Costa Neves rejeita “negligência” da sua parte, diz que interveio no Monte e defende importância do património natural arbóreo

O antigo vereador da CMF com o pelouro do Ambiente, Henrique Costa Neves, rejeita as acusações de negligência que lhe são assacadas por alguns residentes do Monte. Afirma não ser verdade que a Câmara recebeu no seu tempo alguma intimação judicial relacionada com aquelas árvores, como foi afirmado, e assume a necessidade de proteger o património natural e arbóreo, sempre conjugando essa preocupação com a protecção de vidas e bens.  “A árvore é um elemento importante para a salubridade urbana”, defende.

Funchal Notícias – Na sequência desta tragédia que abalou toda a população madeirense, muito se tem falado sobre alegada negligência no tratamento das árvores no Largo da Fonte, no Monte. Negligência que é imputada por alguns não só ao executivo actual, mas já ao anterior, de Miguel Albuquerque, no qual o Sr. era o vereador com o pelouro do Ambiente. Qual é a sua leitura desta situação? Entende que houve alguma negligência na perigosidade que as árvores apresentavam? Qual foi o entendimento na altura do seu pelouro, para equilibrar a segurança das pessoas com a necessidade de proteger o património natural?

Henrique Costa Neves – Posso recuar cerca de oito a dez anos, em que fizemos uma vistoria a todas as árvores do Largo da Fonte, e a todo o conjunto arbóreo que existia lá na altura. E fizemos a vistoria árvore a árvore. Detectámos várias que eliminámos, e aproveitámos para proceder a um aligeiramento de copa. Retirámos todos os ramos já secos e os que estavam muito longos, dos plátanos sobre o Largo da Fonte e Babosas. Nessa altura, inclusive, detectámos que um plátano junto ao fontanário apresentava uma ligeira fissura e escorámo-lo, com uma espia de aço, a um outro plátano grande, que está lá em cima junto à igreja do Monte, e a situação ficou resolvida. Portanto, nessa altura, todo aquele conjunto de árvores foi alvo de uma vistoria técnica, intensiva, minuciosa e penso que a situação ficou controlada e estabilizada. Agora, a árvore que está agora em questão [o carvalho], eu recordo que na altura estava viçosa, e tanto quanto ouvi, ultimamente também estava. É uma característica que os carvalhos têm: eles aparentam estar viçosos, com uma copa verde, pujante, mas às vezes têm problemas radiculares indetectáveis a olho nu. E penso que foi a situação que aconteceu. Na minha opinião isto era imprevisível e indetectável, porque a árvore não apresentava nenhuma evidência externa de decrepitude e instabilidade, e de repente cai.

FN – O antigo director regional de Florestas, Rocha da Silva, está a participar na investigação a este caso e referiu à imprensa regional que o carvalho está provavelmente podre, atacado pela armilária, um fungo, e que a situação poderia ter sido detectada. Inclusive referiu que quando se bate no tronco, uma árvore saudável produz um som e uma doente, outro. Não está a acusar ninguém, mas salientou ao FN que chegou a ser vilipendiado por abater árvores na Quinta Rocha Machado… E deixa entrever a ideia de que as árvores são muito bonitas, mas podem causar tragédias…

HCN – Claro…

FN … e consequentemente, que é preciso tomar cuidado com elas. Ora, o que me diz é que na altura fizeram essa vistoria… Mas uma das coisas que tem vindo a ser contestada por moradores do Monte é o facto de prender com cabos de aço um plátano. Alegam que quando se prende uma árvore com cabos, é porque essa árvore não está saudável. E se não está, um dia vai cair. Qual é a sua perspectiva? Faz sentido, do ponto de vista do património natural, preservar aquelas árvores a qualquer custo, ao ponto de prendê-las com cabos de aço? Qual é a sua leitura do valor patrimonial das árvores que estão no Largo da Fonte, e como se equilibra esse aspecto com a segurança das pessoas?

HCN – Muito bem… Aquilo é um conjunto de árvores centenárias notável, de grande relevância. Se uma árvore apresenta um ramo que secou, isso não implica rigorosamente que o sistema radicular esteja totalmente afectado. Há podas que se realização, de manutenção e de recuperação. Agora, eu penso que também não se abatem árvores daquele género de ânimo leve… Trata-se de um património botânico de alta relevância, são árvores que até julgo (mas não afirmo) que estejam classificadas, e… na altura, já há cerca de dez anos, como disse, nós conseguimos recuperar um plátano centenário que apresentava uma fissura a nível do tronco, numa fase muito inicial, e que se nada se fizesse, a árvore teria de ser abatida. E a árvore está lá, foi espiada, foi ancorada num plátano enorme, resistente, junto à igreja, e recuperou e está estável. Não causa nenhum problema. Penso que as árvores, como seres vivos que são, deve-se tentar recuperá-las, sem pôr em risco pessoas e bens. Sempre que possível, devemos resgatá-las, recuperá-las. Quando a situação se torna insustentável e a perigosidade aumenta, então aí já não há remédio.

