A cultura é uma necessidade que nos enche de uma enorme satisfação. Torna-nos em seres mais felizes e sonhadores. Assim, oxalá que o novo ano de 2017 seja mais um bom momento para dinamizar, ainda mais, e melhor, a ação cultural na nossa Região, para que todos possam crescer pessoalmente, socialmente e culturalmente.
O passado ano 2016 foi, também, marcante pela positiva no nosso país em termos culturais, a começar – quer se goste ou não – com o regresso do Ministério da Cultura; pois um país sem esta instituição máxima da cultura é um país mais pobre e sem uma verdadeira perspetiva de futuro que aposte na importância da cultura para a construção da identidade nacional. É de realçar ainda as distinções de património cultural imaterial da humanidade atribuídas pela UNESCO em 2016 ao “Cante Alentejano”, à manufatura de chocalhos, ao processo de manufatura da olaria preta de Bisalhães, bem como, à arte da falcoaria portuguesa. Na Madeira, segundo o Secretário Regional da Economia, Turismo e Cultura, o ano de 2016 foi bastante positivo em termos culturais, e desejou que o novo ano seja profícuo no aproximar ainda mais a população às diversas iniciativas e espaços culturais. Que assim seja. Mas gostaria de ver, a envolvência e apoio aos artistas e projetos regionais de uma forma mais abrangente e equilibrada. Julgo que seria aceitável e compreensível, apoiar, seriamente, pequenos projetos artísticos e culturais que acontecem muito próximo das populações, um pouco por toda a Ilha da Madeira e Porto Santo.
A Madeira tem algumas, interessantes, infraestruturas culturais – Centro Cultural John dos Passos; Centro das Artes-Casa das Mudas na Calheta; Centro Cívico do Estreito; Fórum de Machico; Teatro Municipal Baltazar Dias; Centro Cultural e de Congressos do Porto Santo – com palcos, equipados com algumas condições técnicas, que devem ser bem aproveitadas para termos uma permanente dinamização cultural em prol da sociedade madeirense e visitante. Desta forma estaremos a promover e a divulgar o que de melhor se produz em matéria de arte e cultura, que deve ser acompanhada – sem medo – de uma crítica séria, enquadrada e competente. A divulgação da cultura deve ser sempre uma prioridade dos governos, das autarquias, dos agentes culturais, enfim, de toda a comunidade.
Cada cidadão deve ter contacto com a atividade artística contemporânea, independentemente da formação sociocultural de cada um. Cada pessoa deve procurar praticar ou mesmo usufruir das muitas manifestações de caracter artístico que acontecem anualmente na nossa terra.
E em 2017, teremos certamente diversos momentos para festejar a cultura, como o facto de Lisboa ser a Capital Ibero-Americana da Cultura. Regionalmente, a continuidade, – assim espera-se –, de eventos culturais que têm deixado uma marca profunda junto da população, como o Festival Aqui Acolá; o Amo-TEatro, o Festival de Órgão da Madeira, o Funchal Jazz, a Semana das Artes, Feira do Livro do Funchal, entre outros tantos eventos. E porque não incluir iniciativas de cariz religioso, como o fenómeno das missas do parto, contando com o seu lado profano, que tem crescido nos últimos anos, de uma forma até exibicionista. Até já se ouve falar em candidaturas das missas do parto a Património Cultural Imaterial da Humanidade, embora ache que as autoridades eclesiásticas deverão ter aqui uma palavra de grande importância. Sem quer ofender ninguém, é caso para dizer: cada macaco no seu galho. Nas palavras do reverendo padre Manuel Ramos, durante a homilia da última missa do parto, na paróquia de Santa Rita, há por vezes um certo exagero de vaidade em participar nas missas do parto, valorizando-se mais o convívio após a missa e deixando-se a fé para um segundo plano. Por falar em religião, até o poeta e dramaturgo T.S. Eliot (1888-1965) considerava “… a religião como a base da cultura de um povo.”
A cultura do nosso tempo, está “verdadeiramente” mergulhada na globalização, fruto também do avanço atrevido das novas tecnologias de informação e comunicação. Daí, termos que saber adaptar-se aos novos tempos, mas sem empurrar a cultura tradicional para a prateleira do esquecimento. É preocupante como algumas tradições se extinguem, sem haver uma efetiva preocupação de salvaguarda das mesmas. Há que manter as boas tradições que alentam as comunidades, a economia e o turismo. E assim, não teremos que, mais tarde lamentar a sua extinção ou a dificuldade em as fazer renascer.
Felizmente, fruto do trabalho ativo dos agentes culturais, dos museus, das associações culturais, dos eventos artístico-culturais, apercebemo-nos que, “… a arte gera cada vez mais diferenciados “públicos”, constituindo o turismo cultural um dos setores da economia que mais cresce nos nossos dias, para além do impacto económico gerado pela produção artística. Pereira, J. C. (2016, p. 19).“
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2015, houve mais portugueses a trabalhar no setor cultural e criativo. Assim, espera-se que este crescimento continue forte em 2017. Ainda segundo o INE, “no panorama autárquico nacional, as despesas em atividades culturais e criativas representaram apenas 5,5 no orçamento de 2015.
O Alentejo, Região Autónoma dos Açores e Centro foram as regiões onde as autarquias dedicaram uma maior fatia do orçamento para a Cultura. A Região Autónoma da Madeira foi a que destinou menos verbas do orçamento para as atividades culturais.”
Que 2017 seja um ano de valorização da cultura e da arte contemporânea, de todos e para todos, embora, saibamos que, muitas vezes, a execução cultural, é feita, simplesmente, segundo as opções pessoais dos decisores políticos, o que não deveria ser. “Seja como for, pela sua dimensão identitária, relacional, histórica e patrimonial, a arte contemporânea merece um lugar verdadeiramente importante na agenda política, assim como nas práticas intersubjetivas de uma sociedade plural, democrática e livre.” Pereira, J. C. (2016, p. 19).
Todos os municípios devem procurar a valorização da arte e da cultura para os seus munícipes, com a realização de iniciativas pontuais, sobretudo, no campo das artes do espetáculo e na área do património cultural. Infelizmente, há Câmaras Municipais que valorizam muito pouco a utilidade da prática artística e cultural junto das populações. O pouco que fazem é trazer para as suas comunidades eventos já concebidos. Mas não podemos evoluir, culturalmente, apostando essencialmente na cultura vinda de fora.
No entanto, há municípios que, felizmente, têm melhorado a sua visão cultural, se tivermos em conta, os seguintes dados revelados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE): “As autarquias gastaram no ano de 2015 mais 38,8 milhões de euros em atividades culturais e criativas do que em 2014, num total de 392,2 milhões de euros.”
Todos têm o direito a viverem numa sociedade cuja cultura seja uma prioridade. Pois a cultura é algo que se deve valorizar e praticar como algo essencial para o desenvolvimento integral das pessoas. Incentivar a importância da criação e produção artística nas comunidades é dar valor às pessoas, à cultura, à criatividade, ao desenvolvimento sustentável. Uma comunidade afirma-se com o seu envolvimento na cultura. É com a importância e a relevância dada ao setor cultural que se vê, verdadeiramente, a integração e dinâmica das comunidades. A cultura deve ser um lugar de conhecimento sabiamente inserido na comunidade.
Então, que se ofereça em 2017 muita cultura, desde um livro, um DVD, um CD, um ingresso para um determinado espetáculo, porque o poder transformador da cultura e das práticas artísticas contemporâneas, são valores da sociedade que torna-nos mais humanos, criativos e sociais.
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