Crónica de França, hoje: politicamente incorrecta

“A paz perpétua chegará finalmente ao mundo de uma de duas maneiras: pela visão humana ou pelos conflitos e catástrofes de uma magnitude que não deixará outra opção à Humanidade”

Immanuel Kant in “Paz perpétua”

  1. Ficha técnica

França

População: 66.81 million (2015)

PIB per capita: 36,248.18 USD (2015) World Bank

País-autor da Declaração universal dos direitos do Homem e do Cidadão, em 1789

País fundador da Comunidade Europeia (inicialmente CECA)

País fundador das Nações unidas

Membro do G8, agora G7+5

5ª Potência mundial

Potência nuclear

  1. Contexto

Uma eleição presidencial. Segunda volta. Debate televisivo entre os dois finalistas da corrida: Emmanuel Macron e Marine Le Pen. O debate, transmitido por seis cadeias de televisão, foi muito visto, mas não teve uma assistência recorde. Segundo as estatísticas, visionaram-no 16,4 milhões de espectadores.

Os dados fornecidos pelo Governo francês, após a primeira volta estão representados na imagem anexa. Nota óbvia: dela resultou um país “partido” em dois, do ponto de vista eleitoral, o que corresponderá, com alguma fidelidade, ao que a nação sente. Duas outras notas: os representantes dos partidos tradicionais foram esmagados sem dó, nem piedade, tendo sido remetidos a uma humilhação que não tem precedentes. Nesse preciso critério, Le Pen já venceu. Venceu num outro. É que, no passado, o então candidato Jacques Chirac utilizou uma então aceite barreira ético-política para recusar o debate com o pai Le Pen. Ontem, essa barreira desfeita, não havia outra hipótese para Macron senão debater e esse pequeno detalhe também diz muito do retrocesso relativo ao ambiente político vivido em França e um pouco por toda a Europa, actualmente.

Assiste-se, nestes dias de grandes mudanças e indecisões, no seio das democracias ocidentais, à irrupção de um parasita que as fragiliza e condena. As brechas pelas quais se infiltra são bolsas de falência dos seus fundamentos, de apropriação dos aparelhos de Estado, por entidades (em geral não escrutinadas) que o manipulam e o derrotam. Isso só é possível pelo crescente distanciamento entre os centros de poder e os cidadãos sobre quem as suas decisões recaem, tema que – por mais que seja falado e debatido – esbarra com as pesadas grades das portas desse mesmo poder. A França, cuja divisa (Liberdade, igualdade, fraternidade) tem sido atingida no âmago mesmo dessa semântica, foi o primeiro país europeu a gritar ao mundo o quão errado estava a ser o percurso da União criada no pós-segunda Guerra mundial. Esse primeiro alerta, Maio de 68, deveria ter contribuído para uma avaliação acerca do caminho, mas não foi o caso. Em 1968, decorriam já dez anos desde o início da quinta república, a que vigora ainda hoje. Desde o seu início, passaram pelo Eliseu sete presidentes: Charles De Gaulle, Georges Pompidou, V. Giscard D’Estaing, F. Mitterrand, Jacques Chirac, N. Sarkozy e François Hollande que deixa, agora, o poder. Ficará este último para a História como uma das grandes decepções políticas do regime constitucional francês, a acreditar nas repetidas sondagens que têm sido publicadas. Esta república tem sido, aliás como em outros países europeus, marcada por uma fragilização crescente do poder do parlamento e um crescente reforço do poder emanado de Bruxelas na sequência do modo como a EU tem sido conduzida.

