Novo hospital da Madeira: FN revela tudo o que o público quer saber sobre o projecto, que estará concluído em Março de 2018

Luís Rocha (texto) e Rui Marote (fotos), em Lisboa

O Funchal Notícias revela hoje tudo sobre o novo hospital da Madeira. No atelier de arquitectura de Ilídio Pelicano (ARIPA), na capital portuguesa, trabalha-se afincadamente para realizar o projecto do tão ambicionado novo hospital da Madeira. O labor foi iniciado em Novembro de 2016, e já está mesmo na fase final. Segundo explicou ao FN o arquitecto e sua filha Sara (que seguiu as pisadas profissionais do progenitor e com ele labora), o projecto deverá estar inteiramente concluído em Março/Abril de 2018, após a revisão do mesmo por um gabinete independente (em busca de eventuais erros ou omissões) revisão essa que se deverá iniciar dentro de cerca de um mês e meio.

As grandes definições já foram estabelecidas pelos decisores políticos e consubstanciadas pelos arquitectos e demais equipa técnica neste projecto de dimensão apreciável. Nas palavras de Ilídio Pelicano, “porque não dizê-lo? Este é o melhor e mais revolucionário hospital que se fez neste país nos últimos trinta anos. Representa, em termos de dimensão, três vezes e meia o hospital de Cascais”, outra infraestrutura em cuja concretização o atelier esteve envolvido.

Comparativamente, refira-se que o hospital de Cascais “está na ordem dos 50, 55 mil metros quadrados”. Já o novo hospital da Madeira situa-se nos 173 mil metros quadrados. Dos quais 21.000m2 de zonas técnicas e  25.000m2 de estacionamento.

“É muito grande? É”, confirma o arquitecto. Mas há que ter em consideração outras variáveis. “Antigamente os hospitais eram dimensionados para o número de camas, hoje não. São dimensionados para o conjunto diversificado de serviços que oferecem a um utente”. E há muitos desses serviços presentes na ideia que se projectou para a nova infraestrutura hospital da RAM. “Um hospital é, hoje em dia, uma unidade que tem por fim ajudar, primeiro, as pessoas a prevenir as doenças, segundo, a ajudar as famílias a tomarem conta dos seus doentes e a incentivar a sua recuperação no meio familiar, e finalmente, tratar o melhor possível dos doentes, com os meios mais sofisticados que estiverem ao alcance, que são caríssimos – e é bom que a população entenda isso”, opina. “Um acelerador linear de radioterapia custa três milhões e meio de euros”, explica. E estão previstos dois para o novo hospital da Madeira. Isto além de TACS, de Ressonâncias Magnéticas, de Raios X, etc. “Há uma diversidade muito grande de meios”, assegura Ilídio Pelicano. Prevista está ainda a valência de Cirurgia Cárdio-Torácica e Medicina Hiperbárica.

Frente ao projecto afixado em papel numa das paredes do gabinete de arquitectura, Sala Pelicano mostra-nos o mesmo e acrescenta: “Estão previstas 11 salas de operações, sem função definida. A gestão das mesmas será feita pelo próprio Hospital, de acordo com as necessidades da população, momento a momento. O bloco operatório é polivalente, dentro das suas possibilidades. Pode atacar as listas de espera existentes em várias especialidades”.

A mesma polivalência verifica-se na utilização das camas, em número aproximado de 566, das quais 80 destinadas a cuidados intermédios e intensivos.

A sua gestão, integrada, está prevista numa lógica de internamento indiferenciado. Todas as especialidades médico-cirúrgicas terão de habituar-se a gerir o uso dos leitos consoante as suas necessidades. Caso contrário, referem-nos os autores do projecto, não se rentabiliza o espaço: haverá locais vazios, outros que são curtos para as necessidades, gabinetes que estarão vazios durante boa parte do dia, e que têm de ser, apesar disso, iluminados, aquecidos ou resfriados… Haverá camas para os internamentos, mas que podem, pois, variar. Apenas uma ou outra unidade, por exemplo, Psiquiatria ou Pediatria, é que terá as suas camas perfeitamente adstritas. As outras alas serão polivalentes, “coisa de que normalmente os médicos não gostam muito”, comenta Ilídio Pelicano. “Gostam de ter os seus gabinetes próprios, os seus internamentos próprios, serem donos, terem a chave… E ninguém mais lá entra”. Neste modelo, terão de adequar-se a outro funcionamento.

