Não há garantia de segurança no Largo da Fonte, Junta não sabe quem retirou o perímetro e depois disso já chamou os bombeiros

OLYMPUS DIGITAL CAMERA
Idalina Silva mandou, há três semanas, novo ofício à Câmara do Funchal, para que esta, que tem competências de intervenção no Largo da Fonte, dê garantias de que há segurança naquele espaço em consequência da tragédia do Monte. Foto Rui Marote

O Largo da Fonte, aquilo a que podemos chamar de “sala de visitas” do Monte, está “ferido de morte”. Cerca de quatro meses depois da tragédia de 15 de agosto, sem perímetro de segurança e sem se saber muito bem que segurança existe, apresenta duas realidades que a presidente da Junta de Freguesia local define relativamente ao comportamento do turista e do madeirense: o turista passa, visita e vai embora, os madeirenses, os que vivem na zona e os outros, têm dificuldade de ali estar, viveram intensamente aquele momento, sentem-se mais inseguros “porque não há uma entidade a garantir que há segurança”, diz Idalina Silva. Um problema que subsiste sem resposta.

Não é que o Largo da Fonte fosse um espaço de grande vivacidade, não era antes de agosto, apesar de ser um ponto estratégico de turismo, provavelmente ainda à procura de um modelo de promoção que corresponda à procura e à dimensão, histórica e religiosa, que tem. Mas depois de agosto, é uma mistura de beleza natural e medo. Claro que o medo vence. E é por isso que se torna tão imperioso fazer qualquer coisa, tranquilizar as pessoas, dar conta de eventuais avaliações que transmitam alguma garantia aos visitantes, como já se percebeu, sobretudo os locais, defende a responsável da junta.

Turistas passam, mas madeirenses têm medo

OLYMPUS DIGITAL CAMERA
A Câmara do Funchal adquiriu o prédio da antiga estação de caminho de ferro para recuperação. Será uma mais valia, diz a presidente da junta. Foto Rui Marote

No espaço, um café que ali tem a sua atividade há anos, uma banca de venda de produtos regionais, e agora um vendedor de castanhas, é o tempo delas, que veio dar uma “mãozinha” que o Monte precisa para se reerguer enquanto ponto turístico, enquanto freguesia a visitar, com todas as tradições que encerra, com todas as caraterísticas que lhe são reconhecidas. É preciso mais, há esperança numa obra que vai dar um impulso, a estação do antigo caminho de ferro do Monte, adquirida pela Câmara Municipal a um privado, para recuperação daquele que é um património. Uma mais valia, sem dúvida.

Idalina Silva tem a perceção que, em termos gerais, o Monte turístico manteve-se incólume. Parte do turismo chega de teleférico e os focos são os carros de cesto e a Igreja. O mesmo não podemos dizer dos madeirenses, que “sentem grande dificuldade de vir ao Monte depois da tragédia. Mesmo pessoas da freguesia, que no final do dia davam as suas caminhadas, não fazem agora esse percurso, têm receio”.

Bombeiros chamados depois da retirada do perímetros

Lembra o alerta que fez, na sua tomada de posse, que “surpreendeu muita gente. muitos ficaram como que ofendidos, mas que é a realidade”. Falou então que, se não houvesse uma intervenção até princípios de 2018, o arraial do Monte, festa anual de grande impacto na Região, poderia ficar comprometido. Diz que “muitos não entenderam”. Mas explica que “sendo uma zona em que chegam turistas todos os dias, ficava bem dizer às pessoas aquilo que está a ser feito ou o que se pretender fazer, que tempo de intervenção está previsto para o Parque Leite Monteiro, onde se integra o Largo da Fonte. É que eu própria, mesmo depois de ter sido retirado o perímetro de segurança, tive que chamar os bombeiros para retirarem um galho de uma árvore, que ameaçava cair e que estava solto, ia cair a todo o momento. O bombeiro tocou no galho e ele caíu logo. Como esse, pode haver mais. E não há quem diga se a situação está minimamente segura”.

Novo pedido de esclarecimento há três semanas

A presidente da junta remete novo pedido de esclarecimento à Câmara, no que se prende com o que está a ser planeado como medida de intervenção. Fê-lo sensivelmente há três semanas, está ainda sem resposta. Afirma que dos alertas anteriores, “as respostas foram pouco concretas, evasivas, nada de garantias, nada que permita dizer às pessoas que podem vir ao Monte porque estão a ser tomadas medidas para lhes transmitir alguma tranquilidade”. Recusa a acusação de estar a confrontar uma entidade, neste caso a Câmara do Funchal, liderada pela Coligação Confiança, que não é da sua cor política, que como se sabe é o PSD. “Nada disso, não temos qualquer intenção de confronto, apenas queremos uma tomada de posição, por parte de quem tem competências na matéria, a Câmara Municipal, sobre se a zona oferece a segurança mínima para que o perímetro de segurança pudesse ser retirado daquela forma. Queremos dar tranquilidade às pessoas e isso só acontecerá se quem tem a responsabilidade assumir o seu papel. Do ponto de vista institucional, era necessário haver uma articulação de posições, partidos à parte. É preciso não esquecer que estamos a falar de uma zona história, o coreto que está no centro do Largo é o mais antigo da Madeira, por isso é que os cuidados devem ser redobrados”.

Não sabe quem retirou o perímetro de segurança

Não sabe quem retirou o perímetro de segurança. Ou melhor, o que sabe é pela comunicação social. E o que sabe mesmo é que, depois disso, já foi retirado um galho que oferecia perigo, como tantos outros que caíram antes de agosto e que só por milagre não atingiram ninguém. Por isso, pede documentos relativos a avaliações técnicas que foram feitas, porque acredita “que foram feitas avaliações concretas e responsáveis”, dentro “da boa relação que pretendemos ter com o município do Funchal”.

Câmara remete ofício para Instituto de Florestas

OLYMPUS DIGITAL CAMERA
O Monte histórico confrontado com dúvidas de segurança. Foto Rui Marote

Quando falamos desta triste realidade, ligada à tragédia do Monte, questiona-se se o Governo deveria ou não intervir no processo, através da secretaria regional do Ambiente. De que forma o Executivo, face a uma realidade desta dimensão, não poderia ter uma palavra a dizer, em concertação com todas as entidades competentes. Simplesmente porque o objetivo é intervir, dar resposta eficaz e oferecer segurança às pessoas, mais do que propriamente a discussão sobre competências. Idalina Silva diz que “a Câmara, numa das últimas vezes em que a junta colocou o problema, através do ofício, remeteu este documento para o Instituto das Florestas. O que sabemos é que a jurisdição é da Câmara. Não sabemos o que está a ser feito, mas ainda na semana passada a Câmara esteve aqui a cortar galhos, soubemos quando os homens já estavam aqui. E quero pedir ao senhor presidente da Câmara que nos dê acesso aos documentos de avaliação, como atitude de boa vontade porque estamos a trabalhar todos para o mesmo objetivo, a segurança das pessoas. Durante quatro anos, reclamamos e demonstramos o receio do que poderia acontecer e infelizmente aconteceu”.

Eventos transferidos por precaução

Enquanto não há uma resposta convincente, os eventos que a junta levava a efeito no Largo da Fonte, foram transferidos para outros locais da freguesia. A junta queria dar uma imagem renovada ao Largo da Fonte, consciente que o espaço “não estava devidamente divulgado”, mas a ocorrência da tragédia de agosto fez alterar os planos. O Mercadinho foi para o parque de estacionamento do polidesportivo, o concurso das árvores de Natal ecológicas, será feito nos diferentes miradouros da freguesia. “Não vamos deixar de fazer os eventos, mas até termos garantias, não vamos arriscar fazer no Largo da Fonte”. Espera que haja uma solução a tempo do evento gastronómico e do arraial do Monte, em 2018.

O alerta agora, não em vésperas do arraial

Recorda que “em 2016, devido aos incêndios, já não houve arraial da noite do Monte. E este ano, aconteceu esta desgraça a 15 de agosto, com 13 mortos e vários feridos, a situação dos feridos também nos preocupa. Foram dois momentos de grande apreensão. E se não tivermos atenção e cuidado, são os próprios comerciantes a não quererem investir se não tiverem garantias de segurança. Provavelmente vão interrogar-se. E até por parte dos visitantes. É por isso que faço um alerta agora, não vou fazê-lo nas vésperas do arraial. Tem que ser com antecedência para viabilizar prioridades de intervenção. Se as pessoas puderem ver que as entidades tomaram medidas visíveis, há outra segurança”.

Quinta do Imperador é novo polo de interesse

Agora, o Monte é forçado a viver com as suas contingências. Se antes era importante divulgar enquanto ponto turístico que representa, agora tornou-se ainda mais exigente essa operação de promoção. Idalina Silva aponta mais valias que chamam a atenção do turista e afirma que, no meio dos problemas, existem aspetos positivos, falando designadamente da recuperação levada a efeito pelo Governo na Quinta onde viveu o Imperador Carlos de Áustria, “que tem os jardins recuperados e cuja abertura ao público está prevista para início de 2018, procedendo-se depois à recuperação da casa, como está delineado, o que é excelente”. Esse investimento, diz, “é necessário, temos perto um parque de estacionamento e criamos, assim, novo polo de interesse para o Monte, como também é o espaço da Fundação Berardo. No Largo da Fonte, temos que a Câmara do Funchal adquiriu o prédio da estação de caminho de ferro, que deverá ser recuperado e a atividade concessionada, um projeto que se pretende seja de rápida execução. E há empresários que estão interessados em colaborar com o município na respetiva recuperação.

Melhorias nos arruamentos

Ao nível de investimentos, a junta aponta as suas atenções para a melhoria dos arruamentos. O Monte não tem zonas de apartamentos, como acontece noutras freguesias, a construção é à base de moradias, com diversas ruas, veredas e becos de acesso, onde são necessárias obras para melhorar a mobilidade de uma população, em grande parte idosa. Por isso, a junta de freguesia centra atenções nesses arruamentos, “om limpeza e colocação de varandins, como aqueles que foram colocados no percurso do Largo da Fonte à Igreja”.