De ‘Mata-Hari’ a governante…

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foto Rui Marote

Mostrou-se uma rebelde perante Alberto João Jardim, o então inflexível líder do partido, e sublinhou com actos e palavras a sua lealdade para com Miguel Albuquerque. Foi literalmente ‘posta a andar’ da Comissão Política do PSD, onde não se coibiu de discordar do pensamento único, e prosseguiu a sua carreira profissional como adjunta de Fernando Santos, o director do Estabelecimento Prisional do Funchal. Depois dessa breve travessia do deserto, regressou em beleza: aquela que foi alcunhada por Jardim de ‘Mata Hari’ da Câmara Municipal do Funchal na Comissão Política, numa alusão à célebre espia da 1ª Guerra Mundial, é agora a nova secretária regional da Inclusão e Assuntos Sociais. Nada mal para quem foi, com Humberto Vasconcelos, um dos enjeitados do jardinismo mais recente. Tanto um como outro agora terão razões para rir.

Rubina Leal não se deve demorar, porém, nesses considerandos. É conhecida como uma mulher de trabalho e não lhe faltará, certamente, o que fazer na área que passa a tutelar. Isso é uma certeza. São muitas e conhecidas as situações de enormes dificuldades a que se torna necessário acudir, e a nova secretária deverá estar já ciente do drama que representa a forma como a crise se repercutiu duplamente nos madeirenses, à conta de muito desvario financeiro.

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Bruno Pereira, que com ela trabalhou na Câmara Municipal do Funchal, acredita que é a pessoa indicada para o lugar: “É uma pessoa com um sentido muito pragmático e operacional. Trabalha há muitos anos nas áreas sociais, quer por formação académica quer por opções de carreira quer profissional quer política. E, dentro dessas áreas sociais, é de um grande pragmatismo. Com ela passei por situações muito difíceis, como foi o caso do [temporal do] 20 de Fevereiro [de 2010], em que se verificou um drama social, falta de habitação, necessidade de pôr muitos serviços a funcionar… e a dra. Rubina Leal é realmente uma pessoa de uma entrega muito grande, de uma grande capacidade de trabalho”.

Por causa do que viu e do que conhece, afirma ter certeza de que as mesmas qualidades que evidenciou enquanto vereadora das áreas sociais, nomeadamente a Habitação, na CMF, porá agora ao serviço “desta maior empreitada que é a secretaria regional da Inclusão e dos Assuntos Sociais”.

Empenho, dedicação e outras qualidades são predicados que lhe reconhece para poder “fazer um excelente trabalho nos próximos quatro anos”.

A Protecção Civil deverá ficar sob a tutela de Rubina Leal, e Bruno Pereira apoia essa circunstância, porque entende que há uma necessária interligação entre a capacidade de acorrer a situações de crise ou catástrofe e a gestão dos Assuntos Sociais. Por outro lado, regista com interesse, na orgânica, também a decisão de fazer com que as Casas do Povo fiquem sob a tutela da Secretaria a que Rubina Leal presidirá: “Significa que a maior prioridade que será dada às Casas do Povo não será tanto, como no passado [quando as Casas do Povo estiveram sempre ligadas à Agricultura] na área do planeamento rural ou mesmo da formação, mas também no importante papel que essas instituições têm na área social, no apoio aos mais carenciados, de resolução de situações mais problemáticas”.

foto retirada do blog 'Fénix do Atlântico'
foto retirada do blog ‘Fénix do Atlântico’

A preparação enquanto vereadora da Câmara Municipal do Funchal será, acredita Bruno Pereira, importante para a tarefa que se avizinha. Mas não são só as qualidades pragmáticas que lhe elogia: a abertura e facilidade de relacionamento são também sublinhadas, não só por este nosso interlocutor, mas por outros que preferiram permanecer no anonimato. “É uma pessoa muito humana”, dizem.