Em Pediatria ou Psiquiatria, informam-nos, deverão existir umas 60 camas, sendo metade (30) para cada. Contemplada está também uma unidade de Pedopsiquiatria, internamento, hospital de dia e consulta externa, bem como de internamento de adultos. Pôr estas áreas em funcionamento seria ir ao encontro da eliminação daquela que tem sido uma das maiores críticas da oposição ao Governo madeirense em matéria de Saúde – o estado da Saúde mental na Região, em termos de tratamento por parte do sector público.

O edifício do novo hospital da Madeira divide-se entre aquilo a que os arquitectos chamam corpo sul, corpo norte e corpo central. No corpo sul, ficam todos os internamentos. Ali se situa também a Pediatria, a parte administrativa e a Psiquiatria. A Psiquiatria fica em baixo, a Pediatria no último piso. Os outros pisos são dedicados a internamento. Já na zona central fica o pólo técnico-médico, que inclui os serviços mais “pesados”, aos quais têm acesso tanto os doentes internos como os externos. São serviços que fazem tratamentos específicos partilhados, onde está situada a radioterapia, a medicina nuclear, a diálise, etc. No corpo norte, explicam-nos os arquitectos, existe toda uma área de Consulta Externa, onde serão realizadas as colheitas, os exames específicos, e que está ligada com as circulações de doentes externos, que provêm da entrada principal e se distribuem pelos serviços de tratamento técnico-médico. Há uma grande “rua” de distribuição dos doentes externos, que, a partir do exterior, entram e acedem aos diversos elevadores, que os transportam aos núcleos de especialidade nos diversos pisos.

Sara Pelicano sublinha: “Procurámos tornar este hospital muito flexível em termos de reabilitações futuras, porque, mais que ampliação, a maior necessidade actual é de flexibilidade para novos procedimentos científicos, que ainda não sabemos o que vão ser”. E há a necessidade de antecipar a introdução de novas tecnologias.

“Há um piso todo técnico, o piso 1, que permite que o Hospital tenha futuro, que nunca venha a ser obsoleto”, prometem. Uma área onde estão concentradas as grandes tecnologias, onde os equipamentos mais sofisticados estão isolados e protegidos da agressividade dos elementos, que a proximidade do mar faz acrescer. “Se não protegermos os equipamentos, dentro de uma década estão estragados”, notam. Na zona logística, há serviços de todo o tipo: farmácias, lavandarias, vestiários, cozinhas, biotério, casa mortuária, zona de autópsias, serviços de segurança e controle, centro de dados… E na entrada principal, que se processa no piso 2, ficam as Urgências, estando no interior uma série de serviços, de Imagiologia, Hemoterapia…

Está prevista uma sala com robótica e uma sala híbrida, que junta meios de imagem à intervenção, em termos operativos, sobre o corpo humano. Sara Pelicano salienta que hoje em dia há muitas operações complexas que se tornaram muito menos invasivas, e que podem ser feitas em cirurgia de ambulatório, permitindo devolver rapidamente o doente ao carinho da sua família.

Ilídio Pelicano esclarece: a primeira coisa que é preciso definir, quando preparamos um equipamento hospitalar, são as características do tipo de população a que se destina. A Madeira tem uma população fixa, e uma população flutuante, turística. O novo hospital tem de fazer face às necessidades de ambas. Tendo como perspectiva um limite de evolução até 2060, o arquitecto Pelicano pegou no projecto que teve o seu início em 2006/07, e procurou adaptá-lo às necessidades e tecnologias actuais. Para isso teve de levar em conta uma estatística evolutiva populacional que aponta para uma diminuição da população e para o seu envelhecimento. De 2020 a 2080, estima-se que a população da RAM desça de 257.622 para 180 mil habitantes.

