Comparar uma criança com outra é desastroso, humilha, reprime a ousadia e fomenta a insegurança.
Dizer “não” também é cuidar. E há crianças a crescer quase sem ouvir isto. O “não” não traumatiza. O que desorganiza é a ausência de limites. As crianças precisam de saber até onde podem ir. Um “não” claro é segurança. Porque mostra que há um adulto a sustentar o que é importante… mesmo quando é difícil. E sim… vai haver choro. A frustração faz parte do crescimento. E o adulto não está ali para evitar emoções. Está ali para ensinar a lidar com elas. “Não, não podes bater.” “Não, não vamos comprar isso hoje.” “Não, agora é hora de dormir.” Isto não é rigidez. É estrutura. Uma criança que nunca ouve “não” não se torna mais livre. Torna-se mais perdida.
Vivemos numa sociedade que ensina a resolver problemas externos, mas não a lidar com os problemas internos. Porquê? Talvez nunca tivemos tantos avanços tecnológicos e ao mesmo tempo tantas pessoas com uma comunicação interna esgotadas.
As escolas e as micro sociedades onde as crianças estão inseridas não as ensinam a lidar com a Comunicação ficam apenas pela superficialidade da Fala. Os professores trabalham nas escolas ensinam a matemática mas não ensinaram a trabalhar a matemática. Quero eu dizer com isto, que o sistema educacional ensina que dividir é sempre a diminuir mas não ensinaram a trabalhar a matemática da Comunicação, onde dividir a Comunicação e a Linguagem compreensiva e expressiva é aumentar a capacidade de superação. As escolas ensinam a trabalhar numa empresa, ensinam a construir processos, ensinam a falar mas não ensinaram como trabalhar a nossa comunicação interna nos dias mais tristes da vida e são estes mesmos dias menos bons que escrevem a nossa vantagem no percurso de vida.
Na minha prática clínica, enquanto Terapeuta da Fala, além de recuperar e/ou estimular e maximizar funções orofaciais, comportamentos comunicacionais é indispensável e que partilho com quem me procura e vai muito para além. Cada paciente, independente da idade, conseguir gerir a comunicação que tem adquirida e transformá-la na sua melhor versão. É um processo de auto-conhecimento comunicacional e reconhecer os seus padrões linguísticos e depois conhecer novos padrões que desconheciam.
As crianças precisam aprender a pensar. As crianças necessitam de vários momentos diários de diálogos que não cabem no tempo. E com a mesma intensidade, as crianças carecem de tempo passado no estado de tédio e solidão. Muitas crianças não conseguem ficar 5 minutos sem clicar no ecrã dos telemóveis e dos tablets porque sentem um vazio comunicacional. Caros educadores, o tédio e a solidão são importantíssimos para uma saúde comunicacional. Infelizmente, muitas crianças estão a processar a comunicação numa velocidade muito rápida. Algumas rotuladas de “hiperativas” mas muitas vezes estão saturadas de informações comunicacionais. E estas mesmas crianças desenvolvem-se em meios nos quais os adolescentes e os adultos estão igualmente nesses níveis de saturação comunicacionais. A sociedade está cada vez mais a adoecer porque mais importante do que minimizar os sintomas é imperativo curar a etiologia. As crianças são ávidas de saúde comunicacional, serem mais leves, mais tranquilas… em vez de serem escravas dos outros, a viverem os estímulos dos outros. Treinar a comunicação é inegociável para o desenvolvimento global das crianças e as habilidades comunicacionais são indispensáveis.
Muitos pais acreditam que ceder aos filhos é mais fácil do que aguentar o grito. No início até parece mas depois vem outro e o próximo grito. Se a criança aprender que gritar funciona depois de uma birra vem duas ou três.
E por hoje ser o dia de todos nós, sim todos nós fomos e somos crianças, a neurociência é fascinante porque acolher uma criança não é ceder, quando uma criança faz uma “birra”, o redirecionamento interrompe o estado comunicacional e depois, a criança precisa de acolhimento, escuta e um limite bem claro e acima de tudo sentir que o mundo não gira a volta dela. Todas as crianças, todos nós precisamos de regras não porque são rígidas mas porque estruturam-nos e dão-nos segurança. E o melhor de sermos crianças é não haver manual de sobrevivência. E haver uma vida em comunicação plena. Caro leitor acredite, todas estas palavras precisam de um habitat para viverem acordadas.
Drª. Luísa Maria
Terapeuta da Fala
Especialista em Miofuncional Orofacial
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