O homem a quem Jardim pagou um café na primeira tomada de posse

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Fotos Rui Marote.

António João de Sousa Macedo Reis. É este o nome do funcionário mais antigo da Asseembleia Legislativa da Madeira (ALM) que hoje arranca para a XI Legislatura.

Em conversa com o Funchal Notícias, António Macedo contou o seu percurso profissional desde que, a 13 de Setembro de 1976, assumiu funções no parlamento regional.

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Na altura, conta, como “tarefeiro”, aliás tal como os outros sete funcionários que “faziam de tudo um pouco” no primeiro parlamento regional após o 25 de Abril e a instituição da Autonomia Político-Administrativa. Começou por ganhar cerca de 6 contos por mês.

SONY DSCRecorda-se da azáfama que foi, no salão nobre do edifício do Governo Regional, hoje ocupado pela Vice-presidência do Governo Regional, a primeira sessão plenária. Nos primeiros anos os plenários eram contínuos e “iam pela noite dentro”.

O primeiro presidente da Assembleia que serviu foi Emanuel Rodrigues. Depois seguiram-se Nélio Mendonça e Miguel Mendonça. A partir de segunda-feira passará a servir o 4.º presidente da era democrática, Tranquada Gomes.

Secretários-gerais da Assembleia foram cinco: Conceição Rebelo; Rui Adriano; António Adriano; José Manuel Oliveira; e António Paulo. Sem contar com um período em que os vice-presidentes da Assembleia era, por inerência de funções, secretários-gerais.

SONY DSCRecorda-se particularmente do período em que a Assembleia se mudou do edifício da antiga Junta-Geral para o actual edifício da antiga Alfândega do Funchal. Era secretário-geral Rui Adriano.

António Macedo é hoje chefe de departamento. Aliás, já em 2000/2001 era Chefe de Departamento Financeiro. Ao longo dos últimos anos tem pertencido aos júris de recrutamento de novos quadros parlamentares. Já foi tarefeiro, operador de reprografia, passou pela carreira administrativa (oficial de 3.a, 2.a, 1.a), chefe de secção e chefe de departamento.

Tem 61 anos e só conta reformar-se no limite da idade.

Dos episódios que mais o marcaram na história da Assembleia Legislativa da Madeira recorda-se de três. Um foi a 18 de Abril de 1977. Nesse dia, “era ainda presidente do Governo o Eng. Ornelas Camacho”, aconteceu o episódio dos trabalhadores da Hotelaria que quiseram invadir as instalações da Assembleia, na Avenida Zarco.

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O acontecimento de que António Macedo bem se recorda. Foto Achas na Autonomia.

Nessa época, as manifestações e contra-manifestações abundavam no Funchal. Cerca de mil trabalhadores da hotelaria protestaram frente à antiga Junta Geral depois de um episódio na sede do Sindicato. Face à ideia de que os manifestantes congeminavam invadir as instalações da Assembleia, a polícia entra em cena protagonizando, à bastonada, uma das mais violentas cargas policiais na Madeira no pós-25 de Abril.

O outro episódio que se recorda prende-se com a tomada de posse de Alberto João Jardim, pela primeira vez, a 17 de Março de 1978.

Nesse dia, antes ou depois da posse, ele, Jardim e Carlos Machado vieram calmamente do salão nobre da Assembleia até ao Golden Gate. Tomaram café os três juntos. E a conta foi paga por Jardim.

SONY DSCO terceiro episódio tem a ver com a transferência das instalações da Assembleia para o actual edifício. Foi a 3 de Dezembro de 1987. “Foi um ano trabalhoso mas gratificante… até fui pai nesse ano”, disse.

Foi nesse ano que se levantou a polémica do desaparecimento das pratas que foram requisitadas ao Museu das Cruzes para a inauguração da nova Assembleia e que desapareceram. Guardadas entre os dias 3 e 6 de Dezembro de 1987, entre o percurso do antigo para o novo Parlamento, as valiosas peças em prata desapareceram.

O MP abriu um inquérito por “furto qualificado”, a PJ investigou mas, até hoje, nem com a ajuda da Interpol ou da Europol, foi possível recuperar as peças e identificar o ou os autores do furto.

António Macedo Reis recorda-se do episódio mas garante nada ter a ver com ele. Aliás, em abono da sua conduta imaculada, orgulha-se de nunca sequer ter sido ouvido pela PJ por este episódio.

Relativamente aos inúmeros deputados que já passaram pela Assembleia desde 1977 sempre se deu bem com todos eles, da esquerda à direita. Alguns já morreram, casos de Paulo Martins e do arquitecto Conceição, deputados da “velha guarda”. Muitos deles que, cruzando-se na rua, cumprimentam com respeito.

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Os primeiros funcionários da Assembleia. No centro João Cunha e Silva. Foto de António Macedo Reis.