Freguesias da Madeira: Jardim da Serra

IGREJA DO JARDIM DA SERRA. FOTO: © ANABELA GOMES, MAIO 2026.

 

Nelson Veríssimo

A freguesia do Jardim da Serra, do concelho de Câmara de Lobos, foi estabelecida pelo Decreto Legislativo Regional n.º 11/96/M, de 4 de julho de 1996, que entrou em vigor no dia seguinte ao da sua publicação.

A nova autarquia abrangia a parte alta do Estreito de Câmara de Lobos, onde estava implantada a Paróquia de São Tiago, e correspondeu à vontade da população desta localidade, manifestada, em especial, pela participação de “Grupos de Cidadãos Eleitores”, nos atos eleitorais autárquicos entre os anos de 1989 e 1997.

ALTAR-MOR DA IGREJA DO JARDIM DA SERRA. FOTO: © ANABELA GOMES, MAIO 2026.

Nas Eleições Autárquicas de 17 de dezembro de 1989, concorreu à Assembleia de Freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, um Grupo de Cidadãos Eleitores, intitulado “Seremos Freguesia Jardim da Serra”, que se propunha concretizar uma aspiração com cerca de quinze anos: renegar o abandono votado àquele território, participar na Assembleia da Junta de Freguesia do Estreito de Câmara de Lobos e lutar pelo título de freguesia.

O projeto de elevação a freguesia implicou um debate acerca da designação a adotar, concluindo-se que o nome “Jardim da Serra” era o mais adequado e consensual.

Nas eleições autárquicas de 12 de dezembro de 1993, concorreu novamente o movimento “Seremos Freguesia Jardim da Serra”.

CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CONSOLAÇÃO, SÍTIO DO FORO. FOTO: © ANABELA GOMES, MAIO 2026.

Em 14 de dezembro de 1997, realizaram-se as primeiras eleições para a Assembleia de Freguesia do Jardim da Serra. Candidatou-se o Grupo de Cidadãos Eleitores “Unidos pelo Jardim da Serra”, obtendo expressiva vitória (58,6 do número de votos). Manuel Neto foi o primeiro presidente da Junta de Freguesia do Jardim da Serra.

Os limites da nova freguesia foram assim definidos: Norte – serras limite do concelho de Câmara de Lobos com o concelho da Ribeira Brava; Sul – Ribeira das Covas, Ribeira dos Tis, Estrada das Romeiras, vereda até ao Caminho do Foro, Ribeira do Inferno, Ribeira do Cabral, Ribeira do Ratinho até ao limite com a freguesia de Câmara de Lobos; Leste – antigo limite da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos com a freguesia do Curral das Freiras, vereda do lado leste da antena de televisão, Ribeira das Lajes até à Volta da Panelinha; Oeste – limite com a freguesia do Campanário e limite da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos com a freguesia de Câmara de Lobos.

QUINTA DO JARDIM DA SERRA (ATUAL HOTEL QUINTA DA SERRA). FOTO: © ANABELA GOMES, MAIO 2026.

A paróquia de São Tiago Menor foi criada pelo Decreto sobre a atualização das paróquias, de 24 de novembro de 1960, do bispo D. Frei David de Sousa (1911-2006). Entrou em funcionamento em janeiro de 1961. A sua primeira sede foi a Capela de Nossa Senhora da Consolação, no sítio do Foro, edificada em 1684, mas alterada posteriormente. A sede da paróquia foi transferida em 1967 para um novo templo, no sítio do Marco.

Em 15 de novembro de 2009, ocorreu a cerimónia de dedicação da nova igreja, projetada pelo arquiteto Cunha Paredes. Teve uma comparticipação de 1,9 milhões de euros do Governo Regional da Madeira e cerca de 700 mil dos paroquianos.

MAUSOLÉU DE HENRY VEITCH, QUINTA DO JARDIM DA SERRA. FOTO: © ANABELA GOMES, MAIO 2026.

De 1969 a 1972, foi pároco do Jardim da Serra o padre Mário Tavares (1934-2020), que aqui desenvolveu notável ação pastoral e social. No âmbito da promoção cívica e cultural dos seus paroquianos, o seu nome está associado à fundação da cooperativa ‘Liberdade’, à extinção da colonia, às lutas pelos direitos sociais das bordadeiras e pelo direito à água, à criação de um estabelecimento de ensino, ao movimento “Seremos Freguesia”, à dinamização do teatro e atividades culturais e à edição do jornalinho ‘Jardim da Serra’.

