Concerto de Mariza no Funchal podia ter sido gratuito

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A Câmara Municipal do Funchal podia ter oferecido o recente concerto da fadista Mariza à população madeirense. Pelo menos, é o que podemos facilmente inferir do conteúdo de documentos a que tivemos acesso. Nomeadamente, o contrato de fornecimento (prestação de serviços) estabelecido entre o Município da Batalha (local do famoso mosteiro do mesmo nome) e a empresa ‘Taberna da Música’, empresa que representa os interesses da aclamada intérprete de fado.

Mariza foi a protagonista do concerto de encerramento das Festas da Batalha 2015, o qual decorreu a 16 de Agosto no campo de futebol António Gomes Vieira, naquela localidade, a partir das 22 horas.

O espectáculo teve a duração de 75 minutos. Ao mesmo assistiram, segundo números divulgados pela autarquia, cerca de doze mil pessoas, que encheram por completo o recinto.

O contrato para o concerto de Mariza foi adjudicado pelo Município da Batalha, por ajuste directo à supracitada empresa, pelo valor global de 35 mil euros, acrescidos de IVA.

No Funchal, o concerto de Mariza, que se realizou no Parque de Santa Catarina, foi explorado pela produtora ‘Homens do Ar’, que cobrou 15 euros por um lugar em pé, e 25 euros por um lugar sentado. A afluência de público foi muita, mas as queixas também, já que, conforme o Funchal Notícias referiu na altura, a passagem foi franqueada a muitos ilustres da nossa praça para os lugares da frente, mesmo chegando às 22 horas, ou seja, meia hora atrasados para a hora marcada – 21h30. Já o povo que pagou os lugares em pé, que ficou na retaguarda e que representava o triplo dos que ocupavam os lugares sentados, teve mesmo de esperar para ver a cantora, já que esta só se apresentou em palco mesmo às… 22 horas. O que, naturalmente, gerou insatisfação. Entretanto, já a voz de Mariza se ouvia e ainda a fila de gente para entrar circundava o parque.

Mais tarde descobrir-se-ia que a autarquia funchalense pagara 30 mil euros por bilhetes do concerto, para oferecer a convidados seus. Aspecto denunciado pelo CDS-PP, cujo vereador, José Manuel Rodrigues, protestou aliás na reunião de Câmara do dia anterior ao do concerto.

Ou seja: a Câmara Municipal do Funchal cedeu gratuitamente o Parque de Santa Catarina à produtora do concerto, produtora essa que lucrou significativamente com o mesmo; a CMF ofereceu ainda 30 mil euros em bilhetes a quem bem entendeu; e nem mesmo com esse ‘investimento’ os madeirense puderam desfrutar de um concerto gratuito.

Em entrevista recente com o edil, antes do concerto, questionámo-lo sobre o porquê de o evento não ser gratuito e confrontámo-lo com as críticas dos cidadãos: respondeu-nos que dificilmente poderia ser grátis, e que os cidadãos compreendiam a situação. Invocou, aliás, os tempos de contenção económica, e afirmou que a CMF estava a pautar a sua actuação pelo “rigor e transparência” na gestão das contas da autarquia.

Vê-se agora, pelo montante pago à empresa ‘Taberna da Música’ para a realização recente de um concerto no âmbito das Festas da Batalha, que se a Câmara queria pagar 30 mil euros pelo concerto, então bem podia ter pago apenas um pouco mais e… oferecia o concerto à população. Deste modo, quem beneficiou foi apenas a empresa ‘Homens do Ar’ e os ‘amigos’ da autarquia, que receberam bilhetes grátis.

Acresce o facto de a empresa ter beneficiado gratuitamente do Parque de Santa Catarina, jardim que tem sido sujeito a intensa pressão de públicos ao longo do Verão, gerando críticas do ecologista Raimundo Quintal.

A CMF deu portanto o espaço de graça, ainda pagou 30 mil euros, e os munícipes tiveram de pagar, e caro, para entrar.