FN – Vocês fizeram essa intervenção. Mas vocês faziam outras intervenções periódicas, para vigiar o estado das árvores? 

HCN – Fazíamos o que se chama de podas de recuperação, o que tem a ver com as espécies, e se faz de forma técnica e adequada a cada espécie. Cortávamos galhos que estivessem pendentes, que apresentassem ângulos que ameaçavam ruptura axilar, e as árvores depois recuperam e reequilibram-se. Penso que é um dever nosso zelar pelas árvores, principalmente com duzentos anos, tentar recuperá-las, e não abatê-las de ânimo leve. Mas há que analisar sempre a segurança. Quanto ao carvalho que caiu, acredito que não apresentava sinais negativos ao nível da copa, mas o seu sistema radicular estava já muito depreciado. É a leitura que faço. Mas defendo o respeito pelas árvores, desde que isso se torne viável e seguro. Penso que é um dever nosso. Não abatê-las simplesmente porque é fácil.

FN – Mas havia residentes na zona que temiam que acontecesse, mais dia menos dia uma tragédia. O Funchal Notícias deu conta disso em Março, altura em caiu um galho bastante grande dum plátano que lá estava. E voltaram a avisar-nos de uma trágia iminente. A família Mendonça, que surgiu no FN e entretanto em outros órgãos de comunicação, inclusive nacionais, na sequência dos trágicos acontecimentos de ontem, afirma que notificou, inclusive pela via judicial, tanto a vereação anterior da Câmara, onde o Sr. era responsável pelo pelouro do Ambiente, como a actual, para que tomassem as providências necessárias…

HCN – Não é verdade. Eu não me lembro de nada disso. Não me recordo de nenhuma notificação judicial. Isso não é verdade. Esse indivíduo [o Sr. Mendonça] é demasiado exuberante para o meu gosto. E inconveniente, às vezes. Recordo-me de que, na altura, na sequência de uma reclamação dele, nós procedemos a esse aligeiramento de copas e a essa limpeza em grande escala em todos os plátanos do Monte. Agora, notificações judiciais, que eu me lembre, numa recebemos isso. E a Câmara tinha aquele parque em apreço e debaixo de uma atenção rigorosa. Mas a árvore é um ser vivo, que vai evoluindo, como qualquer um de nós. Hoje estamos aqui bons, mas daqui a quatro anos, poderemos estar já do “outro lado”… A árvore é um ser vivo evolutivo e tem de ser acompanhado.

FN – Face aos alertas mais recentes que foram feitos em Março, nomeadamente com a queda de ramos dos plátanos, entende que a Câmara actual deveria ter feito mais do que fez? 

HCN – Isso tem de ser visto caso a caso. Mas acredito que a Câmara procedeu à limpeza dos plátanos. São árvores grandes, têm ramos longos, e é natural que caiam com o vento. Acredito que esta Câmara actual esteve atenta à situação. Agora, relativamente ao carvalho, é como disse… aquilo era uma situação imprevisível, assim a olho nu, numa observação mais empírica. Se houvesse a suspeita, e se fosse feita a peritagem mais aprofundada, no caso de haver algum indício que levasse à suspeita de que a árvore seria afectada, aí penso que se poderia identificar a razão que levou à situação. Mas numa observação a partir do exterior, penso que isso não é possível, e o Monte tem muitas árvores…

FN – A Câmara Municipal do Funchal invocou que aquele terreno onde se situava o carvalho que caiu não é propriedade sua, mas sim de privados, nomeadamente a paróquia do Monte. O que levantou ontem uma questão que foi analisada pelo FN: o pároco do Monte assinalou um marco geodésico na Casa do Romeiro, e disse que dali para baixo, como o marco demonstra, os terrenos são é da Câmara. Historiadores como Nelson Veríssimo, entretanto, analisaram a situação e vieram confirmar esta tese. Os terrenos são da Câmara. Da sua parte existe alguma dúvida de que o terreno onde se situava o carvalho que caiu está sob responsabilidade da Câmara ou lhe pertence?

