Responsável internacional de voleibol de praia lamenta situação do estádio do Porto Santo

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José Casanova constata o estado lastimoso do estádio do Porto Santo.

No prosseguimento de uma série de trabalhos sobre o Porto Santo, publicámos ontem um trabalho no qual denunciávamos e demonstrávamos através de fotografias o estado de grande degradação e de investimentos falhados de várias infraestruturas naquela ilha, entre as quais o campo de voleibol de praia, a fábrica de biocombustível das algas, a pista de karting e o complexo de bares nocturnos do Penedo do Sono.

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O estádio de volei de praia do Porto Santo ao abandono e degradação. Foto Rui Marote

Hoje, a propósito da primeira dessas estruturas, registamos a opinião de José Casanova, arquitecto, ex-árbitro internacional de voleibol, ex-jogador e ex-treinador, e membro da Comissão de Arbitragem da Federação Internacional de Voleibol, com a tutela do volei de praia. José Casanova foi organizador e director de prova de vários torneios realizados no Porto Santo, alguns dos quais trouxeram à ‘Ilha Dourada’ os melhores jogadores do mundo. E, quanto ao estado lamentável do actual estádio de voleibol, é peremptório: a ideia até podia ser positiva, mas não foi correctamente planeada, não teve em linha de conta a sustentabilidade futura, face à realidade do Porto Santo.

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Foto Rui Marote

Grandes infraestruturas como esta para voleibol de praia são, em si mesmas, contra-natura: esta modalidade é descontraída, lúdica, relacionada com a vivência divertida no areal. Um grande produto desportivo em termos de infraestrutura dá outra grandeza ao espectáculo, e terá motivado este investimento que ultrapassou os dois milhões de euros, mas foi mal calculado. Conforme explica, a localização periférica foi, antes de mais, um óbice à presença de público: ninguém que está na praia de férias vai dela sair às cinco da tarde – altura em que o sol não está a pino e que é mais adequada para a realização de jogos de volei de praia – para se deslocar até à zona do Penedo do Sono. Isso acabou, em seu entender, por colocar aquele estádio numa espécie de ghetto.

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“O voleibol de praia, seja na sua vertente lúdica seja na sua vertente espectáculo, nasceu no Porto Santo como em todas as demais praias – sejam as da Califórnia, Rio de Janeiro, Espinho, Caparica, etc.: no areal. Era lá que as pessoas passavam o seu dia, era lá que faziam uma perninha a dar uns toques com amigos, ou era lá que, sem qualquer necessidade de promoção e no meio das suas actividades lúdicas do dia-a-dia, tinha o privilégio de assistir a espectáculos organizados”, referiu José Casanova ao Funchal Notícias.

“No caso específico do Porto Santo”, recorda, “realizámos durante mais de uma década torneios em locais variados do seu extenso areal, que se afirmaram como um momento marcante do período estival (…) Com infraestruturas amovíveis que foram crescendo em tamanho e qualidade –  na proporção directa da fama que o evento ia granjeando – o prazeroso e atractivo advinha dos banhistas anónimos ou dos apaniguados que religiosamente reservavam uns dias de férias para ir ver voleibol de praia de alta qualidade ao Porto Santo, e que nos seus passeios matinais ao longo do magnífico areal se inteiravam junto de nós a que horas se jogava, e quem jogava, mais tarde nesse mesmo dia. Esse sempre foi o segredo do sucesso”, salienta.

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Estrutura para os Jogos Olímpicos de Londres

José Casanova explica que os eventos de voleibol de praia apresentam, no que à sua organização oficial diz respeito, sob a tutela da Federação Internacional, duas vertentes distintas, ambas de grande sucesso. São por norma infraestruturas temporárias e amovíveis, e o princípio é – enquadrar-se em locais icónicos – seja em pleno areal de praias famosas (tais como Copacabana no Rio; Bundi Beach em Sidney; Phuket na Tailândia, etc.), seja em locais icónicos de uma cidade (tais como New York’s Central Park; Champs de Mars, junto à Torre Eiffel em Paris; Horse Guards Parade em Londres; o exclusivo ‘mountain resort’ de Gstaad, etc.

José Casanova refere-nos que conhece várias infraestruturas de raiz como a do estádio do Porto Santo. E o resultado, explica-nos, foi tão lamentável como o que ali se verificou. É o caso, por exemplo, de Atlanta e Atenas.

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Campeonato do Mundo 2015 em Haia

Ambas as estrututuras de volei de praia nestas cidades foram construídas com objectivos bem mais ambiciosos do que seria possível para a ilha nossa vizinha, nomeadamente para o torneio de voleibol de praia dos respectivos Jogos Olímpicos, de 1996, e 2004. “Todas estão em estado de degradação idêntico”.

Para o nosso interlocutor, a única forma de rentabilizar uma estrutura deste tipo é através de actividade regular, mormente enquadrando clubes locais ou criando um centro de treino que atraia turismo de desporto. “Claro que um alívio na crise económica também poderia proporcionar um devolver de actividades de espectáculo ao Porto Santo”, admite, “o que, não sendo suficiente, ajudaria na reabilitação da infraestrutura”. Se é que a mesma ainda pode ser reabilitada, sem importar em custos proibitivos.

José Casanova é, todavia, mais realista e terra-a-terra na sua avaliação: para haver espectadores para o volei de praia, o mesmo tem de estar em zonas centrais, no meio dos banhistas. Cometeu-se com o voleibol o mesmo ‘pecado’ que com os bares: foram enfiados numa zona fora de mão. A coisa até poderia ter resultado. Mas não resultou. E o custo do investimento chegou a níveis brutais. Hoje é o que se vê.