Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal Festa do Voto de S. Tiago

 †António Carrilho, Bispo do Funchal
†António Carrilho, Bispo do Funchal

Igreja de Santa Maria Maior, 1 de Maio de 2015
Tiago, protetor e mestre de santidade

 “Aproximai-vos de Deus e Ele aproximar-se-á de Vós” (Tg 4,8). Estas palavras da Carta de São Tiago Menor, Apóstolo, enchem o nosso coração de esperança e são convite a aproximarmo-nos do Senhor, na certeza de que Ele não nos esquece, caminha sempre connosco e nos concede poderosos intercessores.

De acordo com a tradição multisecular do dia 1 de Maio, nesta Diocese e Cidade do Funchal, fizemos há pouco a chamada “Procissão do Voto” a São Tiago Menor e celebramos, agora, a Eucaristia Solene, em honra daquele que veneramos como Padroeiro.

Fazemo-lo aqui, na igreja de Santa Maria Maior, erguida no lugar da antiga capela dedicada a São Tiago: aqui nos dirigimos a ele, Padroeiro principal da Diocese e protector da cidade, aqui podemos recordar também a protecção da Virgem Santa Maria, invocada como Senhora do Monte, a quem a História da fé do povo madeirense também nos confiou, colocando a cidade sob o seu Patrocínio, desde a aluvião de 1803, conforme celebramos, todos os anos, no dia 9 de Outubro.

Em nome da Cidade e dando, hoje, aqui, cumprimento ao voto feito pelos nossos antepassados, sucessivamente em 1521 e 1523, e renovado com mais vigor em 1538, está a Câmara Municipal com o seu Presidente e Vereadores, numa afirmação de solidariedade histórica e de comunhão com a alma cristã da maioria da nossa gente.

 

O Voto a São Tiago

Como se processou a escolha do Padroeiro São Tiago e de que voto se tratou, de modo a justificar-se esta tradição de quase quinhentos anos, cujo cumprimento ainda hoje assumimos? – Há que fazer memória e recordar a história, para que a tradição não perca o seu sentido, tornando-se mera formalidade, e possa continuar a transmitir-se de pais para filhos, com o conteúdo de fé que vem das origens.

No “auto do voto”, lavrado solenemente na Catedral, narra-se a escolha do padroeiro: foi escolhido à sorte, enquanto a cidade sofria uma grave epidemia de peste. Colocaram num barrete os nomes de Jesus, da Virgem Maria Nossa Senhora, de São João Baptista e dos doze Apóstolos, e um menino de sete anos, chamado João, retirou um dos papéis, depois de todos se colocarem de joelhos em oração e prometerem fazer uma casa em honra daquele santo que por sorte saísse. Quis Deus que fosse São Tiago Menor. Logo foi festejado por toda a cidade e, em Julho desse ano, começou a construção da Capela do Voto, indo a cidade e os cónegos em procissão solene com o retábulo do Bem-Aventurado Apóstolo.

Na renovação do voto, em 1523, na Catedral, diante do capitão Donatário, o Senado de então com seus vereadores, diversas entidades oficiais, todo o cabido e muito povo tomaram, juntos, o compromisso solene de em cada ano venerarem e festejarem São Tiago, com uma especial solenidade.

Por sua vez, no dia da procissão, em 1538, estando a peste a vitimar muita gente, o Guarda-mor da Saúde gritou em alta voz: “Senhor, até aqui guardei esta Cidade como pude; não posso mais, aqui tendes a vara, sede Vós o Guarda da Saúde.” E largou imediatamente a vara, num gesto de entrega e de confiança nas mãos de Deus. E a peste desapareceu.

São Tiago é para todos protector e modelo de santidade; como mestre, continua a exortar-nos à confiança e ao abandono nas mãos de Deus em tudo o que fazemos, pronunciando sempre as palavras: «Se o Senhor quiser»(Tg 4, 15). Ele ensina-nos a planificar a nossa vida, dando espaço à vontade de Deus, que sabe qual é o verdadeiro bem para nós.

A fé e as obras

«De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras?… A Fé sem obras está completamente morta» (Tg 2, 14.17). Escolhido pessoalmente por Jesus, São Tiago, “filho de Alfeu”, escreveu uma das mais conhecidas Cartas, insistindo muito sobre a necessidade de não reduzir a fé a palavras ou mero sentimento, mas de a expressar em obras de bem. São Tiago mostra-nos um cristianismo muito concreto e prático, convidando-nos à compreensão de que os verdadeiros valores da vida não consistem nas riquezas transitórias, mas antes em saber compartilhar os próprios bens, espirituais e materiais, com os mais necessitados.

