Casal Mendonça lamenta problemas ambientais e degradação no Porto Santo

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Um casal com ampla experiência política, e que bem conhece o Porto Santo

Fotos: Rui Marote

José Góis Mendonça e Luísa Mendonça formam um casal com um considerável percurso político-partidário e presença em órgãos de poder local e legislativo. O antigo presidente da Câmara Municipal do Porto Santo e a sua esposa, que também já desempenhou funções de vice-presidência na autarquia e foi deputada à Assembleia Legislativa Regional, actual presidente da Assembleia Municipal, são residentes na ‘Ilha Dourada’ e conhecedores directos da sua realidade. O FN foi ouvi-los no âmbito das reportagens que está a realizar sobre esta ilha do arquipélago da Madeira e deu-lhes voz sobre os problemas que o Porto Santo atravessa neste momento, ao nível ambiental, económico e social.

Numa reportagem recente, abordámos a situação da praia, emagrecida relativamente a décadas passadas, na perspectiva de ambientalistas e geólogos, devido a um conjunto de causas. Embora muitas pessoas entendam que a praia funciona num ciclo auto-regenerador, ‘emagrecendo’ no Inverno e ‘engordando’ no Verão, a verdade é que isso demonstra ser cada vez mais deficitário: a praia tem vindo a diminuir em relação ao passado, e, em quatro décadas, é notória a diferença na amplitude da mesma. Tanto que já há cientistas e outras entidades que preconizam recargas nas zonas consideradas em estado mais deficitário.

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A grande riqueza da Ilha Dourada é o seu areal

Várias causas são apontadas para a diminuição da largura da praia, conforme referido em recente reportagem no FN, mas a mais polémica diz respeito à construção do porto de abrigo, que muitos entendem estar a prejudicar o abastecimento natural de areia à praia, através dos ventos e das correntes de leste, que esbarram contra aquele paredão.

Góis Mendonça comenta, a respeito, que, embora Portugal tenha um dos melhores laboratórios de engenharia civil da Europa, não tem a certeza de que tenham sido feitos os estudos adequados, no tempo necessário, antes da construção do porto no presente local.

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Um porto “feito à pressa” que interfere com a praia?

“Depois do 25 de Abril, surgiu logo uma série de reivindicações da Região, entre elas a construção do porto de abrigo do Porto Santo, uma das primeiras prioridades. A insistência foi grande, e, com alguma brevidade, desbloqueou-se essa situação e avançou-se para o projecto e sua construção”, dá conta.

O antigo edil lembra-se que se fizeram ouvir, na altura, vozes do povo a defender que aquele local não era o melhor para a criação do porto, que o mesmo ficaria melhor situado na zona do Porto dos Frades… mas “vozes populares ouve-se sempre”.

“Até se falou no ilhéu da Cal… houve quem achasse que se podia fazer um pontão da Calheta para lá… E até houve uma sugestão que, lembro-me, era boa para os americanos, porque implicaria imenso dinheiro… fazia-se um porto com dois cais, nos quais atracaria um navio consoante estivesse vento de norte ou de sul… Ouvem-se utopias. O dinheiro, é verdade, faz tudo…”.

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No centro, tudo parece calmo. Mas a situação sócio-económica não é fácil…

Mas, ironias à parte, o nosso interlocutor reconhece que, na altura, se discutiu a localização do porto, em cuja construção se empenharam também os governantes da República de então. “Falou-se, de facto”.

Recordando um militar, o coronel Pestana, filho do dr. Pestana Júnior, lembra-se que o mesmo apontava para o pontão do cais do Porto Santo, fronteiro à Vila Baleira, e considerava o engenheiro que o desenhou e construiu, nos anos 20 do século passado, como exemplo de homem inteligente, porque se trata de uma estrutura assente em pilares cilíndricos, que não bloqueia nem interfere com a circulação das ondas nem das areias. “Ele dava sempre isso como bom exemplo dos aspectos que têm de ser considerados pela construção de qualquer porto”, reforça Luísa Pestana.

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O porto de abrigo, de localização polémica

Góis Mendonça recorda que antes da construção do actual porto de abrigo, “tínhamos receio que a mesma fosse interferir na circulação das correntes”. E assume: “É óbvio que hoje vê-se que na verdade há essa interferência. Disso não há dúvidas. O que digo é a palavra de um leigo na matéria, mas observador. Já tenho idade para isso. Vi o porto surgir. Quem conhece esta frente de mar antes e depois do porto, nota diferenças. A zona do Penedo, que era praia de calhau, era rocha, atrás do porto… ali não havia areia. E a zona à frente do mesmo também não”. Luísa Mendonça concorda.