Costa Neves com Rui Barreto, para cuja candidatura organizou recentemente uma série de conferências para pensar a cidade

HCN – Essa é uma questão que não lhe posso responder exactamente. Posso é responder que ao longo destas décadas e desde há muito tempo, tem sido a Câmara a proceder à manutenção do conjunto arbóreo e dos jardins do Monte. Agora se a propriedade é camarária ou não, isso não posso garantir. Posso é garantir que desde longa data a CMF tem procedido à manutenção de todo aquele espaço verde.

FN – Uma professora da Escola Secundária de Jaime Moniz, presente no local da tragédia, que foi testemunha ocular do que aconteceu, garantiu ao Funchal Notícias ter a certeza de que o que causou a queda do carvalho foi o ramo de um plátano que terá caído sobre o carvalho, precipitando assim a queda da árvore. Isto é possível? 

HCN – É possível se for um ramo de dimensões grandes e se o carvalho estiver com o seu sistema radicular fragilizado. Se a senhora diz que tem a certeza absoluta, é um dado novo a ter em conta. Mas é natural que caiam ramos de árvores, claro. Essa é uma situação nova que eu desconhecia, a de que a queda do carvalho pudesse ter sido provocada pela queda de um ramo de um plátano. Mas não é impossível. Convém ver se realmente se verificou isso ou não. Agora, toda a gente fala e o ruído é enorme. Há que ver…

FN – A Câmara do Funchal chamou técnicos do Instituto Superior de Agronomia para auxiliar na investigação do que ocorreu. É positivo que sejam técnicos de fora da Madeira a analisar isto? 

HCN – Isso é uma decisão política da Câmara que eu não comento. Penso que se calhar foi com boas intenções, para partir do princípio de que as pessoas que vêm de fora são imparciais. Penso que se calhar o que norteou a decisão foi isso…

FN – Tenho que lhe perguntar, face às acusações que lhe foram dirigidas: sente-se culpado, de alguma forma, de algum tipo de negligência? 

HCN – Não. Nos meus doze anos de vereação, eu era uma pessoa que ia ao terreno, não me limitava ao gabinete. Fiz tudo com empenho, dei o melhor que soube e pude. Em relação ao Monte, penso que não. Não tenho nenhum sentimento de culpa, pelo contrário. Penso que enquanto lá estive [na vereação] dedicámos grande atenção e empenho à regeneração e ao embelezamento daquelas árvores, e do conjunto verde em geral.

FN – No seu entender, onde há árvores centenárias, que também fazem parte do nosso património natural e têm que ser valorizadas, haverá sempre um elemento de perigo, de imprevisibilidade?

HCN – Haverá sempre um elemento de risco imprevisível. A não ser que se cortem as árvores todas, o que penso que é um disparate, não é? Agora, implica que haja uma observação cuidada, periódica, que era essa que realizávamos. Fazíamos intervenções quando se justificassem. E eu recordo, como disse no início, que chegámos a abater várias árvores lá. Realmente estavam em risco de queda. Mas as árvores são evolutivas. Às vezes degradam-se rapidamente. Há que estar atento.

FN – Na sequência do que aconteceu, levantaram-se algumas preocupações das pessoas também relativamente aos plátanos existentes na Estrada Monumental. Há quem diga que eles indicam também sinais de estarem já muito velhos e em risco de queda. Acha que há alguma legitimidade nestas observações? 

HCN – Poderá haver. Eu recordo-me que quando estive lá na CMF removemos vários. O plátano é uma espécie que é mais resistente que o carvalho. Mas o clima do Funchal é demasiado quente para o plátano. Aqueles plátanos foram lá plantados por volta de 1850, quando se abriu aquela estrada, para acudir às vinhas de Câmara de Lobos. Agora, aí é que está: têm de ser vistos um a um, caso a caso, porque são árvores igualmente notáveis. Se apresentarem risco de instabilidade ou de queda têm de ser removidas. Na altura em que removemos algumas, substituímo-las por outras espécies, neste caso a tipuana, uma árvore resistente e de grande porte. Os plátanos da Estrada Monumental têm que ser vistos um a um, mas também criteriosamente e com alguma razoabilidade. Não se os vai abater todos, temos que ter respeito, consideração. Se houver alguma árvore que, na sequência de vistoria pormenorizada, se venha a revelar instável ou em risco de queda, é óbvio que terá de ser removida… mas plantada outra em seu lugar. Não se vai só remover árvores. Porque a árvore é um elemento importante para a salubridade urbana.