  1. Debate
  2. a) Nota prévia

Não me parece possível separar o debate relativo a esta segunda volta, dos ocorridos por altura das recentes eleições norte-americanas, entre Hillary Clinton e Donald Trump e que conduziram à vitória deste último. Aliás, quem seguiu o debate francês não pôde deixar de aperceber-se do quanto Le Pen os havia estudado e o quanto as suas múltiplas tácticas replicam o estilo e até o léxico do amigo americano. Dessa estratégia, destacaria: o lançamento de dados tóxicos (palavra que se utiliza como eufemismo de mentira ou de falsidade) que obrigaram Macron a utilizar tempo para contrariar, desmentir e elucidar, perdendo-se assim do essencial; utilização de vocabulário ofensivo, num quadro verdadeiramente ad hominem , tentativa desesperada para conduzir o candidato a responder do mesmo modo (estratégia a que Macron resistiu quase sempre) e a repetição de apoios do discurso tais como “não fique zangado”, “parece aborrecido, mas não se aborreça” no sentido de desencadear essa mesma irritação. Sabendo que as mentiras de Trump não impediram a sua eleição, antes parecem tê-la reforçado, Le Pen não colocou nenhuma espécie de pudor ao proceder da mesma forma, capitalizando o descontentamento popular com tiradas, frases feitas, “petardos” etc.

 

  1. b) Le Pen

A candidata, como já referi, jogou “baixo”. Não há outra forma de o dizer. Ou haveria, mas não seria a mesma coisa. Jogou com a quinésica, emanando a impressão de uma atitude combativa, preocupada e comprometida com a resolução dos problemas que afectam os franceses. Mostrou-se, como sempre, campeã do extremismo, facturou quanto a todos os medos e atiçou todos os fantasmas. Não tendo revelado qualquer projecto politico para a Nação que pretende governar, as suas atoardas resumiram-se à vontade de destruir tudo o que está feito  num discurso tóxico, pleno de inverdades e incorrecções, incoerências e dados falsos.

  1. c) Macron

Resistiu, como pôde, às inventivas da sua oponente, raramente respondeu no mesmo tom e emendou, sempre que foi possível, os dados incorrectos que Le Pen lançava para o écran. Macron foi ministro de Hollande e revelou estar preparado para responder a essa crítica-colagem que seria feita, inevitavelmente pela candidata. A sua conotação com o sector bancário foi lembrada de forma repetida, aliás. Não pertence a nenhum partido político o que, em caso de vitória e segundo os analistas, pode até ditar o fim da quinta república. Em breve haverá eleições e o resultado das mesmas será um teste ao modo como o sistema constitucional francês se adaptará a uma nova realidade. Relembremos que o Presidente da República, em França, chefia o Conselho de Ministros. Macron foi respeitador da sua adversária a quem chamou sempre Madame Le Pen mas cedeu, em meu entender, demasiadas vezes à estratégia que havia, no passado, minado Clinton. Deveria, em minha opinião, ter tido sido submetido a um “massacre” de ensaio para poder ter estado à altura de não se comprometer com a mesma. Hoje em dia, é assim que funcional e esta ingenuidade que – repito – derrotou Clinton pode afectar a eleição de Macron.

O candidato não me pareceu ter capitalizado o descontentamento popular em relação a questões que são essenciais nesta eleição: i) a passagem de Le Pen à segunda volta; ii) a derrota dos candidatos dos partidos do sistema; iii) a falência dos valores promovidos por uma globalização que mina as democracias (mesmo que dela se alimente). Limitou-se, demasiadas vezes, em meu entender, a afirmar, mesmo que de diversas formas, que “não é le Pen”. É escasso. Faltou, claro está e consequentemente, dizer quem é. Das suas intervenções não resulta, com definição e clareza, a apresentação de um projecto político para França, uma ideia de país, um desígnio de futuro.

