![]()
Num dia como o de hoje, 1 de Janeiro de 2017, qualquer que fosse o tema que eu escolhesse para servir de mote a este meu escrito constituiria uma boa decisão, – não sendo verdade, fica sempre a sensação, nestas ocasiões, de que se está a começar do zero -, e, portanto, pelo menos sob esse ponto de vista, tinha, e tenho, a tarefa simplificada; só não é tanto assim por se me afigurar que este novo ano vai ter outras exigências, outros desafios, outras incertezas, outras incongruências, outras irresponsabilidades, outros egoísmos, outras ostentações, outras bebedeiras de poder. Não falo do nosso País, não, falo do mundo e de tudo o que, de mal e de menos mal ele trará até nós, ignorando as consequências e a eventualmente dramática dimensão do irremediável a que se estará sujeito, empurrando-nos para tudo o que queríamos evitar e que tem constituído estímulo para o nosso pensamento, preocupação e labor: sermos parte de um mundo de paz e em paz, socialmente atento, economicamente justo, humanamente tolerante, reconhecidamente esforçado na construção de uma sociedade decente, atenta aos valores maiores que a devem alicerçar e consolidar.
Ninguém está isento de dar o seu contributo, a sua disponibilidade, o seu empenhamento, a esta ciclópica, mas indispensável tarefa de recuperação dos valores em que se pode fundar o mundo mais harmonioso por que se não desistiu de pugnar. O novo ano, 2017 será, por isso, o ano de reabraçar causas nobres, de mobilizar novos entusiasmos, de espevitar antigas mas honrosas convicções, de reforçar a capacidade crítica e, last but not least, de não aceitar, como pretende quem manda, para que possa mandar mais, tudo o que, de forma sub-reptícia, mas impertinente e potencialmente totalitária, pretende impingir com as notícias que vende, com os comentários que vende, com as ideias que vende, com as inevitabilidades que vende, com os futuros que vende, com os fatalismos que vende.
Tenho vindo, em algumas ocasiões, neste como em outros espaços, a manifestar inconformismo pela forma arrogante e impositiva, com que a comunicação social faz informação (?). Desde a construção das notícias e da escolha dos mais impressivos títulos, das manchetes e das chamadas de primeira página, sem olhar a meios, passando pela paginação e pelos alinhamentos escolhidos, até ao comentário das ditas notícias, feito por convite e segundo critérios mais do que discutíveis, basta estar atento, e não tem de ser muito, para se confirmar que, nos jornais, nas televisões, nas rádios, não se faz informação, faz-se militância, procuram-se apoiantes, tenta-se engrossar a corrente, atira-se contra as pessoas a ideia que interessa, (que lhes interessa), a eles, aos donos da informação, tenta-se a sedução, ensaia-se a demonização, devassa-se a vida dos cidadãos, julga-se da sua honradez ou da falta dela como se de alguma prerrogativa especial dispusessem para o efeito, culpa-se, acusa-se, denigre-se, escolhe-se o lado de que querem estar, (o deles e dos seus interesses, obviamente), propagandeiam-se os actores da sua afeição, releva-se-lhes a ideia, exaltam-se-lhes as virtudes, homenageia-se a sua visão programática, aplaude-se o seu alinhamento cúmplice com os amigos proveitosos.
Esta é a comunicação social que, – com variantes embora, algumas dignas de louvor, para os profissionais e para a sua acção -, por cá e por esse mundo fora se exibe tem ajudado na tarefa de zurzir a democracia, desacreditá-la, torná-la irrelevante, suspeita, dispensável. O mundo livre da informação livre parece querer aproveitar essa circunstância para que o deixe de ser e aos cidadãos, incumbe, no entanto, e apesar disso, a obrigação de contribuir para que isso se não concretize. Entre outras, e relevantes, nos tempos que se avizinham, sugere-se também essa causa, – porque de causa se trata: emprestar a dignidade, a inteligência, a vontade, a convicção e a coragem ao combate pela democracia, pela liberdade, pela verdade.
Na relação do jornalista com o cidadão a reivindicação maior é a verdade; sem condimentos, sem adversativas, sem justificações, sem enredos, sem nada que possa alterar, por subjectividade inerente, o essencial da notícia e do facto que lhe deu origem. Cabe ao leitor a interpretação.
Na tradição da imprensa anglo-saxónica impunha-se ao jornalista que, enquanto escrevesse nessa qualidade, “não existisse” como pessoa para que pudesse estar garantida, face aos leitores, a indispensável imparcialidade e neutralidade. Como subscrevo esta imposição!
Enquanto cidadãos, é a notícia que se pretende e não a opinião, mesmo que dissimulada, do jornalista que a dá; a sua interpretação, essa, fá-la-á quem quiser e nos termos em que o quiser fazer. Exactamente o contrário, como é confirmável, do que se vai tendo de suportar…
Os jornalistas estão, assim, reflectindo nestes termos, privados de opinião? – Claro que não; mas impõe-se uma clara e identificável fronteira que separe a notícia desse direito inalienável à opinião, para que as regras se cumpram e a isenção se exalte.
Repare-se, exemplificando, em que se traduz a sedução e a venda de uma ideia (ou de muitas), de um projecto, de um objectivo: o jornalista escreve e edita, nos termos já descritos, uma dada notícia correspondente a um facto – o conceito de facto tem de ser, aqui, entendido em termos hábeis – ocorrido, portanto, impregnada da sua visão sobre o sucedido; na dúvida, pode o leitor não ter entendido o “alcance”, apesar do esforço, e, assim convida-se um comentador, normalmente, também, jornalista, que faça a interpretação pretendida e “ajude” o cidadão a perceber o que todos eles querem que o cidadão perceba e não esteja disponível para uma outra qualquer interpretação que eles entendam como perversa; se a isto se acrescentar o “espectáculo” do uníssono do comentário, da falta de contraditório, da ausência de pluralismo, de inexistência de critérios para os convites formulados aos comentadores, – o critério único é a garantia de que o convidado dirá o que se quer que ele diga -, e fica completo o quadro de uma informação tendenciosa, parcial, comprometida.
Cumprida esta sequência, a notícia fez militância e não, como seria desejável, informação.
Reagir a esta forma de despotismo, é assumir uma causa, é querer ser livre, é exigir ser livre.
Bom Ano de 2017!
Nota:
O autor deste texto, por vontade própria, escreve de acordo com a antiga ortografia.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