A fé deve expressar-se na vida, sobretudo no amor ao próximo, no compromisso da caridade, como ouvimos no Evangelho: «Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei» (Jo 15, 12). Esta é a nossa vocação: fomos criados como seres sociais e, como filhos de Deus e irmãos uns dos outros, só no amor a Deus e ao próximo encontramos a nossa própria realização.

Lembrando, hoje, o testemunho de fé daqueles que nos precederam, perguntamo-nos: – Poderá a fé contribuir para a construção da “cidade”, duma nova sociedade? Sem dúvida. A fé será certamente o maior contributo da Igreja e de todos os cristãos nesta construção! É a nossa relação com Cristo, o acreditar e confiar n’Ele e na Sua mensagem, que inspira uma nova maneira de viver, em todos os campos da nossa vida pessoal e social. A fé não isola o cristão, não o separa da cidade. É na cidade que ele é chamado a testemunhar a esperança e a alegria do encontro com o Senhor que muda o coração e a vida de cada um. Ninguém pode abandonar a cidade: é nela, no concreto da vida, que se pode expressar a nossa fé.

 

Promotores da justiça e da caridade

Como  nos lembra o Concílio Vaticano II, “A mensagem cristã não afasta os homens da tarefa de construir o mundo, nem os leva a desinteressar-se da sorte dos seus semelhantes: impõe-lhes, ao contrário, uma obrigação ainda maior” (Gaudium et spes, 34).  Ao mesmo tempo que lança uma luz nova sobre todas as realidades, a fé oferece-nos  também a força para responder à nossa  vocação e a esperança que nos inspira a trabalhar por uma sociedade cada vez mais justa e fraterna. Qualquer sistema de organização e de governo da sociedade só poderá florescer se as pessoas se deixarem conduzir pela verdade e pela sabedoria, que assentam em princípios éticos fundamentais.

Sem conversão, sem encontro com Cristo na escuta atenta do Evangelho da Esperança não haverá frutos de caridade e de justiça. A fé impele o cristão a promover a justiça, a participar na construção da sociedade, a comprometer-se em acções e instituições de defesa dos direitos humanos, nomeadamente nos domínios da família e da vida, do trabalho e da economia, da educação e da saúde. É que a condição cristã envolve uma vocação pública, a exercer como proposta de humanização da sociedade.

A fé expressa-se nos valores que vivemos e defendemos. Manifestada no espírito de fraternidade, na abertura para o diálogo com todos os homens de boa vontade, na solidariedade e comunhão na luta pelo bem comum, a fé presta um contributo grande para o progresso da cidade, para a construção de uma sociedade mais fraterna, mais digna e mais humana. Viver a fé, construindo a cidade é, assim,  o compromisso exigido a um cristão de fé viva e esclarecida, para dar à sociedade um rosto mais humano, tomando como referência o rosto humano de Jesus Cristo.

Memória de São José Operário

Neste dia 1 de Maio, a Igreja universal faz memória de São José Operário. Alerta a nossa atenção e traz às nossas intenções o mundo do trabalho e dos trabalhadores, nas suas potencialidades e nos seus problemas, para que o trabalho seja, efectivamente, uma forma de realização humana e de serviço à comunidade, colaboração na transformação do mundo, participação na obra criadora de Deus. Que haja cada vez melhores condições que respeitem a dignidade e os direitos humanos, nas diversas áreas da actividade dos homens e das mulheres!

Recordo os trabalhadores da nossa terra e de todo o mundo, particularmente os que vivem sem as condições mínimas, os que vivem em regime de trabalho precário, os desempregados, os que sofreram acidentes de trabalho e ficaram diminuídos nas suas capacidades; enfim, todos os que carecem de perspectivas para o trabalho que realizam ou procuram, de ânimo e coragem para vencerem as lutas e dificuldades da vida.

Expresso a minha alegria por estar convosco, aqui nesta festa do Padroeiro São Tiago, e dirijo a Deus a minha súplica, para que os católicos da nossa Diocese, vivendo e testemunhando a sua fé, sejam hoje, como ao longo dos 500 anos da sua história evangelizadora, promotores da alegria e da esperança, da caridade e da justiça, da prosperidade e da paz. Que São Tiago proteja e abençoe a nossa cidade!

Funchal, 01 de Maio de 2015
† António Carrilho, Bispo do Funchal