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Centenas de corpos estão a ser sepultados sem identificação após os terremotos devastadores de 24 de junho, numa decisão anunciada a 6 de julho que não revela apenas uma resposta de emergência, mas um colapso total. Não apenas de infraestruturas, mas de Estado.
Em La Guaira, o principal porto do país deixou de servir os vivos para acomodar os mortos. Onde antes circulavam mercadorias, alinham-se agora sacos mortuários sob o sol impiedoso, caixões empilhados como números e não como pessoas. A paisagem não é apenas caótica — é desumanizada. Quilómetros de veículos funerários improvisados denunciam um sistema que já não responde, apenas reage.
O problema já não é só logístico. É estrutural. Sem câmaras frigoríficas operacionais, os corpos degradam-se rapidamente no calor tropical, apagando em horas aquilo que poderia levar anos a reconstruir: identidades, causas, histórias. A decomposição não destrói apenas matéria — destrói provas, memória e justiça.
A tragédia agravou-se com a morte de quase toda a liderança local de La Guaira, soterrada nos próprios edifícios que deveriam sustentar a cidade. O vazio de comando transformou a gestão da crise num exercício de sobrevivência, onde decisões extremas se tornam rotina.
O argumento oficial fala em “necessidade sanitária”. E é. Mas é também uma rendição. Cada corpo enterrado sem nome representa mais do que uma medida de contenção — é a formalização do esquecimento. Famílias inteiras ficam suspensas entre a perda e a incerteza, privadas não só do adeus, mas da confirmação.
A Venezuela não está apenas a contar mortos. Está a perdê-los duas vezes: primeiro na tragédia, depois na impossibilidade de os identificar.
E quando um país deixa de conseguir dar nome aos seus mortos, o colapso já não é circunstancial — é absoluto.
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