Ary dos Santos faria hoje 78 anos de idade

ary(* Com João Abel Torres) / Ary dos Santos faria hoje 78 anos se não tivesse morrido precocemente: “Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia/Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria….”

O FN presta hoje homenagem ao grande poeta português. Nada melhor que evocar os seus versos para perpetuar a sua memória.

Estrela da Tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia

Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia

Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.

Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia

Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia

E na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria

Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia

Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.

 

Meu amor, meu amor

Minha estrela da tarde

Que o luar te amanheça

E o meu corpo te guarde.

Meu amor, meu amor

Eu não tenho a certeza

Se tu és a alegria

Ou se és a tristeza.

Meu amor, meu amor

Eu não tenho a certeza!

 

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram

Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram

Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram

E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram

Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam

Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram

E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.

 

 

Meu amor, meu amor

Minha estrela da tarde

Que o luar te amanheça

E o meu corpo te guarde.

Meu amor, meu amor

Eu não tenho a certeza

Se tu és a alegria

Ou se és a tristeza.

Meu amor, meu amor

Eu não tenho a certeza!

 

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto

É por ti que adormeço e acordado recordo no canto

Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto

Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

 

(Ary dos Santos, in ‘As Palavras das Cantigas’)

 

 


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