Na Quaresma o que é o jejum?

jose-luis-rodrigues-iconO jejum é uma das condições essenciais da Quaresma, os quarenta dias que preparam a festividade maior dos cristãos, a Páscoa. A Quarta feira de Cinzas sempre foi um dia de Jejum – lembro-me que na casa dos meus pais neste dia comíamos malassadas com café pela manhã, ao almoço comíamos couves com bacalhau e semelhas. A quantidade era reduzida porque neste dia o jejum não podia ser esquecido. Nas sextas feiras da Quaresma ninguém comia carnes e se as comessem por esquecimento estava obrigado a rezar três terços ou a ir à missa.

O jejum tinha uma função religiosa muito importante e funcionava como dinâmica de preparação para a grande festa da Páscoa. Não se sentia que fosse prejudicial à saúde deixar de comer um pouco menos e renunciar à carne nas ementas, que até servia muito bem porque o peixe aparecia como obrigação (obviamente, que falo de peixe comum, chicharros e cavalas, porque o peixe fino não havia no campo). Pelo contrário, muitos hoje defendem que esta tradição da Igreja se revestia de uma sabedoria impressionante, visto que servia para desintoxicar o organismo dos excessos em relação à alimentação.

Nos tempos que vivemos, fartos de tantos alimentos quase será um crime fazer jejum. Porém, os apelos ao jejum revestem-se de uma carga simbólica muito grande.

O jejum não pode ser apenas uma renúncia barata, isto é, não pode ser apenas uma forma de renúncia de carne para comer peixe. Por isso, penso que pouco servirá um jejum que renuncia à carne para comer lagosta ou outro prato de peixe muito mais caro do que um de carne. Neste sentido, o jejum não se limita apenas ao cumprimento de fórmulas exteriores, mas é antes uma atitude interior de vida que promove o bem em favor de todos.

Se o jejum se resume às atitudes puramente materiais ou materialistas não ganha sentido nenhum.

O jejum é essa condição de vida que nos deve fazer viver com moderação e com equilíbrio perante a fartura dos bens materiais que a sociedade nos apresenta com a política económica dos supermercados, dos centros comerciais e pela sedução cada vez mais agressiva da publicidade.

O jejum cristão é este caminho de renúncia perante as coisas sobre as quais não me deixo escravizar, mas que procuro ter com elas uma atitude muito consciente, porque as considero ao meu serviço. Assim sendo, o jejum torna-se um caminho, um modo de vida e uma atitude perante a realidade do mundo que nos rodeia. O jejum é uma forma de educação para a liberdade. O jejum é um modo de vida em marcha para alegria da festa. O jejum é uma atitude de vida que torna mais nobre e eficaz a minha reflexão sobre a nossa dimensão transcendente. O jejum é um caminho de amor próprio e de amor aos outros porque devo depois pensar que nada sou sem o valor da paz interior e da fraternidade.