  1. Realidade comentada

A França é, hoje, um intricado puzzle multicultural que coexiste num quadro que eu não hesito em designar como de “guerra fria interna”, resultado de sucessivas politicas – erradas (mesmo que tivessem a certa altura sido bem intencionadas) – de acolhimento e integração sobretudo dos franceses e não franceses emanados das ex-colónias. Mesmo que não seja politicamente correcto disso falar, quem conhece, por dentro, a realidade francesa, sobretudo nas grandes metrópoles, sabe que existem autênticos estados islâmicos dentro do Estado francês, regidos pela Lei da sharia, num regime de auto-guetização que os sucessivos governos franceses por inabilidade, ineficácia ou incapacidade não resolveram e ignoraram. Financiaram o ócio dessas populações, aparentemente assegurando o que representaria uma ilusão de integração, uma eficaz interculturalidade que, como sabemos, não existe. Estas células, sem outros filtros ideológicos ou políticos a não ser a lei islâmica, representaram e representam fontes de produção de fenómenos anómicos e de focos de violência contra o sistema que os acolhe e financia. Isso ficara, já demonstrado, em 2005, com os chamados “incêndios de Paris” sem que nenhuma lição tenha sido aprendida. O ócio torna sempre mais fácil a penetração de fontes de endoutrinamentos vários, neste caso, de centros de radicalização que se constituem em exércitos de desmantelamento do Estado, através da chantagem e do medo, este último em larga escala quando se tata de ataques terroristas. Para os responsáveis governamentais, franceses e europeus, sabemos bem, as vítimas dos atentados terroristas não são mais do que efeitos colaterais. A táctica de usurpação e de conquista dos aparelhos do Estado passa, justamente, por não atingir os seus detentores, semeando, no entanto, o medo entre as populações. Não será doce ou politicamente correcto o meu vocabulário. Admito. Mas como explicar o valor de mercado de um discurso de ódio e de medo que vence eleições e coloca uma destituída como possível candidata à Presidência de um país como a França? Há um grande número de cidadãos franceses, sobretudo os que vivem nas periferias das grandes cidades e aqui refiro a que melhor conheço, Paris, que vivem subjugados ao terrorismo e obrigados a pagar o “dízimo” a essas organizações se querem ter a sorte de poder entrar e sair de casa livremente, pensionistas às centenas que entregam a quase totalidade das suas pensões “à causa” com a única garantia de viver. Tudo isto se passa não muito longe do glamour e das luzes da mais famosa torre do mundo.

O ressentimento, sabemos bem, é um dos mais eficazes fertilizantes do ódio e este o motor de busca de Le Pen. O frontismo nasce no exacto sítio onde milhares de franceses gritam basta, em silêncio. Daí ao fascínio pelos apelos racistas e xenófobos, a distância é curta. Do alto dos arranha-céus de Bruxelas, não se sente o cheiro a pobreza extrema, a chantagem com a vida, a usurpação de direitos por terceiros que o Estado dos Direitos do Homem não controla.

Trump, Brexit e Le Pen não nascem da estupidez de ninguém. Nascem e prosperam à custa do ressentimento e do ódio que este gera. Nascem e prosperam do sentimento de abandono dos cidadãos pelo Estado que supostamente se constitui para os proteger. A uma desumanizada globalização, a um desenfreado desinteresse dos políticos pelos cidadãos que os elegem, corresponde uma elevada abstenção (que poderá levar Le Pen ao poder). O desespero é tanto que o próprio director do jornal Le Monde apela, explicitamente, ao voto em Macron.

  1. Em suma…

A questão da falta de qualidade das lideranças vem de longe. Sem respostas eficazes aos cidadãos, compactuando com climas de usurpação dos seus direitos fundamentais, há uma geração de incapazes que colocará em causa estes quase 75 anos de Paz que se viveram, com altos e baixos, é verdade, mas em Paz, na Europa. Cedemos terreno a populismos fáceis que, sem projectos e sem respeito pelos cidadãos, capitalizam o seu descontentamento, o seu desespero, a sua imensa desilusão.

Precisamos urgentemente de Europa. Não desta que desconsidera os seus, mas de uma renovada união que se constitua e respeite os desígnios do fundador, que re-outorgue esperança às populações e lhes assegure o valor de um lar. Em nome de tudo isso só podemos rejeitar Le Pen. Em nome dessa herança devemos, com a mesma energia e força, rejeitar a ameaça islamo-fascizante que intima tudo o que de bom nos foi legado.

A certa altura do debate, Le Pen “atira-se” a Macron afirmando que, caso perca ou ganhe será, em qualquer dos casos uma mulher a mandar na Europa, ou Merkel ou ela. Mesmo assim, e com os riscos que corremos, mais vale Merkel em Berlim e Bruxelas do que uma brejeira Le Pen no Eliseu, em Paris.

Ontem foi o fim da ideologia? Não sei. É assustador que a escolha seja entre Le Pen e Macron? Sim. Mas a escolha da democracia que nos resta só pode ser Macron. De ontem, a única certeza e a única esperança que nos resta. Mas esta é conversa ideologicamente marcada. E politicamente incorrecta. Mas isso é sempre.