Como as nações homenageiam os seus heróis…

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Rui Marote em Yerevan, Arménia

Há coisas destas: estou em Yerevan, na Arménia, e a pensar e a escrever sobre a Madeira… Com o corpo aqui e a mente na ilha. Visitei dois monumentos consagrados à exaltação da Mãe Pátria: um em Kiev, Ucrânia, que é realmente soberbo, e outro em Yerevan, onde me encontro. Estes países sabem homenagear os seus heróis, honra lhes seja feita.

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Visitando estes memoriais, o meu pensamento acabou por focar-se na mata da Nazaré, em São Martinho. Longe de mim fazer comparações, mas tão somente recordar como surgiu o monumento da autoria de Ricardo Veloza, dedicado aos nossos combatentes.

Em finais dos anos 70, a Associação de Comandos, reunida na Rua 5 de Outubro, resolveu encomendar uma escultura, angariando fundos através da venda de uma medalha comemorativa e de donativos.

A escultura foi feita, mas ficou encaixotada no Funchal, armazenada numa loja junto ao ex-campo de futebol de Santa Cruz, propriedade da edilidade, uma vez que o presidente era dirigente da Associação.

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Ali permaneceu durante dois anos, sem haver dinheiro para a sua colocação. A Câmara, entretanto, necessitou de libertar o armazém para outros fins, e depositou a escultura na ribeira onde hoje está situado o Aquapark, junto a um casebre de apoio aos cantoneiros.

Encontrava-se ao serviço do Jornal da Madeira nos anos 80 quando fui alertado para o facto de que a escultura jazia no local supracitado.

Verifiquei que o monumento se encontrava espalhado entre os arbustos, muito bem camuflado pelas ervas. A reportagem feita veio alertar o coronel Morna, que recolheu as peças que por milagre não tinham desaparecido. Foi constituída uma nova comissão, sob a batuta do coronel, que se reunia nas instalações da Cruz Vermelha, com o intuito de arranjar um local para ser instalado o monumento.

O escultor Veloza foi chamado para desenhar uma base para o monumento, ficando decidido que ficaria instalado na mata da Nazaré, uma vez que tinha o RIF nas imediações e a vigilância da Polícia do Exército.

Mais uma vez sem o factor cifrão, repetiu-se a venda das medalhas comemorativas. O coronel Morna fez diligências junto das construtoras, para executarem as obras a título de doação, o que não foi tarefa fácil.

As obras avançaram a ritmo de caracol. Quando a construção estava de pé, acabou por servir, durante uns tempos, o nada nobre propósito de WC e “sala de chuto” dos drogados.

A inauguração acabou por fazer-se com a presença do então ministro da Defesa Paulo Portas, que acabava de ver aprovado o subsídio aos militares que tinham estado em zonas de guerra no Ultramar.

A intenção foi boa, e na altura polémica, mas acabou por cifrar-se em esmola: esse subsídio anual ronda os 78 euros anuais, cerca de seis euros mensais, sujeitos a IRS. É assim que Portugal homenageia os seus heróis.

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Escondido na mata da Nazaré, o monumento passa despercebido da maioria dos madeirenses e só serve para que, uma vez por ano, uma associação de antigos combatentes faça uma cerimónia.

O local escolhido foi um erro: julgamos que o Pico de São Martinho ou o Pico dos Barcelos seriam locais mais apropriados, sendo o último visitado diariamente por centenas de turistas.

Continuo a pensar em coisas pequenas. Longe de mim pensar que desejaria para a Madeira algo parecido com o que tenho visto por estas paragens. Mas não há dúvida de que, mesmo nas terras com dimensões como a da Madeira, seria possível a Nação melhor expressar o seu reconhecimento para com aqueles que combateram, e por vezes sacrificaram a juventude, para defender os interesses da mesma.