Um panegírico televisivo

Entre 16 de Março e 18 de Maio último, ao longo de 10 semanas, a RTP-M transmitiu um programa intitulado “AJJ, 37 anos de poder”.

Confesso que, inicialmente, certamente por ingenuidade pessoal, julguei que a televisão regional pudesse proceder, com alguma isenção, a uma retrospectiva do que foi a designada governação jardinista.

Fi-lo com base na circunstância dos aludidos episódios, designadamente os iniciais, incluírem pequenos depoimentos de personalidades não conotadas com o respectivo poder.

Acontece que à medida que a aludida retrospectiva ia avançando no tempo, tais episódios foram se tornando cada vez mais monolíticos, limitando-se praticamente a reproduzir as opiniões daquele que se auto-intitulava “único importante” cá do burgo e dos seus correligionários, mais ou menos alinhados.

Por outro lado, foi por demais evidente que a estrutura do programa valorizou determinados períodos históricos do respectivo percurso político, as fases iniciais, em desfavor dos demais. A menos que a estrutura que havia sido planeada tivesse, entretanto, por razões que desconhecemos sido alterada.

Sintomático do que referimos é a circunstância do último episódio (o 10º) ter abarcado os últimos 8 anos de governação, exactamente o período que envolve o conflito com o governo da República em redor da revisão da Lei das Finanças Regionais, a descoberta da divida “oculta” de que resultou o famigerado PAEF, as “guerras” internas que culminaram com a saída de cena do dito cujo. Tudo tratado em cerca de 60 minutos, tantos quantos os correspondentes à duração de cada episódio do “folhetim jardinista”. Ou seja, uma espécie de passagem de “gato sobre brasas”.

Um episódio em que, aliás, se exceptuarmos o respigar de algumas declarações do então 1º Ministro, José Sócrates, foi predominantemente preenchido com depoimentos de responsáveis do seu partido (PSD/M), ex-governantes, ex-deputados, etc.

A todos os títulos intolerável foi a circunstância da questão da dívida ter sido abordada sem qualquer contraditório e sem minimamente sequer terem sido consideradas as nefastas consequências no tecido económico e social, resultantes da aplicação do Plano de Ajustamento Económico e Financeiro na Região, cujos efeitos continuam dramaticamente presentes.

Igualmente intolerável é o facto de ter sido, ao longo da dezena de episódios, pura e simplesmente ignorada a completa instrumentalização pelo seu partido e pelo governo regional do “Jornal da Madeira”, um facto tanto mais grave por ter contado com a estreita cumplicidade e conivência da Igreja diocesana que, em momento algum se demarcou, nem sequer quando, na face final do jardinismo, o jornal foi transformado num instrumento de poder pessoal da criatura e onde o mesmo diariamente insultava tudo e todos, inclusive os seus próprios correligionários. Uma promiscuidade político-religiosa de fazer inveja à verificada no próprio Estado Novo, entre o ditador Oliveira Salazar e o Cardeal Cerejeira.

No mais, o folhetim das quintas-feiras na RTP-M, serviu para confirmar que a criatura continua igual a si própria.

Por um lado, a endeusar o betão. A insistir que a aposta na construção civil continua a ser vital para o desenvolvimento regional. Agora, “descobriu” que a desertificação rural só pode ser ultrapassada com mais obras rodoviárias, nomeadamente com a conclusão da ligação São Vicente-Santana e da via até à Ponta do Pargo, e que os problemas das zonas altas do Funchal só se resolvem com a cota 500.

Afinal, é tudo uma questão de mais uns túneis, de um pouco mais do esburacar da ilha. É caso para dizer, caro leitor, se acredita em milagres peça encarecidamente que o sr. Governo faça a vontade ao dito cujo.

Mas, mais a sério, apetece perguntar: e, sendo concluídas tais obras, a seguir o que é que a criatura proporia para manter em actividade o lobby da construção civil, do seu companheiro J.R.: uma ligação rodoviária ao Porto Santo ou a Lisboa?!…É melhor as duas!

Por outro, acha-se um estadista de alto gabarito. Que marcou a história de Portugal e do Mundo. Então, não é que o dito cujo foi decisivo para a escolha de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia e desempenhou um papel determinante na abertura pós-apartheid, na África do Sul?! É ele próprio que o assume, não sou eu que o digo.

Pelos vistos, só não foi mais longe porque foi um alvo permanente. Temeu pela vida no PREC. A Maçonaria, Bush e a Trilateral juntaram-se para conspirar contra ele. Aquando da vaia no Estádio dos Barreiros até um perigoso cadastrado se sentou atrás. E foi traído por figuras do próprio partido. Oh homem, será que desconfia da própria sombra?!

Comovedor foi ouvir e ver o modo embevecido com que alguns dos seus correligionários se lhe referiram. De modo especial, aquele “deputado permanente” pelo PSD/M na Assembleia da República para quem “havia uma luz que nos (a eles, claro) galvanizava” ou o actual presidente da ALM que regozijava-se, sublinhando: “nós sentíamos que tudo estava preparado”. Enfim, na Coreia do Norte, do camarada Kim-Jong-un também é assim que o grande timoneiro é tratado. Perdão, idolatrado.

Resta dizer que essa “estória” do grande “prugresso” cultural que o dito cujo se gaba que ocorreu é uma treta. É que, um povo que fosse, de facto, superior, não teria suportado um tão longo reinado. Ter-se-ia libertado da “canga” que o levou a comportar-se como se tivesse de estar eternamente grato ao sr. Governo por ter proporcionado a água, a luz, a estrada, a casa, etc. Como se constituíssem favores e não direitos.

 

*por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia