O que tem Darwin a ver com Carnaval? “Fura Samba” promete surpreender

Fura samba carnavalO Carnaval está à porta e faz já mexer muita gente, literalmente falando. Dança-se, ensaiam-se batidas e enredos, testam-se materiais e acessórios. Todos os momentos livres são dedicados a fazer do cortejo, a 25 de fevereiro, no Funchal, um verdadeiro “Reino da Fantasia”. Há quem recorra ao naturalista Charles Darwin para surpreender a (sa)M(b)AR.

Muita animação e alegria. A ideia é simples, mas concentra em si tudo aquilo que os elementos da Associação Recreativa e Cultural Fura Samba desejam com a sua participação em mais um cortejo de Carnaval. “Queremos, acima de tudo, boa disposição. A alegria é o ingrediente fundamental”.

Nicolau Pereira, há 22 anos nestas andanças carnavalescas – 15 de “Fura Samba” e 6 de “Cariocas” -, é o mestre timoneiro à frente de um grande grupo: cerca de 124 elementos, entre os 14 e os 70 anos, incluindo 16 turistas dos hotéis Pestana. Algo de que se orgulham terem sido pioneiros.

Serão 12 secções mais a bateria, com 22 elementos, e carro alegórico. Uma autêntica explosão de cor e energia é o que promete este grupo, já experiente em outros enredos. Cerca de 80 por cento dos seus elementos são repetentes, embora o grupo integre todos os anos novos candidatos . Este ano, a procura superou as expetativas, ao ponto de as inscrições terem fechado já na primeira semana de janeiro.

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Desde o dia 8, ou seja há quase um mês, que os “Fura Samba” vêm reunindo num pavilhão em São Martinho. São sábados e domingos, lá para o fim da tarde, para ensaiar coreografias, acertar passos e definir a dinâmicas entre as diversas alas que compõem a troupe. A coreografia é de Alberto Maia, bailarino profissional, e a supervisão fica a cargo da também bailarina Liliana Freitas, que ensaia os participantes na dança das ondas do mar.

Enquanto a música e os requebros se acertam há ainda que dar corpo ao visual. A promessa é arriscar. O tema orientador que alinhava fatos, adereços e acessórios presta-se a surpreender. O escultor Hélder Folgado assina o projeto estilístico.

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Tendo como ponto de partida a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, foliões e carro alegórico decidiram enaltecer o casamento entre a ilha e o oceano, apostando na magia das espécies marinhas. “A Terra abre-se em sorriso” é assim o tributo à biodiversidade marinha, um património nacional que importa preservar e divulgar, ao mesmo tempo que se presta homenagem aos navegantes portugueses.

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Por isso, serão vários os elementos, no guarda roupa e acessórios, a remeter para anémonas luminosas, esponjas e estrelas-do-mar, corais e polvos, além de outras criaturas que tanto têm de estranhas como de fantásticas.

Sem querer levantar o véu, os “Fura Samba” vão apostar muito nos brilhos, nos prateados e dourados, nas transparências e nos tons luminescentes, próprios das profundezas do oceano. Em termos cromáticos, a dimensão carnavalesca sobressai através dos verdes, azuis e vermelhos. No materiais, destaque para as mais de 4 mil plumas, o acetato (inovação) e as cerca de 9 mil pedras e espelhos.

Neste momento, participantes e voluntários estão ocupados em construir os vários acessórios que compõe um conjunto base de corso carnavalesco: cabeça, gargantilha, soutien, cinto, ombreira, costeiro, braceletes e botas. Os fatos estão já em fase de finalização com a ajuda de costureiras profissionais.

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O carro alegórico encontra-se igualmente a ser montado. Seguirá a temática da magia marinha, levando a bordo nove figurantes. Novidade, adianta Nicolau, será a presença de uma grávida de sete meses de gestação no topo da estrutura. Uma presença simbólica do início e da beleza da vida.

E como será então a apresentação dos “Fura Samba”, na noite de 25 de fevereiro, ao longo da Praça do Mar?

Para já a participação de Paula Lovisca, bailarina sueca que terá papel de destaque numa das alas. A abrir, estará Roby Gaspar, o chamado “puxador” de samba, com a função de animar toda a trupe e espetadores. Segue a comissão da frente com a porta bandeira (Jana Pereira) e mestre sala (Rafael Teles). Surgem então as baianas, a ala 1, o destaque do carro alegórico e o próprio carro alegórico. A finalizar, a bateria, com o mestre Miguel Correia, e as alas do turismo e tradição, representando os corais.

“Mistério da vida” será a música que acompanhará o desempenho dos “Fura Samba” ao longo do percurso pela baixa citadina. Trata-se de um samba enredo, da autoria dos Império da Ilha.

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Apesar do trabalho e desafios que os atuais parâmetros impõem, desde a contabilidade organizada à garantia de qualidade e gestão criteriosa, Nicolau garante que o Carnaval da Madeira é um cartaz consolidado. “Nota-se uma grande evolução em todos os grupos, tanto nos materiais como na coreografia e representação. Hoje, há também uma maior abertura e interatividade com o público. Veja o caso da participação dos turistas. Fomos os pioneiros e agora todos os grupos integram estes convidados. Temos turistas que marcam de ano para ano, o que demonstra a importância deste evento no sector turístico”.

Em termos de investimento, Nicolau aponta para os 34 mil euros, 28 mil assegurados por via de apoio oficial, através de contrato com a Secretaria Regional da Economia, Turismo e Cultura. As despesas remanescentes são suportadas pelos associados e pelos participantes que assumem os custos dos fatos.

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Se o profissionalismo alcançado trouxe vantagens em termos de retornos culturais e económicos, Nicolau Pereira recorda com alguma saudade os primeiros tempos de carolice do cortejo de Carnaval. “Havia maior camaradagem. Nessa altura, o Carnaval era quase a continuação do Natal. Hoje é mais profissional, ganhou-se em qualidade, mas acho que se perdeu em alguma magia”, sublinha, suspirando ainda pelo antigo percurso Savoy-Largo do Município. “Em termos de impacto visual, nada se comparava à descida da Avenida do Infante. Para mim, continua a ser o melhor trajeto, embora o atual seja também muito bom”.

Os “Fura Samba” desfilam no domingo seguinte, 26 de fevereiro, em Porto Moniz, cumprindo uma tradição com 15 anos. Na segunda, haverá espetáculo, às 21h00, na Avenida Arriaga. O grupo volta  a desfilar no Casino, na terça feira de Carnaval, pelas 21h30, com transmissão na RTP-M.

Recorde-se que a época de Carnaval 2017 decorre na Madeira entre 22 de fevereiro e 1 de março, com animação diversa na baixa do Funchal. O grande Cortejo Alegórico será no sábado, dia 25 de fevereiro, e o Cortejo Trapalhão a 28 de fevereiro, terça feira de Carnaval.