1º de Maio: Precário como o trabalhador

Não estão em causa os princípios subjacentes ao 25 de abril de 1974. Nem tão pouco os que estiveram na origem do 1º de Maio, consagrado e bem o Dia do Trabalhador. Esses princípios são para respeitar, para reivindicar, tal como na altura, agora e sempre. São intocáveis. E são esses mesmos princípios que nos levam, ainda, a ter alguma esperança em assinalar os dias como relevantes para a democracia e para a defesa dos direitos dos trabalhadores, mesmo que os anos tenham “atropelado” literalmente tudo aquilo que se seguiu a essa definição de princípios.

A Revolução valeu a pena, a Evolução nem por isso. A primeira “morreu na praia”, fez o mais difícil que foi libertar o país e deixou-se enredar por diversas teias e diversas ditaduras, que vieram de todo o lado. Até aos dias de hoje. Da forma como se pode ver. A segunda, perdeu-se pelo caminho, porque a Evolução, assim com letra maiúscula mesmo, não é para qualquer um. E nós, Portugal, não soubemos merecer isso. Recebemos para evoluir e acabámos pagando para recuperar.

Praticamente não há direitos

Os princípios constituem uma parte da questão. Inquestionável. A outra parte é mesmo, assim, clarinho como água: é uma hipocrisia comemorar o 25 de abril e o 1º de Maio sem ser por uma questão de princípios. É um faz de conta. E muita gente faz. Porque se for para comemorar o que nos vai na alma e na realidade do nosso dia a dia, então já deu o que tinha a dar, há muito tempo. Não se vêem práticas de abril além das eleições. E mesmo assim… E quando não se pratica, também não faz sentido falar de princípios só porque é politicamente correto. Sabemos que isso existe, e não é pouco, mas o que dizemos é que não faz sentido.

Vamos festejar o dia de abordar os direitos dos trabalhadores num contexto em que praticamente não há direitos dos trabalhadores, há trabalho precário como regra e não exceção, há fragilidades laborais onde o medo domina, onde o favorecimento impera, onde a subserviência é cultivada a troco de um estágio e onde a continuidade, ainda que precária, é decidida pela forma “atapetada” como cada um se consegue adaptar. Hoje, pede-se, por favor, um estágio não remunerado, trabalha-se três ou mais meses à experiência sem qualquer retribuição financeira, horas de trabalho sem regras e dias de folga que, dependendo do “capataz” (é assim que atuam algumas das novas lideranças empresariais), até pode ser uma troca de favores. E ainda há quem tenha a distinta lata de vir falar de direitos dos trabalhadores. É que isto chegou a um tal ponto que o bom senso tem limites.

Lata” de todos os lados

Esta “lata”, como diz o povo, vem de todos os lados. Os sindicatos defendem o que podem, que é pouco. Alguns empresários – felizmente há exceções neste país – atacam o que podem, que é muito. Esta sociedade economicista, de supremacia do ter sobre o ser, retirou direitos, retirou valores, retirou autonomia da pessoa, retirou identidade, retirou humanidade. E todos, mas todos mesmo, são coniventes com esta promiscuidade que arrasou as sociedades e está a destruir projetos globais, que deveriam ser de interesse comum e acabaram por ser de interesse individual. Como a Europa, por exemplo. E depois, a surpresa, também ela hipócrita, acerca de fenómenos como Trump ou Marine Le Pen. Qual é a dúvida? Querem que faça um desenho sobre as razões pelas quais isto acontece?

Mas pronto, lá vamos comemorar o 1º de Maio, que na Madeira é como comemorar abril. O 25 de abril de 74 foi assinalado e vivido praticamente a 1 de maio, dado que as notícias, à época, não “corriam” como hoje e a Madeira parecia ainda mais distante de Lisboa. Os pormenores foram sendo conhecidos, mas a festa do povo propriamente dita, foi mesmo a 1 de maio de 74. Por isso, o 1º de Maio, na Região, tem uma dimensão acrescida. Infelizmente, o pensar global, sentir global, viver global, acabou por levar a Madeira para patamares globais. Com o que há de negativo e com o que há de positivo nesse envolvimento.

Temos o dever e a responsabilidade

Não podemos ficar isolados, é certo. Mas temos o dever, a responsabilidade mesmo, de perante as novas gerações e num contexto de unidade nacional, irmos criando mecanismos que evitem este crescendo de vulnerabilidades laborais, que comprometem o futuro. De todos. Mesmo dos que, aparentemente, ou conjunturalmente, parecem estar imunes. Já se viu que há coisas que não acontecem só aos outros. Aqui, mete-se governo, oposição e povo madeirense no mesmo “saco”. Ou vamos todos à luta ou morremos todos de inércia. Uns por falta de atuação, outros por cumplicidade.

Precários nos ideais do 25 de Abril

Estamos precários nos ideais do 25 de Abril, nos direitos dos trabalhadores, mesmo aqueles direitos mais elementares, na identidade nacional, na defesa de valores, no combate à corrupção, na estruturação do sistema financeiro, na organização partidária e na capacidade de dar esperança aos jovens e, consequentemente, ao futuro.

Mas a precariedade de um povo nunca fez um País forte.