Tendo isso em consideração, explica-nos, a Madeira “precisa de umas boas Urgências, de bons blocos operatórios que possibilitem rápida intervenção de cirurgia de ambulatório, para o caso de alguém sofrer, por exemplo, um ataque cardíaco e necessitar de uma angioplastia ou de uma angiografia…”

Há muitas maleitas que se vão agravando com a idade, reforça Sara Pelicano, e este hospital foca muito as mesmas, garante. “Por exemplo, na área de medicina física de reabilitação. Por outro lado, há um pólo oncológico bastante forte, criado quase como um hospital dentro do hospital. A zona dos Cuidados Intensivos também é particularmente relevante”. O pólo oncológico deverá proporcionar todo um conjunto de serviços que prevenirá a necessidade actual de muitos utentes madeirenses se deslocarem ao continente para se tratarem.

Segundo a descrição do projecto, à qual o Funchal Notícias teve acesso, o bloco operatório terá um total de 11 salas de operações, sendo uma, como referimos, robotizada e outra híbrida;  22 camas de recobro, 14 postos de recobro (Fase2) e 22 postos de recobro (Fase 3). Os hospitais de dia terão 166 postos de atendimento para as seguintes valências: Polivalente (18), Hemodiálise (26), Imuno-hemoterapia (6), Psiquiatria (20), Oncologia (34), Medicina Física e Reabilitação (16), Infecciologia (6) e Medicina Hiperbárica (6), na área médica e 37 postos no Hospital de dia cirúrgico.

A consulta externa, por seu turno, terá 88 gabinetes de consulta e 40 salas de exames.

Já o serviço de urgências terá 64 postos de atendimento, sendo 35 na urgência geral, 13 para a área de Ginecologia/Obstetrícia (incluindo 6 quartos de partos) e na ala pediátrica, 16 postos de atendimento.

“É todo um conjunto de serviços, desde a medicina nuclear à radioterapia. Mais evoluído e mais especializado que isto, só o edifício que fizemos especificamente para o IPO (Instituto Português de Oncologia) do Porto, que foi projectado para dez aceleradores lineares, com 7 ou 8 em funcionamento e mais 2 de reserva”, diz Ilídio Pelicano.

“Em termos de volumetria”, refere ainda, este é um edifício não agressivo, que não ultrapassa o horizonte. Em relação à anterior solução apresentada, “este edifício, que foi todo projectado em 3 D, baixou dois pisos”. O prédio terá cinco andares acima dos estacionamentos, em número de aproximadamente 1161, entre internos e externos.

O arquitecto considera o novo hospital da Madeira grande, mas não megalómano. Antes pelo contrário. O modo como está vocacionado para privilegiar a intervenção em ambulatório ajuda a “cumprir com uma função social” sem, por outro lado, gastar dinheiro e meios indiscriminadamente numa estrutura com partes não funcionais durante longos períodos do dia. Os cidadãos portugueses, na perspectiva deste arquitecto, têm de compreender que tem de ajudar a tratar os seus próprios doentes. “Não vai haver dinheiro para fazer todos dependerem da Segurança Social, se lhe atribuirmos todas as responsabilidades pelos cidadãos que vão envelhecendo”. O ideal, do seu ponto de vista, é perspectivar o menor tempo possível e necessário de internamento.

Para compreender as necessidades dos madeirenses e o programa que o Governo Regional queria cumprir neste tão desejado e entretanto polémico hospital, que tem gerado negociações difíceis e controversas entre a Região e a República, os responsáveis do gabinete de arquitectura ARIPA deslocaram-se várias vezes ao Funchal, tendo, afirmam, tido o cuidado de, para além do programa funcional escrito, auscultar os directores de todos os serviços do Hospital Dr. Nélio Mendonça, e perguntar-lhes o que pretendiam.