Há uma frase do padre Tavares que define bem a maneira como exerceu a função de pároco no Jardim da Serra: «pouco obediente a certos rituais e aberto aos problemas que cada dia vão surgindo no seio desta comunidade.» Estas palavras foram proferidas na qualidade de mandatário da lista de cidadãos “Seremos Freguesia Jardim da Serra”, nas autárquicas de dezembro de 1989 (‘Diário de Notícias’, Funchal, 18-12-1989, p. 6).

Em 11 de fevereiro de 2022, foi inaugurada a Biblioteca e Centro Documental Padre Mário Tavares Figueira, na antiga EB1/PE do Jardim da Serra, Quinta Leonor. Conta com o acervo documental e bibliográfico do homenageado, complementado pela doação generosa de mais de dois mil livros da biblioteca do padre José Luís Rodrigues, pároco de São José, natural da freguesia do Jardim da Serra, e outras doações. Estranhamente, esta biblioteca é designada de Quinta Leonor, na Rede de Bibliotecas de Câmara de Lobos.

VINHA. JARDIM DA SERRA. FOTO: © ANABELA GOMES, MAIO 2026.

No Jardim da Serra, os afamados miradouros da Boca dos Namorados e da Boca da Corrida permitem a observação da paisagem deslumbrante do Curral das Freiras, Ribeira dos Socorridos e Picos do Areeiro, das Torres e Ruivo.

A Quinta do Jardim da Serra foi construída por Henry Veitch (1782-1857), cônsul britânico no Funchal de 1809 a 1836, com suspensão de funções entre 1828 e 1832. Contudo, Veitch já se encontrava na Madeira desde 1799. Esta quinta, existente já em 1823, é referida em vários livros de viajantes, com rasgados elogios. A título de exemplo, mencionamos ‘A sketch of Madeira: containing information for the traveller, or invalid visitor’, de Edward William Harcourt (Londres, 1851). O viajante anotou a casa rodeada de jardins e árvores de diversas espécies, frondosas, bem como a plantação de chá. Descrição romântica, encontrámos no ‘Diário da Madeira’, de 13 de setembro de 1912: «onde a natureza, pelas longas alamedas da Quinta, oferece quadros da mais bela e colorida poesia».

O topónimo ‘Jardim da Serra’ associa-se à quinta de Henry Veitch, que se tornou conhecida como um fabuloso jardim na ‘Serra’ do Estreito de Câmara de Lobos.

CEREJEIRA EM FLOR. FOTO: CDISA – CENTRO DE DESENVOLVIMENTO E INOVAÇÃO SOCIOCULTURAL E AGROFLORESTAL. FB, 13 ABRIL 2026.

John Driver, no livro ‘Letters from Madeira in 1834’, registou: «At a distance on the mountains, we saw the ‘quinta’ of Mr. Veitch, the English Consul, called the ‘Jardim’; soon after which we reached the brink of the Curral.» (Ao longe, nas montanhas, vimos a quinta do Sr. Veitch, o cônsul inglês, chamada de “Jardim”; logo depois, chegámos à beira do Curral.).

Hoje a Quinta transformou-se num hotel de cinco estrelas, rodeado por jardins e árvores majestosas, com recantos aprazíveis e vestígios do passado. De salientar, o mausoléu mandado erguer pela viúva de Henry Veitch, em sua memória.

