Abandono / negligência animal

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Cássia Mourão*

Eu, como médica veterinária, aprendi a ver o mundo do «abandono/negligência» animal pelo lado da luz. Perguntam-me como posso ver um lado bom em algo mau? Eu respondo que prefiro me focar nas pessoas que ajudam, que resgatam, que dão tudo o que têm e até o que não têm para ajudar um animal e não na pessoa que o abandonou. Isto porque, quem abandona não merece a nossa atenção, e muitas vezes quando nos deixamos atordoar com um sentimento de revolta pela negligência, pela precariedade, pelo desprezo com que alguns animais são tratados, acabamos por desperdiçar energia que podemos usar para arranjar soluções .

Sim, aparecem animais sem dono resgatados, num estado lastimável, muitos que até eu duvido da sua recuperação, mas aparecem carregados por mãos bondosas, que o tentaram ajudar.

Na clínica já tivemos animais jogados dentro de sacos para a varanda que recuperaram, já tivemos animais que tiveram de ser amputados por chegarem tarde demais, e até animais com larvas já a o decomporem vivos!!! Muitas (a maioria) das vezes o mau aspecto não reflete o prognóstico e em muitos casos um animal pode ser recuperado.Os animais amputados ou invisuais podem ter uma qualidade de vida satisfatória se atendermos as suas necessidades especiais.

Sim, as pessoas mentem descaradamente…chegam à consulta com animais que nós, enquanto clínicos, sabemos já terem a patologia há dias, semanas…Dizem que adoeceu ONTEM. Por vezes por ignorância , não percebem que quanto mais tarde trouxerem o animal, menos hipóteses terá de ficar bom e mais caro ficará o tratamento. Sim, as pessoas mentem descaradamente, mas prefiro me focar no fato delas trazem o animal, ainda que mais tarde que o desejado. Como clínica tento fazer o exercício de não julgar, o que nem sempre é fácil.

E ainda há os donos que preferem eutanasiar animais que podem ser tratados, só para não gastar dinheiro, sendo que essas pessoas até têm possibilidades de o tratar, mas apenas por que foram educadas a ver o preço e não o valor das coisas, decidem-se pela eutanásia. Nesses casos, como veterinária faço objeção de consciência e recuso-me.Estou no meu direito. Sou Pró-Vida!

Há pessoas que me emocionam, pois sei que deixam de ter certas coisas para tratar os seus animais.

O ser humano é imprevisível , mas se sabe odiar também pode aprender a amar.

Fico triste quando vejo tanto desperdício de tempo e energia com pessoas que não merecem, quando devíamos direcionar a nossa atenção de forma a levar informação para as pessoas que não a têm, ajudar a criar um papel legítimo do animal no seio da família como um ser que sente , sofre, e merece ser cuidado em todas as fases da sua vida. Para isso cabe a todos nós, que de alguma forma nos achamos «melhores» do que os que abandonam passar a mensagem de carinho, esperança e responsabilidade para com os nossos animais.

*Diretora clinica na AuQmia Clínica Veterinária