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Leal da Câmara por Aquilino Ribeiro é o título dum volume de envergadura A3, em fina cartolina serreada. que tem estado guardado num escaninho pouco visitado da minha estante destinada a obras de maior formato. Uma daquelas relíquias que o tempo se encarrega de atar com a fita amarela dos anos, como dantes se guardavam cartas de amor ou de saudade, em caixas de madeira embutida, ou, mais modestamente, em humildes cofrezinhos de folha de Flandres. Há trinta e quatro anos entregue a um sono profundo, o que me é dado saber pela data ali exarada, é, neste momento alvo da minha atenção, porque o mundo em que agora vivo, esgotado e ferido de destruição e vertigem, me pede uma pausa para espreitar velhos achados que me tragam lembranças de dias apaziguados onde eu possa repousar. Repouso e bons ares é receita antiga que deixou de ser aconselhada, porque o povo, na sua maior parte, para as suas horas de lazer, procura mobilidade, praias superlotadas, deslocações em massa, noites festivas, tudo o que afinal oferece ruido e ares saturados.
O livro é ilustrado, tem direcção artística de Abel Manta e dá-nos a conhecer a vida o obra de Tomás Júlio Leal da Câmara, pintor e caricaturista que integrou o Modernismo português. Leal da Câmara nasceu na antiga Índia portuguesa, Panguim, Nova Goa, em 1876, a vinte e poucos anos do fim da monarquia, época em que já se faziam ouvir murmúrios clandestinos pela defesa dos ideais republicanos. Cedo ficou õrfão de pai e, na companhia da mãe, voltou para Portugal, raíz da sua família, fixando-se em Lisboa. A par dos estudos em Agronomia e Veterinária, frequentou, como os melhores rebeldes da época, certa vida boémia, onde se agitavam novas ideias políticas e onde o seu talento não encontrou terreno propício, o que o levaram a exilar-se em Madrid, depois em Paris e à exploração da caricatura, área em que se tornou acérrimo crítico da sociedade de então.
A partir daqui interessa recordar um descendente desta linhagem dos Leaes, nascido no Funchal, na R. da Infância, em 1913, onde viveu atá aos onze anos, cuja obra, dispersa algures no tempo, permanece desconhecida dos seus conterrâneos, pela particular falta de curiosidade pela história da literatura da Madeira, ausente do interesse geral, ignorada nos centros nevrálgicos dos agentes culturais, com algumas e raras excepções.
Ernesto Sérgio Jaime Leal, militar de carreira, assinado Ernesto Leal nas várias obras literárias que deu ao público, conhecido e referenciado em Lisboa, particularmente salientado por David Mourão Ferreira, que a ele se referiu várias vezes, é um escritor e dramaturgo madeirense cuja presença nos Colóquios Literários dos anos 90, durante as primeiras Feiras do Livro do Funchal, lhe proporcionou o lançamento do livro de contos Em Jerusalém, o canalizador. Andei por perto deste acontecimento e guardo um precioso objecto que me traz os tais bons ares de que falei no início desta crónica: O texto original de Ernesto Leal escrito para a apresentação desta sua obra, repassado duma saudável ironia.
Encontrei-o no sítio certo, dentro da biografia do seu antepassado, Leal da Câmara. Por herança cultural desta ascendência, Ernesto Leal, através da obra escrita revela-nos um humor crítico aliciante, na descrição dos lugares por onde viajou, África, Macau e Médio Oriente e no retrato dos seus personagens, onde muitas vezes se inclui, observador perspicaz e avisado dos comportamentos humanos. Publicou, além de algumas peças de teatro levadas à cena na capital, contos e textos de natureza histórica e política. Na Madeira está referenciado em antologias coordenadas por Nelson Veríssimo e António Fournier, neste caso no livro Nostalgia dei giorni atlantici. editado em Itália e onde estão também presentes outros autores madeirenses contemporâneos.
Em Jerusalém,o canalizador, o Zecas é um português (alter ego do autor) que tendo entrado na venda dum árabe escutou uma conversa entre um canalizador e o dono da loja, o senhor MáHonéde, em que o operário manifestava o seu pendor nacionalista, alvitrando que os árabes nunca fariam a guerra. O Islão recuperaria o seu antigo império porque a América, sim, era ela quem faria a guerra e se desentenderia com a Europa. As duas se destruiriam mutuamente e o Islão teria o terreno livre para reconstruir o velho sonho. Numa tirada de humor velada sobre esta conversa que parecia ter constituído um temível vaticínio, Ernesto Leal termina o conto com o comentário do dono da loja, que lhe diz ser o canalizador um homem muito inteligente e ter estudado numa universidade do Cairo. Porque motivo um homem superiormente estudado se tornou canalizador, o sr. MáHoméde não chegou a explicar ao Zecas.
Entretanto, sobre a história dos vaticínios, o mundo vai-nos dando notícias.
Julho 2026
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