A virulência do mal não é uma inevitabilidade

Imagem retirada da página do facebook da Ajuda Alimentar Cães
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Ana Maria Bijóias Mendonça

Se perguntarmos aos seres humanos o que esperam da vida, a maioria responderá “ser feliz”. A felicidade é uma “emoção básica caracterizada por um estado emocional positivo, com sentimentos de bem-estar e de prazer…” (Ferraz et al., 2007:1). A sua procura tem sido, progressivamente legitimada, particularmente nas nações livres e democráticas e enquanto meta universal, está ligada aos Objetivos do Milénio para 2015.

Ainda assim, uma questão impõe-se: quem tem realmente direito à felicidade? E, se a prezamos, porque insistimos em disseminar o mal, a perfídia, o caos? O Mal, conceito basilar da Filosofia, mas também da Moral, da Política e da Religião, é tanto decorrência das nossas ações como das nossas omissões.

Diga-se o que se disser, o Mal é uma característica exclusivamente humana. Às outras espécies falta a aptidão para o logro e a mentira de modo consciente e gratuito. Quando recorrem a estes expedientes, fazem-no por questões de alimentação, de marcação de território ou de necessidade de defesa. Observando o legado de personagens tirânicas como Calígula, Hitler ou Pol Pot, veremos todo o mal e perfídia que um só indivíduo pode encerrar….e os resultados devastadores.

O egoísmo é antónimo direto da felicidade, e talvez por isso se afirme que ninguém é feliz sozinho. No entanto, afastamo-nos dos nossos semelhantes e vivemos de um modo autista, como se fôssemos a única espécie, ou a mais importante sobre o Planeta, apesar de as descobertas científicas nos dizerem o contrário; dizem-nos que os seres humanos são, evolutivamente, uma espécie muito recente. Além disso, estima-se que o seu ADN e o dos seus parentes primatas (grandes símios) se assemelhe em mais de 90%. A pequena fração restante permitiu-nos humanizar o mundo e criar Civilização.

Pensando que, em termos perspetiváveis, somos apenas os habitantes de uma ilha perdida no Atlântico, porção de um país, integrando um continente, que é parte de um planeta, que compõe o sistema solar, peça de uma galáxia entre milhares de milhões de outras galáxias do Universo, compreendemos que o nosso alcance é, na verdade, ínfimo. Mesmo assim, estragamos e destruímos até o que dizemos prezar, por ignorância, por desconhecimento, ou por pura crueldade, criando muito sofrimento desnecessário. O mal espalha-se como um vírus, de modo mimético, mas o bem também tem essa capacidade…

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Saberemos que na Madeira, têm sido, anualmente mortos, em média, cerca de 1800 cães, a maioria dos quais, saudável? No ano passado, o número desceu porque foram menos os animais recolhidos, uma vez que as várias Associações de Proteção Animal os intercetaram antes. Estes cães já foram animais de companhia de alguém, que a certa altura decidiu “deitá-los fora”, como se faz a um objeto, ou porque já não são “pequeninos e fofinhos”, ou porque têm algum problema de saúde, ou simplesmente, porque se cansaram deles.

Saberemos, também, que estas mortes são perpetradas por uma denominada “Sociedade Protetora”, gestora do Canil Municipal Vasco Gil, que recebe muitos milhares de euros por ano da Câmara Municipal do Funchal, supostamente para fazer o contrário, sem que haja fiscalização efetiva?

Financiam-se os abates enquanto as Associações e os particulares que tentam salvar os animais sem qualquer ajuda ou comparticipação camarária, conseguem o “milagre” de não matar, mas sim tratar, esterilizar e dar para adoção. O que é uma “Sociedade Protetora” que não protege e que, sadicamente, aniquila os que tem sob sua alçada, os que já foram preteridos e estão numa situação muito débil?
Como me disse em tom de desabafo mal contido um veterinário dessa “Sociedade Protetora”, irónica mas corretamente situada na Rua do Matadouro: “Estes animais não são prioridade”. Há muito tempo, há tempo de mais que sabemos que não o são. São-no antes, os que visitam a clínica veterinária aí incluída, com os respetivos donos, que têm dinheiro para pagar os cuidados e os tratamentos. Uns, duplamente beneficiados (com donos e cuidados), os outros, duplamente negligenciados.

Será que quem ordena os abates já assistiu efetivamente a algum, ou só manda fazer? E, tendo assistido, como apazigua essa coisa remotamente análoga a uma consciência? Tentando convencer-se que não pode ser de outra maneira, mesmo quando os demais fazem de modo diferente e nunca seguem por essa via?

Tem-se apregoado indiscriminadamente a causa animal, tornando-a tema de campanha eleitoral, mas à exceção da (excelente) iniciativa do Circo de Natal sem animais, quase tudo o resto está por fazer, não porque não se saiba como proceder (para isso, foram ouvidas as Associações e quem trabalha no terreno), mas porque parece não haver efetiva vontade política para tal, nem de onde seria mais óbvio que ela viesse…Porque há um partido que se diz veiculado às pessoas, aos animais e à natureza, mas que, vindo a degenerar em caricatura de si próprio, se associou a uma Coligação que mascara os problemas, em especial os já descritos, a troco do tão apelativo assento parlamentar.

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A receita é simples e conhecida: esterilizar para evitar o descontrolo populacional, promover a adoção ativa e responsável e punir os prevaricadores. É abominável a ideia, infelizmente disseminada, de que quem gosta de animais não gosta de pessoas. Inverta-se o raciocínio: a verdade é que quem mal trata, abandona e fere um animal, está a um passo de o fazer a um ser humano.
De que nos serve beneficiar dos avanços da ciência e da tecnologia do séc. XXI se continuamos a achar “normal” o que se passa à nossa volta? O que diz isto de nós, em termos civilizacionais? Adicionalmente, tanto a Etologia como a Psicologia Animal esclarecem que, contrariamente ao que se apregoou durante anos, os animais não humanos possuem cognição, emoções e memória, além de terem comportamentos sociais complexos, em especial, os mamíferos.
A sua utilidade para os seres humanos, se quisermos colocar as coisas assim, é visível em campos tão amplos como o trabalho, o entretenimento e a companhia. São ainda usados com muito sucesso na mediação terapêutica com crianças, doentes oncológicos e/ou depressivos e idosos. Recentemente, tem sido (justificadamente) questionada a utilização de animais para puro entretenimento, nomeadamente, através de atividades que os tornem cativos, lhes causem desconforto e/ou dor, como acontece com os zoos, os circos, as touradas e as lutas de cães.
Concomitantemente, torna-se cada vez mais urgente o reconhecimento do estatuto moral e legal do animal, uma vez que a Lei portuguesa é a este respeito ambivalente e contraditória, e porque a imperiosa e inevitável mudança de mentalidades assim o exige, não fosse a Madeira uma ilha turística para quem este “postal” de maus tratos e de abandonos é uma péssima promoção…