.
Max Römer, o pintor que tanto retratou a Madeira, também pintou o iate Physalia.
Uma foto do sobrevivente era importante para a documentação, pelo que agradecemos a Óscar Freitas Mota  que nos enviou três fotos do pai, uma delas passado algum tempo posterior à tragédia segurando uma miniatura do Physalia que lhe foi oferecida e executada pelo seu irmão Vicente Mota.
Na altura do desastre Óscar Mota tinha 21 anos. Nasceu em 1905 e faleceu em 1981  com 76 anos.  40 anos passados Oscar o “Marão” deu a sua primeira entrevista ao DN-Madeira, da qual reproduzimos alguns excertos com a devida vénia. Mais uma vez nenhuma foto do entrevistado apareceu.
Óscar Mota, o Marão, sobrevivente.
“Tínhamos  sido avisados de terra que se aproximava temporal rijo. O srº Humberto aconselhou-nos a não abandonar o local onde se encontrava ancorado o Physalia. Informou-nos que a previsão que esperaria sopraria fora
da nossa zona. Aconteceu precisamente ao contrário. As pontas do ciclone passaram em fúria. Tinhamos as duas âncoras no fundo. Eram 17h50 quando as vagas começaram arrastar a Physalia. Colocámos o motor em movimento, a água a lavar o navio de lés a lés, introduzindo-se  na casa das máquinas. O patrão embora visse que praticamente nada podia fazer tencionava encalhar o iate mais rapidamente possível. o navio era impelido ora para um lado ora para outro. Então eu e o Cruz (maquinista) subimos para o convés à procura de socorro. No convés Humberto Passos Freitas, Mrs George e o marinheiro Óscar Mota “Marão” já invadidos pelo terror, tentavam o impossível.
Os restantes tripulantes Cruz, maquinista e Álvaro cozinheiro, Manuel Melim marinheiro a dias e o Fiula calafate encontravam-se na sala do Physalia, sacudidos pelo temporal. A primeira pessoa arrastada foi  a senhora George. Eu e o contramestre  agarrávamos com força os seus braços, quando subitamente nos vimos sós no convés. Avisámos
o patrão, que imediatamente se lançou a água a tentar salvar Mrs George. Nunca mais os vimos. Abracei-me ao meu primo e já sem forças, só lhe disse: Joaquim, vamos morrer todos.vAinda lhe ouvi responder “Tenhamos paciência”. E de repente chegou a minha vez. Estava no meio das vagas enrolado por alguns cabos do navio. Mas  não foi desta vez que vim para terra. O mar furioso colocou-me de novo a bordo. Passados alguns minutos, vi-me na água…mas a pôr cobro felizmente à minha pouca sorte não morri porque a Previdência não o quiz. As vagas arrastaram-me até junto do ilhéu e então depois ao mar de fora me colocou no calhau. Nunca mais soube dos meus colegas”.
Óscar Mota, já mais velho.
Após a tempestade veio a bonança e o corpo da britânica apareceu bem longe, no dia 19 na Baía de Abra, descoberto por pescadores do Caniçal que andavam a apanhar madeiras no mar. O cadáver estava de braços em calhau seco e devia ter encalhado com a maré cheia. Estava coberto de pedaços de  madeiras, completamente nu  tendo apenas uma cinta. O corpo de Humberto Passos nunca apareceu.
Logo após o desastre circularam no Funchal poemas populares de 36 versos escritos de forma anónima. Eram versos que homenageava a memória dos que morreram  e sobreviviam ao naufrágio do Physalia  eternizando este conto na memória oral da ilha. Carlos Martins, distinto escritor, integrou o trágico fim do iate no desfecho do seu romance ” As Figuras de Proa do Marco Wanda”.
Fizemos pesquisas no Cemitério Inglês para encontrar a campa de Mrs George. Nos livros do cemitério que encontram guardados num cofre surge o nome da cidadã do Reino Unido, mas não estava correcto. Voltámos ao arquivo regional: em vez de Katherine era Angela George e foi sepultada no Cemitério Britânico no dia 23 de Dezembro de 1926 sob o registo nº710.
De novo no cemitério britânico, o responsável Sr. Carlos  localizou de imediato o  número da campa. No local encontrámos esse mausoléu de mármore um cilindro geométrico com um corte transversal (ver fotos).
As inscrições na base estavam “tapadas” por terra e lodo não sendo possível uma visualização. Mais um erro a britânica enterrou-se  a 21 e não a 23. Pela primeira vez descobrimos a idade da náufraga: 31 anos, o que os diários da época nunca divulgaram.
No dia seguinte voltámos ao cemitério e lavámos a base, fotografando  e colocando a história no lugar certo
para os leitores do FN se aperceberem do que atrás descrevemos. O monumento é “consagrado à memória de Mrs. Angela George (…) falecida no grande furacão na baía do Funchal a 15 de Dezembro de 1926”.
Vivemos, como dissemos, na infância a história desta tragédia não só por tê-la ouvido ser contada várias vezes: tínhamos sete anos de idade e fomos à casa no Caminho de Santo António quando integrávamos os escoteiros, como lobitos da Alcateia 26 do Socorro. A nossa chefe regional era Dalila Passos Freitas, filha do malogrado Humberto Passos Freitas. Nos arredores dos jardins da casa estava a cabine do “Physalia”. Não sabemos se ainda existe  a cabine ou fim que levou.
No dia 15 de Dezembro 2026, data do do centenário, netos, amigos e filho do sobrevivente irão prestar homenagem póstuma a um marco da História da Madeira. Espera-se que o alerta do FN para a efeméride ser assinalada seja ouvido.

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