O que é que um tablet terá a ver com o riscado garrido da saia da “vilhoa” ou o tecido de chita florido com um telemóvel? À primeira vista nada, mas nos trabalhos que saem das mãos de duas artesãs madeirenses ganham um novo significado, provando que tradição e funcionalidade não são obrigatoriamente mundos opostos.
Pelo contrário, reinventar o artesanato trazendo-o para a esfera do quotidiano, através de materiais e técnicas tradicionais, é um conceito que tem ajudado a desmitificar preconceitos e a criar novos nichos de mercado, ao mesmo tempo que se preserva um património cultural único. Uma história que o FN encontrou esta manhã, na placa central da Avenida Arriaga, aberta ao sol quente de inverno, contada a duas vozes e bordada também com as linhas do coração.
Quando em 2010 decidiram avançar com a marca “Com os olhos em bico”, Helena Grácio e Susana Homem Costa procuravam apenas dar corpo a uma paixão que ambas partilhavam, o artesanato.
Sabiam de antemão que entravam num campo nada favorável em termos de sustentabilidade de negócio. O artesanato sofria ainda do estigma associado à falta de criatividade, qualidade duvidosa e utilidade anacrónica. Havia muito preconceito sobretudo da parte dos próprios madeirenses, acostumados a remeter os artesãos para um universo meramente folclórico.

Passados cinco anos, o trabalho evoluiu nas abordagens e as mentalidades dos consumidores um pouco também. Há um maior respeito e apreço pela matriz tradicional que se encontra em cada chaveiro, sacola, estojo, malas de senhora, cintos ou porta-garrafas.
O tecido regional, o algodão, a pele, o bordado manual e o patchwork marcam pela identidade própria os acessórios da modernidade e as peças de vestuário para criança. As peças comercializadas pela dupla “Com os olhos em bico” ganharam clientes além fronteiras e reconhecimento através do selo de marca registada da Madeira.
Apesar da crítica favorável e da consolidação do produto em termos de garantia de qualidade e inovação, o negócio atravessa desafios comuns a tantas outras empresas. O preconceito em relação ao artesanato esbateu-se, mas a crise económica volta a afastar a clientela. As artesãs esperam por dias mais coloridos nas vendas.
De cariz fortemente artesanal, os trabalhos de Susana e Helena são únicos e, como tal, não têm balcão formal. São comercializados em feiras – Mercarte, quinzenalmente, no Jardim Municipal – e através das redes sociais.
Durante esta quadra, poderão ser apreciados na feira de Natal que decorre na placa central da Avenida Arriaga. Uma oportunidade para conhecer, in loco, com que linhas se cose a criatividade e a tradição.
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