
O Francisco é um dos seis seminaristas que frequentam hoje o Colégio Missionário do Sagrado Coração. O desafio que lhe tem sido feito é de que se apaixone cada vez mais por Jesus e pelos seus valores numa caminhada de espiritualidade, de formação e de consolidação dos princípios humanistas. Entraram oito jovens no ano passado e permanecem hoje seis. Daqui, todos esperam que saia um sacerdote ou um missionário ou um bom pai… O futuro o dirá.
Como é do domínio público, as vocações sacerdotais são cada vez mais necessárias, até porque os sacredotes vão envelhecendo e é preciso novos pastores. A Igreja bate sempre neste ponto, lembrando as palavras de Cristo: a messe é grande e os servidores poucos. Acontece que os valores hedonistas da sociedade atual aliados a alguma desinformação e também a uma dinâmica que deveria ser ainda mais atrativa por parte da Igreja foram demovendo as dezenas e dezenas de jovens que habitualmente frequentavam o seminário, num passado não muito remoto. Tudo isto somado também ao facto de as famílias terem outros recursos financeiros para educarem os filhos, sem ter de os mandar para o seminário, como antes se verificava, ainda que melhores recursos não signifiquem sempre melhores valores familiares.

Com os seus 16 anos de idade, o Francisco abraçou este projeto com os traços que lhe são característicos desde pequeno: alegria, disponibilidade e um coração sempre pronto a servir. As críticas ou rótulos que ouve, por vezes, serem feitos aos seminaristas e respetivos padres que os orientam atribui à “ignorância das pessoas”. Contrapõe, como solução, que “vivam essa experiência por uns tempos e tirem depois as suas próprias conclusões”.
O Francisco não sabe se um dia será padre, missionário ou pai. O que sabe é que, desde os 10 anos de idade, 5.º ano de escolaridade, habituou-se a fazer uma espécie de “pré-seminário”, a passar alguns fins de semana no Colégio dos Dehonianos, no número 9 do Caminho do Monte. E foi gostando dos mestres, dizendo mesmo que “aqui se vive como numa família”. Simultaneamente era estudante e escoteiro e também colaborava com as atividades da sua paróquia.

O espaço, que outrora acolheu centenas de jovens e uma vasta população de religiosos e leigos, está hoje reduzido a uma pequena comunidade. Sinal dos tempos e das modas que o acompanham. De vez em quando, o Colégio enche-se com o convívio anual dos antigos alunos ou com algum evento de relevo.
Filho de uma professora e de um polícia madeirenses, o Francisco foi gostando da experiência de seminarista, sobretudo, “da alegria que se vive neste seminário, do sentido de entreajuda entre colegas e dos orientadores, das atividades formativas que são ministradas”. As saudades de casa são preenchidas ao telemóvel ou preferencialmente nos regressos a casa, no fim de semana. “O tempo passa depressa”, explica o Francisco, visivelmente satisfeito pela opção tomada.

Ter um filho num seminário como este implica alguns custos, conforme o rendimento das respetivas famílias. Mas também é verdade que nenhum jovem que queira ser seminarista fica de fora por não ter condições para pagar o valor mínimo fixado. Todos são acolhidos de boa vontade.
Os Dehonianos costumam passar pelas escolas da Região que ensinam a disciplina de educação moral e religiosa e fazem as suas ações de sensibilização para uma experiência no seminário. Tudo começa com esta abordagem e desafio, a mesma que convenceu o Francisco e demais colegas a tentarem a experiência.

Terminado o ensino básico, 9.º ano, havia que optar: o seminário já em regime de internato durante a semana, com as aulas do ensino secundário na vizinha APEL e fins de semana em casa. Abraçou, juntamente com mais 7 colegas, este desafio e não se arrepende. Terá custado, inicialmente, mais a separação aos pais do que ao próprio Francisco. Os telemóveis, impensáveis em anos longínquos de rigidez seminarista, aproximam os jovens dos pais, deixando-os descansados.
Dos oito jovens, um foi expulso e outro desistiu voluntariamente. Nada mais há a dizer. A caminhada tem estes contratempos mas o caminho é sempre em frente. “O clima entre colegas é muito bom e de grande alegria”, conta com entusiasmo.

Com 16 anos de idade, a rotina diária do Francisco, em tempo de aulas, é normal: acorda às 07h00, arruma a cama – quartos com três camas individuais para os seminaristas – , faz uma oração na capela, toma o pequeno almoço e trata da higiene pessoal. Depois, caminhada a pé até à APEL para as aulas do 10.º ano de escolaridade. Foi assim até junho de 2016. Consoante o horário das aulas, o regresso a casa, a realização das atividades e estudo, muitas vezes com a orientação essencial dos padres. Neste aspeto, Francisco destaca o contributo do seu orientador espiritual, Roberto Viana Soares, “um amigo e uma boa pessoa”.
Os jovens não estão de modo algum em regime de clausura. Se precisarem ir ao Funchal tratar de algum assunto, tudo é conversado com os responsáveis do Colégio e ninguém deixa de fazer o que é necessário. Sempre com orientação e disciplina.
Engana-se também quem pensa que um seminarista vive 24 horas em oração. A oração tem um papel preponderante nos corações destes jovens – dado o percurso já efetuado – mas também há lugar à diversão, até porque a prática de atividades físicas, como jogar futebol, por exemplo, são obrigatórias. Francisco recorda-se do glorioso campeonato europeu de futebol e do quanto vibraram por Portugal, no Largo da Restauração, também com os seus orientadores. Depois, a festa e o regresso a “casa”, na paz do Senhor. Como toda a gente.

Terminado o ano letivo com sucesso, o passeio anual da comunidade ao Pico Ruivo. Uma experiência única de contacto com a natureza e de confraternização que não esquecem. Depois, as férias de verão em casa, e o reencontro diário com os familiares.
Às portas de mais um ano letivo, o 11.º ano, o Francisco e cinco colegas prosseguem a sua caminhada. Não sabe o que o futuro lhe reserva. “Sabemos que o objetivo principal da nossa presença aqui é formar bons homens. Daqui pode sair um padre, um missionário, um pai… tudo está em aberto”, conta-nos sem querer comprometer-se com o futuro, preferindo antes viver o momento. Sempre com aquele sorriso mágico e enternecedor, como é seu timbre.
Por fim, o contributo decisivo e inestimável da instituição que acolhe estes jovens e os forma para os valores cristãos, cada vez mais necessários numa sociedade marcada pela violência e o individualismo. Em poucas palavras se conta parte da sua história: O Colégio Missionário é um dos três seminários menores que os Sacerdotes do Coração de Jesus, Dehonianos, mantêm em Portugal. Fundado em 1947, tem formado, como é sua missão, dezenas de religiosos e sacerdotes – hoje espalhados por todo o país e pelas missões em que a Província Portuguesa SCJ está empenhada – e centenas de outros jovens que, tendo feito o seu discernimento vocacional, optaram pela vida cristã laical”.




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