“Queriam tudo quanto já tinham e mais aquilo que nós lhes pudéssemos dar. O céu era o limite. O que é perfeitamente compreensível mas irrealizável”, diz-nos. A filha do arquitecto Pelicano sorri: “Quando alguém tem a responsabilidade de fornecer a cura, o tratamento, e tem de pedir condições, é natural que as peça. Mas depois é necessário fazer o encontro entre o desejado e o possível”.

É natural que ao ler isto, o cidadão se interrogue: mas com todos estes equipamentos, com estas infraestruturas, quantas cirurgias poderão, por exemplo, ser feitas para acabar com as listas de espera? Ilídio Pelicano é sincero na sua opinião.

“A quantidade de intervenções, ou dos chamados actos clínicos, depende única e exclusivamente da quantidade de tempo e de trabalho do corpo clínico, e do que os poderes políticos decidirem, em negociação com as corporações médicas, que têm uma força imensa. Quantas intervenções será possível fazer? Não sei, mas tantas mais quanto maior for a ocupação do bloco cirúrgico em termos intensivos. Se trabalharem 8 horas por dia, a rendibilidade será uma; se trabalharem seis, será outra; se só trabalharem de manhã e forem fazer clínica privada à tarde, será outra ainda. Isto passa-se no continente, na Madeira e em tudo quanto é sítio. Não há que ter medo das palavras. Mas os políticos têm a força da maioria para determinar opções e estabelecerem determinado tipo de cargas horárias de trabalho”.

Entretanto, o gabinete ARIPA e os seus arquitectos, desenhadores e projectistas atravessa um momento do projecto no qual já não podem aparecer surpresas nem novidades. “Desenvolvemos um projecto em consonância com os interesses da RAM, e neste momento, o mesmo já ficou fechado. As opções de funcionalidade, de quantas salas para isto e para aquilo, já passou. A fase actual reveste-se de pouco “glamour”, mas é igualmente importante; é necessário determinar qual será a constituição de certas paredes, do que precisam certas portas, quais as fechaduras que só podem abrir com determinados cartões magnéticos… “É uma parte maçadora, mas necessária”, reflecte Sara Pelicano. “Porque se não projectarmos e não orçamentarmos tudo isso, é evidente que, no final, não estará lá”.

O arquitecto Pelicano explica melhor: “É preciso definir, entre outras coisas, o posicionamento das máquinas de radiologia, se um TAC fica na posição A, B ou C, porque cada uma delas, dentro do espaço, obriga a determinado tipo de ligações… e temos de escolher as posições que transmitam às estruturas o menor peso possível, o menor número de conexões possível, porque, quanto menos variáveis pudermos ter, cumprindo todas as funções com a máxima elasticidade, mais barato e rentável se torna”.

De acordo com a descrição do projecto, a lotação do novo hospital define-se em unidades de tratamento (UT).

Ora, 13xUT tipo: 27/29 camas, reflecte-se num total variável entre 351/377, sendo cada UT constituída por 12 quartos duplos, 2 quartos duplos de uso individual e 1 quarto de isolamento. Estão previstas a UT Tratamento Ginecologia: 27/29 camas; UT Obstetrícia: 30/37 camas; UT Pediatria: 30/37 camas; UT Paliativos: 14/27 camas; UT Saúde Mental Adultos e Pedo: 25/29 camas e uma UT Curta duração anexa à Urgência, com 9 camas.

Já no que concerne aos Cuidados Especiais, prevêm-se 36 boxes de Unidade de Cuidados Intensivos e Polivalentes; 7 de AVC; 4 de UTIC; 8 de Coronárias; 11 de Pediatria; 6 de Neonatais; 8 de Neutropénias. Isto resulta num total de Cuidados Especiais no número dos 80, variando a lotação num total de camas entre as 566 e as 625.