Miguel Fonseca aposta no “Estado Social” em Santa Cruz, é socialista mas vai nas listas do BE e diz que este PS-M “é uma menos valia para qualquer candidatura”

2017/08/29 MIGUEL FONSECA candidato BE à camarad e Santa Cruz Fotos: © ALFREDO RODRIGUES
Miguel Fonseca, candidato do Bloco de Esquerda em Santa Cruz, diz que a sua candidatura é, também, dos socialistas que se reveem no governo de António Costa. Foto FN

Miguel Fonseca sempre teve uma ligação, ideológica e de militância, ao Partido Socialista. É militante desde 74, sente-se nessa área política como “peixe na água”. Seria, por isso, natural que, a ser candidato onde quer que fosse, sê-lo-ia pelas listas do PS. Mas não, não é isso que acontece em Santa Cruz, onde concorre à Câmara Municipal pelo Bloco de Esquerda. Afirma ter razões para essa realidade e compreende as pessoas que fazem a leitura nesse sentido, uma leitura que “tinha alguma razão se não fosse o atual PS”.

PS-Madeira é um peso morto e uma menos valia

Explica que “o PS-Madeira, hoje, é um peso morto para o PS nacional e uma menos valia para qualquer candidatura. O partido, na Região, entrou em guerra com o partido a nível nacional. E apesar de me sentir, ideologicamente, socialista, sou candidato independente ao concelho de Santa Cruz integrando a lista do Bloco de Esquerda. Sou o candidato natural dos eleitores socialistas e dos eleitores do Bloco que se reveem na política do Governo da República. Estou de acordo com aquilo que está ser feito no País, ao nível social e também ao nível económico. O candidato do PS ao concelho nunca se demarcou da atual direção do PS-Madeira, que na Assembleia Regional aprovou medidas contra o Governo da República aliando-se à direita. Por isso, os eleitores socialistas de Santa Cruz ficaram com um dilema, uma vez que votar na candidatura do PS em Santa Cruz é votar contra o PS e António Costa. Eu sou a síntese do acordo firmado em Lisboa entre António Costa e Catarina Martins”.

O problema do PS é ter Macron em 2019

Detém-se no Partido Socialista e antes de direcionar o seu discurso para Santa Cruz, onde é candidato, responde a uma questão que colocámos sobre se o PS-Madeira não estaria numa obsessão excessiva com a prestação de Cafôfo na Câmara do Funchal. Miguel Fonseca não tem dúvidas que “o problema do PS é ter Macron em 2019”, ou seja, rebusca o exemplo do presidente eleito em França contra os partidos tradicionais. Macron neste caso é Cafôfo. “As guerras internas do PS não dizem respeito nem a mim nem aos eleitores. Se houver um candidato da dimensão do atual presidente da Câmara do Funchal, apoiado pela direção nacional do partido e pela concelhia do PS, seja quem for o líder do PS-Madeira não interessa aos eleitores, incluindo os de Santa Cruz”.

JPP é movimento populista e mantenho

Santa Cruz é o enfoque da candidatura liderada por Miguel Fonseca. Passados quatro anos, manter-se-ão os pressupostos que estiveram na origem da eleição desta gestão autárquica do JPP? O candidato lembra que sempre discordou daquele modelo por considerar que não estava perante “um verdadeiro movimento de cidadãos. Sempre achei que era um movimento populista e mantenho. Quem acreditou, naturalmente viu defraudadas as expetativas”. Diz que o populismo carateriza-se pelo seguinte: “nasce com os problemas, explora os problemas e não tem solução para os problemas”.

O problema da água

2017/08/29 MIGUEL FONSECA candidato BE à camarad e Santa Cruz Fotos: © ALFREDO RODRIGUES
“Se eu for poder na Câmara, os estudantes até ao nono ano não vão pagar nem manuais escolares nem alimentação, sem exceção, é isso que diz a Constituição Portuguesa. Foto FN

Nem a redução da dívida convence Miguel Fonseca. Afirma que há várias narrativas, mas não vai em nenhuma delas. Nem a que diz que a Câmara apresenta-se como o salvador do concelho, nem a que diz que a Câmara piorou o concelho. O que eu acho é que esta autarquia liderada pelo JPP geriu mal a dívida, uma vez que poderia ter feito esse trabalho e simultaneamente promover o investimento, o que não fez. O problema da água, por exemplo, está por resolver. Temos preços ilegais do ponto de vista da lei da água. A água é um bem público e não é paga, o que é pago é o serviço, o que leva ao fornecimento do bem. O investimento para fornecer a água, aquele que foi feito, foi há muito tempo e a renovação e a manutenção ficaram por fazer. Logo, estamos a pagar um investimento que já está pago, estamos a pagar o investimento que não foi feito, que é a manutenção, e por causa dessa falta de manutenção, pagamos o desperdício de água que é de 70 por cento”.