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Turistas de visita

“Neste momento, nunca falta areia acolá. É mesmo actualmente uma das zonas boas de praia, no Verão está sempre cheia. Alguma coisa aconteceu”, refere. Inferência natural: a areia não circula de Leste para Oeste como o fazia antes. Fica retida naquela área.

Os nossos interlocutores apontam também as mesmas razões que já foram apontadas na nossa reportagem anterior, por exemplo pelo engenheiro geólogo João Baptista, e que concorreram para o emagrecimento da praia: “Durante muitos anos, extraiu-se areia da praia para a construção civil. Por exemplo, na obra do hotel Novo Mundo, agora Hotel Vila Baleira. Na zona da Calheta, há ali quase uma cratera onde foi retirada muita areia. E também para outras obras. E chegou-se a exportar areia, a levar toneladas de areia do Porto Santo, em contentores, para campos de golfe”. Houve também desassoreamentos do porto que não resultaram na areia retirada a ser reposta de onde saiu, referem.

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Na pachorrenta tarde do Porto Santo, aproveitando o sol, um gato parece consultar o menu da Baiana…

Sobre a opinião de João Baptista, reflectida numa nossa reportagem anterior e que alguns porto-santenses, em reacção a tal trabalho, chegaram a comentar nas redes sociais considerando-a de algum modo alarmista, Góis Mendonça considera que o cientista “é das pessoas que melhor conhece esta frente de mar”.

A opinião é também partilhada por diversos porto-santenses com quem falámos. Para eles, a praia está de facto emagrecida em relação ao que já foi, apesar do seu processo de reabastecimento natural e cíclico em cada ano. E a localização do porto não foi a melhor escolhida. Mas, obviamente, nem todos são da mesma opinião. Uma coisa é, porém, comum a todos: a preocupação em preservar a praia da melhor forma possível. Sabem que é a grande riqueza da ilha.

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Golfe: uma mais valia, mas subaproveitado?

José Góis Mendonça critica ainda outro aspecto: “As chamadas ‘casas da lancha’, construídas em cima da duna, que hoje em dia são autênticos ‘chalets’, alguns dos quais alugados no Verão, e que são verdadeiros atentados ambientais. E não estou a ver ninguém com coragem de resolver. A actual secretária regional do Ambiente [Susana Prada] parece que quer mexer no assunto, mas não sei se a vão deixar actuar livremente”.

Luísa Mendonça recorda que abordou as ‘casas da praia’ no Parlamento regional, e que a reacção era de “puro gozo”. Ninguém levava a sério reivindicações ambientais do Porto Santo. Entre elas, a questão dos emissários submarinos que desaguam esgotos em certas zonas da praia.

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Os turistas italianos ainda favorecem o Porto Santo

A forma como se continua, aliás, a mexer na duna é notória. Na zona do chamado ‘bar do Henrique’, conforme várias pessoas nos chamaram a atenção, máquinas de construção civil empurraram as dunas de uma forma totalmente artificial, que aparentemente foi mandada parar pelas autoridades marítimas competentes. Tal já tinha, aliás, acontecido no ano passado. O intuito seria meramente arranjar a ‘paisagem’ de forma a melhor convir aos interesses comerciais. Mas muitos entendem que tudo o que é mexer na duna, configura um atentado ambiental, e que não devia ser permitido.

A praia, porém, não é o único problema ambiental do Porto Santo, apontam os nossos entrevistados. A zona dos Mornos, nas proximidades da Fonte da Areia, de onde se retirou areia para a construção em grande escala, é apontada como outra zona problemática, onde não foram respeitadas regras adequadas.

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Na realidade, o casal Mendonça considera que, se não se tivesse verificado o abrandamento da construção civil na ‘Ilha Dourada’ nos últimos seis ou sete anos, aquela zona teria sido muito mais afectada. São cicatrizes que ficam e que só se reflectirão em todas as suas consequências passadas dezenas de anos.

“Depois de se usar a areia da praia para a construção”, concorre Luísa Mendonça, “começou-se a usar os Mornos”.

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Zona da Fonte da Areia, agora fechada. Nas proximidades, a zona dos Mornos é também uma das que denota problemas ambientais

“Para hoje, já é preocupante… Amanhã, será mais grave”.