No obelisco, figura a seguinte inscrição: HERE LIE / THE MORTAL REMAINS / OF / HENRY VEITCH / H. B. MAJESTY’S AGENT AND CONSUL-GENERAL / IN THIS ISLAND FROM 1809 TO 1836 / BORN AT SELKIRK / 2nd JULY 1782 / DIED AT MADEIRA / 7th AUGUST 1857/ HE BUILT THIS QUINTA DO JARDIM DA SERRA / AND THEREIN SELECTED THIS RESTING PLACE HOR HIS / MORTAL REMAINS / THIS TABLET ERECTED / AS A TRIBUTE TO HIS MEMORY / BY HIS WIDOW. / CAROLINE J. VEITCH (AQUI JAZEM / OS RESTOS MORTAIS / DE / HENRY VEITCH / AGENTE E CÔNSUL DE SUA MAJESTADE BRITÂNICA / NESTA ILHA DE 1809 A 1836 / NASCIDO EM SELKIRK / 2 DE JULHO DE 1782 / FALECIDO NA MADEIRA / 7 DE AGOSTO DE 1857 / CONSTRUIU ESTA QUINTA DO JARDIM DA SERRA E / ESCOLHEU ESTE LOCAL PARA REPOUSO DOS SEUS / RESTOS MORTAIS / ESTE MEMORIAL FOI ERGUIDO/ COMO HOMENAGEM À SUA MEMÓRIA / PELA SUA VIÚVA / CAROLINE J. VEITCH).

A produção de cereja é uma das atividades importantes desta freguesia, embora, nos últimos anos, tenha registado uma queda drástica, devido a pragas e às alterações climáticas. Segundo me informaram, o número de cerejeiras é atualmente cerca de 70% do de há duas décadas.

Nesta localidade, realiza-se a “Festa da Cereja”, desde 1954, e há dez anos ocorre o “Roteiro das Cerejeiras em Flor”, um passeio pedestre por trilhos e pomares da freguesia. Igualmente, realiza-se a prova de atletismo “Grande Prémio das Cerejeiras em Flor” que, em 2026, teve a sua 36.ª edição.

A cada vez mais reduzida atividade agrícola limita-se à horticultura, vinicultura e fruticultura, essencialmente de subsistência.

No passado, cultivou-se, como de resto em quase todas as freguesias rurais, o trigo, recordado por José Luís Rodrigues no texto «A pisa do trigo e as mãos da minha avó: coisas de outros tempos, no Jardim da Serra» (Girão, II, 6, 2011, p. 138).

Em 1912, no Inquérito Regional do ‘Diário da Madeira’, Silva Reis dava conta de que as melhores maçãs, peras e ameixas, à venda no Funchal, provinham do Jardim da Serra. Preconizava, por conseguinte, que «o Jardim da Serra poderia e deveria ser transformado numa excelente estação agrária, onde existissem vastos e variados viveiros de árvores frutíferas, e que tivesse adjunta uma boa escola agrícola, obedecendo a todos os preceitos modernos e fazendo essencialmente um ensino prático.»

FESTA DA CEREJA, JARDIM DA SERRA. FOTO: SEM MENÇÃO DA AUTORIA, IN DN-M, DIÁRIO DAS FREGUESIAS, 6 JUNHO 2019.

Desenvolve-se atualmente, na Quinta Leonor, um projeto no âmbito da biodiversidade, da responsabilidade do CDISA – Centro de Desenvolvimento e Inovação Sociocultural e Agroflorestal, que procura preservar espécies que se cultivavam no Jardim da Serra e correm o risco de extinção, como cereais (trigo, centeio e cevada), hortícolas (semilha, batata-doce, inhame, ervilha regional e chícharo) e frutícolas (ameixieira, cerejeira, macieira, pereira e pereiro).

Se até há poucos anos deslocar-se ao Jardim da Serra era moroso, a Via Expresso entre o Estreito de Câmara de Lobos e esta freguesia, inaugurada em 28 de maio de 2023, melhorou consideravelmente as condições de acessibilidade, constituindo uma alternativa mais rápida e mais curta.

Nos ‘Censos de 2021’, esta freguesia do concelho de Câmara de Lobos apresentava 2739 habitantes, ou seja, menos 968 do que em 2001. O Recenseamento Eleitoral, de 15 de junho de 2025, registou 2987 cidadãos nacionais.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de prata, com uma cerejeira arrancada, de verde, frutada de vermelho; acantonadas em chefe, duas flores de cerejeira de ouro, perfiladas e realçadas de vermelho. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: “JARDIM DA SERRA”. (Diário da República, n.º 245, 3.ª Série, Parte A, de 23-12-2005).

BRASÃO DA FREGUESIA DO JARDIM DA SERRA.

A representação heráldica privilegia a cerejeira, por ser uma cultura com significado económico e identitário na freguesia.

Agradecimento: Dr. Manuel Neto


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