“Na CMF, os nossos gabinetes eram lado a lado… e muitas vezes ela refugiava-se, digamos assim, no meu gabinete, porque era de tal maneira grande a dificuldade, o drama dos casos que presenciava, que tinha que vir um pouco conversar… E isto demonstra um grande humanismo. As pessoas que estão nestes cargos, por mais que tenham que ter um certo distanciamento, se começam a ficar insensíveis aos casos que lhes aparecem pela frente, também é mau. E a Rubina nunca mostrou qualquer tipo de insensibilidade”. Por vezes, afirma, reflectia era alguma frustração e sentimento de impotência por não conseguir acudir a tudo.

A própria admitiu ao Funchal Notícias já ter deparado com problemas graves que “chegam a dentro”.

“Sou uma pessoa emotiva: eu solto uma gargalhada com a mesma facilidade com que solto uma lágrima. E obviamente que há vidas que são complicadas. Eu comecei a trabalhar nessa área, com pessoas que tinham problemas, eram os presos, as pessoas que estavam privadas de liberdade… Aprendi aí a ter a noção de algumas coisas, desde nova, com 22 anos, quando comecei a trabalhar nessa área. Os presos eram pessoas, além disso, às quais estavam associadas várias problemáticas, que não eram exclusivamente a delinquência – como pobreza, alcoolismo, toxicodependência, famílias desestruturadas… Aí aprendi a respeitar as pessoas, a aceitar as diferenças, a acreditar que existe sempre um lado positivo dentro das pessoas”, recorda.

Foi uma realidade, a das problemáticas sociais, que viria a encontrar novamente mais tarde, quando foi vereadora da CMF. “Havia muitas pessoas que iam à audiência numa tentativa de resolução dos seus problemas”.

Para a nova secretária regional, há que articular convenientemente a parte racional e a emocional para poder avaliar correctamente as situações para ter a atitude mais adequada. E isso define um pouco um equilíbrio que procura alcançar.

Das funções que até hoje desempenhou, destaca realmente a de vereadora. Trabalhar numa autarquia, realça, é “fascinante”, porque se mantém um contacto directo com as populações, porque se criam projectos e programas, e se executam os mesmos.

“Gostei muito, mesmo, de trabalhar na CMF”, afirma. “Foi aliciante. É muito positivo quando conseguimos desenvolver um projecto, atingir os nossos objectivos, ver concretizadas metas que definimos”. Fê-lo em várias áreas, como a educação, habitação, mas também nos mercados, na fiscalização, que estabelecia uma interligação entre o público e o privado.

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foto Rui Marote

Rubina Leal desempenhou funções no âmbito da Reinserção, como chefe de gabnete do Ministro da República para a Madeira, depois como vereadora, depois regressou ao Estabelecimento Prisional como adjunta do director… deu formação ao longo dos tempos, algo que foi estruturante para si, nas áreas das relações humanas e da comunicação.

“Eu aprendi a ser assertiva olhando nos outros, e corrigindo algumas coisas, sem ser agressiva. Aprendi isso. A assertividade é de facto uma coisa que temos de treinar: não é fácil ser assertivo”.

De um ponto de vista mais pessoal, admite que o trabalho lhe dá felicidade. “Gosto de trabalhar e de resolver coisas, gosto de me empenhar nos meus projectos. Não me imaginaria sem trabalhar”. Para além disso, nos tempos livres, adora conviver com a família e os amigos. “E tratar de mim, que é importante. Temos de tratar de nós próprios, e é isso que faço quando tenho tempo”, confessa.

É vaidosa?, questionamos. “Q.b., q.b.!”, responde. “Não sou muito, poderia ser um pouco mais!”

Rubina Leal é licenciada em Sociologia, pós-graduada em Protecção de Menores. Ingressou em 1989 na Reinserção Social, onde foi coordenadora responsável pela equipa da RS na Madeira; foi durante vários anos formadora nas áreas de Relações Humanas e Comunicação; em 2001 tornou-se chefe de gabinete do então Ministro da República, Monteiro Diniz; a partir de 2005 foi vereadora da CMF, responsável pelos pelouros da Educação, Habitação, Acção Social, Fiscalização Municipal, Venda Ambulante e Mercados, e após tais funções foi para adjunta do director do EPF, para a área de tratamento prisional e cuidados de saúde. Fez um curso intensivo de Defesa Nacional, e tem um curso de construção de competências, pelo Rockefeller Center, dos EUA.