Raimundo Quintal avisava há um ano em entrevista ao FN: marginal da Calheta é perigosa

A propósito da queda de uma pedra hoje perto do Porto de Recreio da Calheta, faz todo o sentido recordar as declarações que nos foram prestadas pelo conhecido geógrafo e ambientalista Raimundo Quintal, aquando de acontecimentos semelhantes no ano passado. Publicámo-las a 19 de Julho de 2016, e nessa entrevista Raimundo Quintal considerava que a ocupação hoteleira e de serviços na marginal da Calheta aconteceu sem garantias de segurança e contrariando uma tendência humana de evitar aquele local para residência, ao longo de cinco séculos.

Antigamente, disse-nos então Raimundo Quintal, havia uma povoação na foz da ribeira, e depois uma outra pequena povoação, situada onde está o novo hotel, onde existia anteriormente um engenho.

“A verdade é que durante tantos séculos, em toda aquela frente nunca houve construções, havia grutas na rocha onde se guardavam os barcos… As pessoas sabiam que aquela escarpa era extremamente instável, e que ali era uma zona de risco”, refere Raimundo. Por isso nunca se fixaram populações naquele espaço, nem se desenvolveram grandes actividades, apontava então o geógrafo e ecologista, salientando que foi com a autonomia e com os “dinheiros fartos” que se começaram a construir hotéis, zonas para carros, uma série de coisas, a marina… “E as pessoas convenceram-se de que colocar redes de protecção é suficiente. Tem-se verificado que não é”.

Par Raimundo Quintal, aquela área é de facto de elevado risco de desabamentos, e não só no Inverno. Há “uma instabilidade muito grande” e o aquecimento das rochas pelas elevadas temperaturas estivais, dizia-nos há um ano atrás, “pode ser uma pequena ajuda para haja esses desabamentos”.

O ano passado Raimundo Quintal dizia que até então não tinha morrido ninguém, mas mencionava que com o aglomerar de pessoas e de actividades naquela zona, motivada pela praia, “o risco de acontecerem acidentes mortais é grande”. E considerava aquela área “verdadeiramente perigosa”, “muito arriscada” e o ter-se ali construído como se fez, “um abuso em relação à natureza”, pensando que era possível dominá-la.

“A lei da gravidade é bem mais poderosa”, concluía.