Refletindo sobre o acidente no Monte, vale a pena recordar as palavras de Sobrinho Simões

“Precisamos apostar nas pessoas (…) e temos de ser exemplares, de cima para baixo, na organização social e na selecção das lideranças. O privilégio tem de ser acompanhado de responsabilidade” (Sobrinho Simões, 10 de Junho 2017)

Uma trágica sucessão de eventos tem conduzido a ilha da Madeira a uma indesejada ribalta. O horror das enxurradas de 2010 (e respectivas sequelas), a devastação provocada pelos sucessivos incêndios, o noticiado aumento do número de homicídios e o mais recente acidente na freguesia do Monte, preenchem um pesado elenco de perdas de vidas humanas e de destruição de habitações e espaços naturais que abalam, de forma dolorosa, a pérola do Atlântico.

Tem sido relevada – de forma justa – a capacidade de recuperação, de forma célere, manifestada nas circunstâncias mais adversas, os imensos gestos de solidariedade anónima, marca registada de resiliência insular que nos tornam (enquanto madeirenses) fortes e capazes de re-construir.

Estamos, no entanto, creio, agora mais do que nunca e muito compreensivelmente, mais permeáveis ao sofrimento, mais cansados e, talvez até, mais desconfiados. Não resultam estas reflexões de qualquer estudo científico que tenha sido aplicado a uma amostra válida e muito menos pretendem qualquer outra coisa que não seja enunciar o resultado de uma pesquisa à opinião publicada sobre estes diferentes eventos que mencionei. Nas redes sociais (onde incluo blogues) a expressão da indignação (direito de bandeira socialista na voz do falecido Mário Soares) tem sido mais vincadamente crua sendo que antes era mais rara e, sobretudo, mais discreta. De forma mais prosaica poderíamos afirmar que as emoções estão “ao rubro” e assim descrever este estado de cansaço social e anímico.

Ao reconstruir as casas destruídas, ao replantar a floresta, a população tem sempre a correcta certeza de, mesmo que de forma diversa, é capaz de repor uma certa ordem perdida. Mas, como bem sabemos, a perda dos entes queridos, dos familiares e amigos, dos desconhecidos, dos concidadãos é irreparável e desencadeia um turbilhão de emoções que corresponde à origem dessas mesmas mortes. O choque e o horror sobrepõem-se à aceitabilidade de um discurso e de uma acção políticos que não suscitem segurança.

Os psicólogos referem-se a estas “cargas” como “tempestades de poluição emocional”. Este contexto torna propícias exigências de ordem pessoal e social às quais se espera, de quem detém os diversos poderes políticos, uma resposta à altura das circunstâncias.

O dia 15 de Agosto, no Monte, acontece numa altura em que a disputa do poder autárquico, no Funchal, atinge níveis mais quentes do que o calor do Verão e não deixo de sublinhar, com tristeza, as múltiplas tentativas de partidarização da morte, demonstrada por adeptos dos vários lados da questão, sobretudo nas redes sociais. Por outro lado, questiono-me se o silêncio tantas vezes pedido por alguns, como alegado sinal de respeito pelos mortos, não consubstancia uma tentativa, essa também degradante e sobranceira, de calar a revolta dos vivos. Os supostos mandatários dos mortos parecem ter recebido um qualquer testamento moral que impõe uma rolha à enunciação do sofrimento alheio. Ora o luto é individual. É pessoal e intransmissível. É como entender que quem não se veste de preto, não respeita quem morreu. Impor silêncio a quem fica, é tão inaceitável e tão ridículo quanto isso. No entanto, não deixo de condenar, com veemência, algumas manifestações de ódio político e sobretudo politico-partidário que se registaram nas redes sociais e que não dignificam, evidentemente, quem as escreveu. Fizeram bem os que as denunciaram e que disso deixaram registo.

Aqui chegados, embora possamos considerar exagerados alguns fenómenos de “achismo” (todos acham que percebem de botânica, de planeamento florestal, de gestão da natureza e de prevenção de fenómenos naturais que possam resultar em prejuízo dos indivíduos) que não se confunda a falta de preparação científica específica sobre um qualquer assunto com demissão de exigência cidadã face a quem tem a responsabilidade de prover o bem comum.

Neste quadro de ruído social e mediático, de devastação também sentimental, nem sempre é fácil encontrar a exacta medida da sensatez e de um equilíbrio que nos permita, com razoabilidade, expressar o que sentimos e, consequentemente, o que dos outros exigimos. Assim, nas próximas linhas, gostaria apenas de deixar alguns conceitos à reflexão. Não se trata aqui de proceder a qualquer ensaio científico de modo que os conceitos são expostos de forma simples, recorrendo a fontes que se destinam ao grande público. Pretendo apenas, em função dos acontecimentos e do que me vai na alma insular, expor referências que me obrigam, enquanto cidadã, a orientar o pensamento, a análise e a crítica. Penso que é sempre útil delas partir para que, a bom porto possamos, com segurança, regressar.

Num local de divulgação (toupie.org) encontrei uma definição de responsabilidade: o dever de responder pelos seus actos, em todas as circunstâncias e consequências respectivas, assumir a enunciação, efectivação e, por conseguinte, a reparação e/ou até a sanção que daí possa resultar. Esta, uma ideia que encontra suporte em Murad, por exemplo. No mesmo local, resolvi pesquisar o significado de cidadania, a qualidade que permite a um indivíduo ser reconhecido como membro de uma determinada sociedade, de um Estado, e de participar na respectiva vida política. Nas sociedades democráticas, a cidadania estrutura os laços sociais e pode expressar-se, por exemplo, através do voto. Este conceito, o de cidadania, define-se, ainda, por valores: a) a civilidade – respeito em relação aos concidadãos e ao espaço público, componente de climas sociais harmoniosos; b) o civismo – respeitar e fazer respeitar, a título individual, as leis e as regras em vigor, o comportamento activo de um cidadão na vida quotidiana e política, a acção individual no sentido de que o interesse social se sobreponha aos particular e c) a solidariedade como sinónimo de participação no projecto comum, como abertura aos outros e contributo para uma sociedade equitativa e corresponsável.

Num dos números da revista de divulgação de temas de psicologia “Psychologies”, o psicólogo social Laurent Bègue refere que “a culpa é uma experiência emocional desagradável, caracterizada por um sentimento de tensão, de ansiedade e de agitação”. Explica, ainda, que “é um sinal de boa saúde psicológica” no sentido em que assinala ao indivíduo que a sente que agiu mal, que transgrediu os seus valores e os seus princípios. Bègue relembra, também, que se trata de uma emoção estruturante, uma salvaguarda da nossa consciência acerca do bem e do mal. Assim sendo, segundo este psicólogo, a culpa é essencial à construção da empatia, um dos mais rigorosos fios-de-prumo do respeito pelo Outro.

Regresso à epígrafe de Sobrinho Simões. Então e o resto? O resto é DOR e essa não se enuncia.