Luísa Mendonça recorda que durante muito tempo defendeu, na Assembleia Regional, a elaboração dum plano estratégico para o Porto Santo. Para desenhar um plano integrado de desenvolvido a curto, médio e longo prazo. Mas isso não avançou. Tal como não avançou um Plano de Ordenamento da Orla Costeira, que imporia disciplina ao tratamento da zona litoral. Chegou a ser feito e ia ser posto à discussão, mas abandonou-se.

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Na zona do Bar do Henrique, verifica-se uma estranha manipulação da duna

Para os Mendonça, o fenómeno do desemprego e da crise sócio-económica que hoje assola o Porto Santo está intimamente ligado com o facto de não ser ter feito um plano estratégico. A ilha continua sempre presa à mesma sazonalidade, porque “nunca foi assumido um fio condutor, ou porque não houve coragem, ou porque nunca lhes interessou”.

A população, pouco a pouco, vai-se tornando envelhecida. Em busca de oportunidades, os jovens vão-se embora.

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A areia foi acumulada e movimentada de forma artificial, deformando a duna

“Os alunos do Porto Santo que fizeram curso superior, só aqueles que são professores é que ficam, talvez… o resto, vai tudo embora”, assevera Luísa. “No mínimo, vão para a Madeira, mas muitos ficam no continente”.

Não faltaram, na Vila Baleira, lojas a fechar. “E as que ficaram abertas, é com muito esforço”, constata a antiga deputada. “A sazonalidade cada vez é maior. E mais curta. A estação alta, antes, era Julho, Agosto e Setembro… agora, e também porque os alunos entram em aulas mais cedo, é só Agosto”.

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“O desenvolvimento do Porto Santo foi feito casuísticamente e por impulsos, e em função de calendários eleitorais”, queixa-se José Góis Mendonça.

O facto de Miguel Albuquerque ter chamado a si a tutela directa dos assuntos do Porto Santo, reconhecendo a premência da sua resolução, tem gerado, diz, grande expectativa dos habitantes locais. “Para ver se é desta vez que vão olhar para o Porto Santo de uma forma diferente”.

Se houvesse um plano estratégico para o Porto Santo, defendem, nunca se teria construído  o campo de voleibol, que custou milhões e hoje está ao abandono [tal como já abordámos no FN em reportagens anteriores na sequência deste ciclo sobre o Porto Santo] naquele lugar. E também não teriam construído os bares das docas, em situação lamentável de degradação.

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Por outro lado, “investiu-se tanto no desporto no Porto Santo, no pavilhão desportivo… e está abandonado. Um pavilhão daqueles…”. Góis Mendonça revolta-se com o que considera terem sido más opções de desenvolvimento. “A praia foi, nos últimos vinte anos, abandonada. Deixou de ser o principal pólo de desenvolvimento do Porto Santo”.

Os tours operators só podem apostar no Porto Santo pela qualidade e diferença
Os tours operators só podem apostar no Porto Santo pela qualidade e diferença

Luísa Mendonça acrescenta: “Sabemos que no Inverno o mar traz levadia, e com ela lixo, detritos… Mas a seguir temos de ir lá logo recuperar aquilo, tem de ser recuperado”. A praia exige muitos cuidados, infraestruturas de apoio, balneários, duches, casas de banho, um cuidado muito atento aos problemas da praia…

O Porto Santo, entende Góis Mendonça, não consegue ser concorrencial num nicho de turismo porque é tão pequeno. A margem de negócio para os promotores turísticos é baixa. Para os operadores turísticos apostem na promoção do Porto Santo, tem de haver uma diferenciação muito grande em relação a um estrato de clientela que busca certa qualidade, certo sossego, porque se sente bem acolá. “Se for mais uma praia igual às outras, mais um destino igual aos outros, onde há lixeira, onde há abandono, não há hipótese”. Ora, hoje em dia, os moinhos não funcionam, as casas de salão desapareceram… “Se não há património, nem identificação cultural, não se consegue cativar a indústria turística, que vive, como todas as indústrias, do lucro”. Um bem é tanto mais precioso quanto mais escasso é, sublinha o antigo presidente da Câmara. E é nessa diferença, nessa qualidade, que o Porto Santo tem de apostar.

Escola secundária: em avançado estado de degradação
Escola secundária: em avançado estado de degradação

O nosso interlocutor quer acreditar que o actual Governo de Miguel Albuquerque fará a diferença. Mas falta tanto por resolver. A actual escola secundária está num estado de degradação avançado [também denunciado pelo Sindicato dos Professores da Madeira num outro artigo que escrevemos há dias].

“Há tanto tempo que andam a prometer uma escola nova”, faz notar o ex-autarca. E a mesma seria merecida, porque o Porto Santo tem-se destacado no aproveitamento escolar.