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Nos dois últimos meses, nas universidades, terminaram as aulas com as avaliações da Época Normal. Houve as provas para os candidatos chamados “Maiores de 23 Anos”, para os da “Dupla Certificação” e para os que pretendem mestrados destinados ao ensino, além dos exames da Época de Recurso e dos da Época Especial, entre muitas reuniões, várias burocracias – incluindo elaboração de relatórios – e diversos trabalhos de investigação. Orientaram-se os estudantes para os trabalhos finais, com leitura para apreciação de dissertações, relatórios de estágio ou trabalhos de projecto. Estão ainda a decorrer análises de candidaturas a mestrado e, de certeza, no meio de tanto trabalho, ainda deve ter ficado esquecida a referência a mais alguma responsabilidade. Esta é a vida de qualquer docente universitário, mas todos os professores, seja de que nível de ensino forem, realizam diversos trabalhos, depois de as aulas terminarem e de os estudantes desejarem “umas boas férias”. Quando não dão aulas, e “dar” é um verbo relevante, têm um número considerável de outras coisas para fazer.
Dizem que a Inteligência Artificial (IA) nos vai substituir. Será? Espero estar cá para ver. De bom grado lhe daria uma parte do trabalho que tenho para fazer, mas, pelo que verifico, não é suficientemente autónoma (inteligente) para o concretizar sozinha. A IA trata dados e produz algo a partir desses materiais, mas não é capaz de os criar de raiz. Costumo dizer aos estudantes que o cérebro deles é a melhor máquina que existe. Eles, se acreditarem nas suas capacidades, são mais inteligentes do que qualquer telemóvel, computador, etc. porque podem raciocinar e ter ideias: é isso inovar. Verifico, no entanto, que uma grande parte prefere confiar na máquina. Torna-se bem mais fácil, já que pensar e trabalhar ocupam tempo e requerem esforço.
Apesar dos afazeres profissionais, o acompanhar das notícias (os jornais e os outros meios de comunicação social continuam a ser fundamentais para mim) tem, diariamente, uma importância muito grande porque permite não desligar da vida da comunidade. Além disso, é parte do trabalho docente saber o que está a acontecer na sociedade. Nas rádios, nas televisões e na imprensa, vão sendo recorrentes as notícias relativas às “trapalhadas” nos exames nacionais, no ensino pré-universitário. Tudo começou – se dei bem conta – com uma questão de uma prova de Português, que já se encontrava, há muito, num manual de uma editora conhecida. A situação evoluiu para as digitalizações dos exames, que provocaram dificuldades nas leituras destes, continuando os problemas com as atribuições das provas aos docentes avaliadores e, segundo parece, ainda não terminou a situação, mesmo se as candidaturas ao Ensino Superior já começaram e os exames da 2.ª Fase também. Enfim, há uma série de problemáticas alarmantes, a que o Ministro da Educação (aqui a Ciência e a Inovação do Ministério, pouco importam) não consegue dar resposta adequada, embora se multiplique em entrevistas, porque não está nas mãos dele o processo, mesmo se é o responsável máximo por tudo o que vai acontecendo. O prometido dia com a divulgação das classificações da 1.ª Fase não trouxe a calma esperada. Houve, como nunca visto, pela informação que tenho, escolas abertas pela noite dentro e ao sábado (Ao domingo também?), para consulta de pautas afixadas, e da sua permanente substituição – devido à indicação de “suspenso” – pelo modo mais tradicional que existe. Muito papel se gastou nestes dias, pelas escolas!