Estudantes até ao 9º ano não vão pagar nem manuais nem alimentaçãp

Por tudo isto, sem ir em narrativas, como diz, Miguel Fonseca deixa, em forma de conclusão do seu raciocínio, que esta Câmara “terá que mostrar, com números, se reduziu mesmo a dívida ou se mandou dívida para debaixo do tapete”.

Se o povo vai entender a “versão” do Bloco, que contrapõe ao discurso otimista da liderança autárquica, é outra coisa. Admite que a atual Câmara só tem que apresentar uma dialética simples, mas “a realidade é bem diferente” porque efetivamente “pouco ou nada foi feito, nomeadamente no estado social”. Aponta essa como “grande lacuna da autarquia de Filipe Sousa” e promete que, com a candidatura do Bloco de Esquerda “haverá estado social pela primeira vez em Santa Cruz”. Dá pormenores: “Se eu for poder na Câmara, os estudantes até ao nono ano não vão pagar nem manuais escolares nem alimentação, sem exceção, é isso que diz a Constituição Portuguesa. A classe média está a pagar duas vezes, mas comigo os filhos dessa classe média terão igualmente os benefícios. O ideal seria, também, não pagar os transportes. E as câmaras têm andado a devolver verbas do IRS quando deveriam primeiro resolver as questões sociais e só depois empreender a devolução”.

Insegurança dos terrenos abandonados

O problema que Miguel Fonseca identifica como “prioritário em Santa Cruz, prende-se com a insegurança que os terrenos abandonados transmitem, sobretudo em consequência do braseiro em que se transformou o concelho há cinco anos. Casas ardidas, perda de animais e felizmente que não existiram pessoas mortas. Mas daí para cá nada se fez. Os pequenos e médios agricultores, os pequenos e médios proprietários foram abandonados. Existem os problemas e os apoios resultantes de fundos europeus não chegam, por exemplo, aos agricultores, que assim sentem enormes dificuldades para manter os terrenos”.

Fundo municipal para os agricultores

Perante esta realidade, a candidatura do Bloco já fez os estudos necessários que vão conduzir à apresentação de uma proposta que visa a criação de um fundo municipal para que os pequenos agricultores sejam apoiados na limpeza dos seus terrenos. Este é um problema que deve ser visto, não só do ponto de vista financeiro, mas também dos pontos de vista social e paisagístico. Vamos executar o que está consagrado no Plano Diretor Municipal, prevendo a criação de uma Unidade Operativa de Planeamento e Gestão Florestal e Agrícola, onde estariam concentrados os terrenos que, isoladamente, não teriam dimensão, mas integrados nessa Unidade terão o mesmo tratamento de um plano de urbanização, com direito a fundos”.

Centro de alto rendimento

Na componente do investimento, a candidatura liderada por Miguel Fonseca apresentou, ainda esta semana, um projeto de criação de um centro de alto rendimento desportivo, no Garajau, que não só servirá para os jovens do concelho, mas também potencia um novo nicho de mercado turístico. Além disso, pretende criar um evento de bebidas regionais, com dimensão internacional, bem como a criação da Camacha capital da cultura tradicional, tudo isso feito com fundos europeus. Temos que estar preparados para isso e não vejo em nenhuma outra candidatura essa preocupação”.

Miguel Fonseca aborda uma outra problemática que resulta do crescimento do Caniço, uma parte urbana do concelho, que contrasta com a componente rural que é visível nas restantes freguesias, colocando a discussão numa perspetiva que não passa pela alteração do Plano Diretor Municipal. Diz que “o PDM tal como está, está bem. E prevê várias Unidades Operativas, só que nunca avançaram. O concelho de Santa Cruz não é nem todo agrícola nem todo urbano. E deve criar centralidades nas diferentes freguesias”.