Crónica Urbana: Cacifos para os sem-abrigo, a nova “jóia” brilhante

Rui Marote

Hoje foi um dia histórico para o Município do Funchal. 19 de Maio passará a ser o Dia do Cacifo. A edilidade funchalense copia a experiência que há quatro anos nasceu em Lisboa, onde existem 48 cacifos para os sem-abrigo, transportando a ideia para o centro do Funchal onde os sem-abrigo guardarão os seus bens, “por mais escassos que sejam”. Concordo que a existência de sem-abrigo é uma realidade de todo o mundo e de todas as cidades.
Mas não vou aplaudir esta importação de “caixotes” para o Funchal. Sei que uns ficarão no Campo da Barca e outros no Largo do Phelps.
Não me interessa o que irão guardar, mas estou alerta para ver. Estive em Abril em Bruxelas, coração da União Europeia, e a minha objectiva captou a realidade dos que vivem na rua, problema que alastra por toda a Europa.
O presidente Cafôfo um homem formado em História, deveria ter outra sensibilidade, não importando para uma ilha diagnósticos relacionados com a realidade das grandes cidades.
Não havia outras soluções para debelar esse flagelo? O cacifo irá resolver os problemas?
Como o presidente é um homem da História não há nada como factos históricos.

Os banhos públicos na Roma Antiga

Quando hoje falamos em tomar banho, remetemos a menção a um acto particular da nossa vida. No entanto, na Roma Antiga tomar banho publicamente não era um escândalo ou uma indecência, e sim algo comum da cultura do povo. Os banhos públicos tornaram-se vulgares no quotidiano do povo romano. Existiam em todas as províncias e na maioria das cidades, levando ricos e pobres, homens e mulheres a irem a tais locais não apenas para se lavar, mas para participar da vida social da cidade.

Quando tinha os meus seis anos recordo ter ido, pela mão do meu pai, pela primeira vez junto ao Jardim Municipal a uma casa de banhos públicos ao lado da garagem dos autocarros da SAM. Estou a falar nos anos 50. Nessa época contavam-se pelos dedos quem tinha um duche. Os banhos eram tomados de banheira num dos quartos, transportando panelões de água quente e fria. Geralmente os frequentadores desse banho público eram trabalhadores da Pontinha. Não havia shampoo ou gel. Havia sabonetes para alguns, mas no geral era sabão azul, que tira a caspa e desinfecta…
Com aparecimento das novas casas do gás e do esquentador eléctrico, a nova geração já não teve de passar por tais atribulações para tomar banho.
Nos finais de Sessenta esses locais de banhos públicos desapareceram.

Vão desculpar esta historiazinha. A mesma destinava-se a chegar a esta conclusão: “Não lhe dês peixe, dá-lhe uma cana e ensina a pescar”.
Em vez do cacifo, o edil Cafôfo poderia e deveria instalar, num dos prédios devolutos que estão na área do Funchal, uma zona de balneários. Ali colocaria os cacifos, e simultaneamente incentivava à higiene; dava gel e toalha e oferecia aos sem abrigo aos finais de tarde um banho e, eventualmente com ajuda das instituições de solidariedade social, uma muda de roupa. Poderia haver um horário das 18 horas ás 20h30. E a casa reabria no dia seguinte das 08 horas ás 9h30 para as pessoas colocarem os seus pertences nos cacifos. Lá dizia o Raul Solnado: “Meu filho vai para guerra mas vai limpo”.

A questão é que esta história dos cacifos na via pública suscita-nos as maiores reservas. Não vemos que dali possam advir grandes benefícios… nem sequer na higiene dos que vivem na rua. E a higiene é o passo número um para um ser humano se sentir bem e para favorecer a sua reintegração social. As prioridades não deveriam ser outras?