Com o Futuro a desafiar-nos

Por força do tempo já vivido e do modo como o foi, tive a possibilidade de, ainda antes da data que devolveu a democracia e a liberdade aos portugueses, o 25 de Abril, conhecer uma parte significativa do meu País e tomar consciência, já adolescente, do que nele faltava, das que eram as suas gritantes insuficiências, das limitações que a todos os títulos exibia, de como se propagandeava a falta, a carência e a, nesses tempos, insuperável distância que nos separava do progresso, da modernidade, do bem-estar e de exigências que, noutras coordenadas, já tinham deixado de o ser para se tornarem normalidade aceite e fruível. A sensação que tínhamos era a de se tratar de uma fatalidade, de um tem-de-ser-assim, de um não há nada a fazer impotente e frustrante…

Felizmente não era uma fatalidade, não tinha-de-ser-assim; havia muito a fazer, o tempo e as condições que a democracia foi propiciando e assegurando foram decisivas na mudança de toda aquela desesperançosa “paisagem” vivida e sentida e, em consequência, das condições de existência e das melhorias experimentadas no quotidiano dos nossos concidadãos em novos e arejados tempos de mudança, de modernidade, de aproximação ao inovador e à inovação, de progresso e de segura preparação do devir. O poder local democrático, consagrado constitucionalmente, com órgãos eleitos e responsabilizado perante os eleitores, afirmou-se com vitalidade, criatividade, coragem e profundo sentido dos desafios a que estava sujeito.

Erros, claro; faltas de rigor, obviamente; ilegalidades, sem dúvida; excessos, muitos; imprudências, inúmeras; atrevimentos desnecessários, sem conta; desonestidades, as que são públicas e as que, porventura, (ainda) o não serão mas, porém, e no exercício de um poder que só a descentralização política assegurou, procurou-se, com as competências disponíveis, nas autarquias locais, recuperar o tempo perdido, aproveitar espaço e meios e suprir, no que era possível, as muitas falhas de um passado de costas voltadas para os cidadãos, se não mesmo contra eles, e desenhar um viver melhor e mais agradável para os que, de entre as 3092 freguesias e dos 308 concelhos que dão corpo ao nosso País, escolhem a geografia de construção do seu futuro.

Afirmando estas vontades, estes empenhamentos e os mais variados compromissos com o eleitorado e com os seus anseios, cumpre-se ainda uma reivindicada responsabilidade que, reforçada pela proximidade dos eleitores aos eleitos, dá substância ao Princípio da Subsidiariedade, postula um crescente rigor na administração da coisa pública, acentua a monitorização e controlo dos respectivos actos políticos e de gestão e contribui para a permanente procura de harmonia entre quem decide e quem é destinatário preferencial das escolhas e opções feitas.

Já não falta um mês para que, de novo, em eleições para os órgãos de poder local, os cidadãos escolham quem vai assumir responsabilidades no exercício dessas funções crescentemente exigentes e responsabilizantes – lembremo-nos das intenções expressas, por parte de titulares de órgãos de soberania, de continuar a transferir para as autarquias competências que têm estado, até aqui, nas suas mãos e de uma maior interacção das autarquias com as comissões de coordenação de desenvolvimento regional (no território continental) por força do reforço da legitimidade democrática destas últimas – e a todo o momento cruzámo-nos com os sinais públicos da pré-campanha em curso – e, daqui a dias, nos termos da lei, com a campanha propriamente dita – de onde resulta a ideia clara de uma multiplicidade saudável de opções, de entusiasmos, de propostas, de desafios, de apelos, de protagonistas, de inspirações e de potenciais compromissos que nos convocam para que tenhamos a maior atenção mas, também, para um envolvimento a que não podemos fugir ainda que ele surja, e só, como dizia o poeta, “na própria intimidade do teu pensamento livre e calma”; sim, a responsabilidade é, sobretudo, de quem escolhe. Não votar é, sem exagero, abdicar, por falta de legitimidade moral, que outra não seja, da opinião, da crítica, de ser parte e com voz activa no veredicto.

A democracia faz-se, constrói-se e consolida-se com participação cívica. Era importante, afigura-se-me, que as próximas eleições autárquicas deixassem também um sinal de apego à democracia, à cidadania e à vontade colectiva de ser parte na construção de uma entusiasmante e meerecida ideia de sucesso.

 PS:

Tomando como verdadeiras as notícias que nos vão chegando dando conta de que a justiça, face a um numeroso conjunto de alegados criminosos por fogo posto que são presentes aos titulares que a administram, adopta procedimentos da mais curiosa e insólita benevolência, alheia, afigura-se-nos, às tragédias e aos dramas subsequentes com que todo o País se tem visto confrontado neste Verão de 2017, as reacções únicas são de incredulidade e estupefacção. Alardeando, em casos diversos, uma intrepidez a roçar a fanfarronice, era expectável que, face aos eventuais autores destes crimes de fogo posto – crimes que, como é sabido, encerram uma pluralidade de outros: económicos, sociais, ambientais, paisagísticos, patrimoniais e, até, de atentados à vida em geral e à vida humana em particular – houvesse uma especial atenção no modo mais eficaz de, aliado à punição estar o desencorajamento, a monitorização das atitudes, a perspectiva cautelar e a lógica preventiva. Mas não. Ficam-se, parece, pela optimista esperança no arrependimento. Se tem de ser assim…_____________________________________

Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.