Com tanta Inteligência Artificial, não haveria uma forma de resolver isto num instante? Se o ser humano complica tudo, ou quase tudo, em que se mete, acabam por ser sempre as máquinas a bloquear o sistema. Neste caso, terão sido ambos. Os computadores, os telemóveis e os equipamentos afins fazem maravilhas, auxiliando-nos em inúmeras tarefas, mas, quando avariam ou têm um problema qualquer, é infernal. Parece que até houve classificações abaixo de zero, devido ao processamento digital… Numa recente formação a que assisti sobre o tema da IA, vi, bem visto, com os meus próprios olhos, que a Inteligência Artificial pode criar um texto de dezenas e dezenas, centenas e centenas de páginas, em segundos. Incrível! Pedimos e somos, imediatamente, todos atendidos, ou servidos, em simultâneo. A escrita da IA obedece a um tom específico e a um tipo de destinatário preciso. Ninguém consegue bater a máquina, neste ponto. Ora, se a IA faz isto e muito mais (vi criar um “site”, também de um momento para o outro, assim como imagens, fotografias, entre outras ilustrações), por que razão não a usar para determinados serviços rotineiros e nada criativos? Ajudaria a elaborar um relatório a partir de dados numéricos; corrigir provas de escolhas múltiplas (ou “de cruzinhas”, como se costuma dizer), entre outros trabalhos do género. Sim, nada impede que se use, mas… Há sempre um “mas” que deixa antever contrariedades. Foi, segundo compreendi, o que aconteceu com perguntas de escolha múltipla de um exame de Físico-Química. A “trapalhada” dos exames nacionais é um exemplo claro de que, se o ser humano comete falhas, a máquina e a IA cometem muitas mais. Esta até tem “alucinações”, que dependem do que se lhe pede: o problema estará em quem pede, ou melhor, no modo como o faz. Acredito, no entanto, que a ideia é boa, porque corrigir exames é um tormento de horas e horas, para decifrar caligrafias e de leitura de textos manuscritos com problemas linguísticos e lógicos de diversa ordem. Se a máquina os corrigisse sozinha e apenas víssemos os resultados, seria fantástico. Enquanto isso não acontecer, é um autêntico tormento que se transforma em quebra-cabeça para os professores, sobretudo quando há textos para avaliar.
Ao ler um texto impresso, sei, quase imediatamente, quando foi escrito ou não por uma pessoa. Uma das marcas é o uso recorrente de “e” e de “mas”, em especial em início de frase. Quantas vezes diz “e” ou “mas” por dia? Já experimentou contá-las? Dá-se conta de que repete constantemente estes dois elementos linguísticos que se costumam classificar como “conjunções”? Uma vez, decerto, não dirá porque o discurso se constrói numa sucessividade de sequências que se juntam a outras, onde a conjunção (copulativa) “e” vai, invariavelmente, reaparecendo. Na fala, o curioso é observar que esta conjunção há muito se transformou em “conector” iniciando frases. É como se não se pudesse prescindir deste “E”, que não tem outra utilidade a não ser a de sublinhar que a frase se liga com a anterior, numa sucessividade textual continua. Na escrita, o conector “e” serve de elo, (pleonasticamente, de ligação) entre frases, tornando-se desnecessário. A bem da verdade, na oralidade, até se compreende o seu uso, uma vez que o falar implica ir pensando no que vem a seguir, sendo aquele “e”, ao qual eu juntaria reticências (“e…”) uma marca de que o pensamento se está a formar e a transformar em palavras. Indicia que a fala não terminou, estando em construção o discurso. Gosto de ler entrevistas e sei que elas foram transcritas de gravações quando este “e” de início de frase (com maiúscula “E”) reaparece sistematicamente. É sinal de que quem está a ser entrevistado falou espontaneamente, enquanto elaborava o discurso no sentido de responder às perguntas que lhe foram sendo colocadas. Não se pode considerar o conector equivalente da conjunção, visto que os dois usos não têm a mesma função. Poder-se-ia pensar que aconteceria de igual modo com a conjunção (adversativa) “mas” porque também vai ocorrendo em início de frase. Contudo, do meu ponto de vista, não é bem o mesmo. Enquanto “E” – conector – pode ser eliminado, “Mas” – conector – tem diversos sinónimos que podem ocupar esse lugar.
Desafio a escutar com atenção quem fala ou a ler com cuidado quem escreve, para tirar conclusões. Se quiser compreender um pouco mais, consulte gramáticas de língua portuguesa. Facilmente se prescinde de “e” em início de frase, enquanto isso é mais complexo com “mas”. Por regra, deveria vir após uma vírgula (“, mas”) porque, em início de frase, pode ser substituído por elementos como “porém”, “contudo”, “no entanto” ou “todavia”. Experimente e verá a diferença. Evitará muitas repetições, quando fala ou escreve, tornando mais claro o discurso. A propósito, quantas vezes empreguei eu as conjunções “e” e “mas”? Alguma vez as coloquei em início de frase, como conectores? Usei mais uma conjunção ou a outra? Por que razão será? Consegue saber se o meu texto foi escrito por mim ou pela IA? A singularidade do que escrevi e as imperfeições que encontrar indicarão que não foi a IA, que nunca me substituirá na escrita de crónicas. No entanto (poderia ter escrito “Mas…”), fico à espera que possa corrigir exames, com respostas manuscritas longas, sozinha, se é tão inteligente como o próprio nome o pretende. Será a Inteligência Artificial realmente inteligente?
LÍNGUA-SOCIEDADE-CULTURA
Helena Rebelo
Universidade da Madeira (FAH-DLLC e CIERL), Funchal, Portugal
CLLC da Universidade de Aveiro, Aveiro, Portugal
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