Comunidade em festa: oitenta anos dos Carmelitas Descalços na Madeira

 

Nesta sexta feira, 6 de novembro, a Comunidade Carmelita no Funchal celebra os 80 anos da sua presença e atividade na Madeira. A chegada aconteceu a 4.11.1946 e a tomada de posse a 6.11.1946. Uma data histórica que os Carmelitas Descalços na Madeira vão celebrar, na Igreja do Carmo, um espaço de referência para muitos cristãos madeirenses que participam ativamente nas atividades desta comunidade que se tornou essencial na dinâmica católica pastoral da Região.

Hoje, aniversário da chegada à Madeira, e sexta, aniversário da posse, os Carmelitas fazem memória do seu percurso nesta Região, enaltecendo a história e louvando nas liturgias tão importantes acontecimentos.

O FN reproduz uma resenha histórica que nos foi feita chegar pelo sacerdote mais antigo da comunidade, Padre Manuel Dias, que vive e trabalha na Região há 33 anos, e é para muitos cristãos uma incontornável referência local dos Carmelitas.

“Desde os primórdios da Ilha da Madeira que os Carmelitas estiveram presentes na vida dos madeirenses, a todos colocando sobre proteção do Santo Escapulário de Nossa Senhora do Carmo. Aqui estiveram, pois, os religiosos Carmelitas e também as Irmãs. Depois, na sua ausência motivada pela Exclaustração forçada (Maio de 1834), aqui ficaram as Confrarias de Nossa Senhora do Carmo espalhadas pela Ilha, tal como ainda hoje se pode ver nos sinais da vivência da espiritualidade carmelitana em tantas igrejas paroquiais.

Depois da ausência, a saudade e o regresso

Decorria o ano de 1933, quando D. Manuel Pereira Ribeiro, ordinário diocesano, natural de Viana do Castelo e confrade da Ordem Secular Descalça iniciou os primeiros contactos com o Carmelo Teresiano para promover o regresso dos Carmelitas à Ilha; primeiramente escreveu o Prelado ao P. José Mañaricua, superior do convento carmelita  de Viana do Castelo e, no dia 16 de Julho de 1934, ao Geral do Ordem, a quem oferecia para uma fundação na sua diocese, a Igreja do Carmo do Funchal e a residência anexa que, antes da extinção das Ordens Religiosas havia pertencido à V.O.T. do Carmo Calçado e que fora agregada à Descalcez por rescrito da Casa Generalícia com data de 3.6.1922, executado por ordem do Senhor Bispo no dia 15 de Agosto do mesmo ano.

Por circunstâncias várias não se pôde condescender prontamente com os desejos do Prelado do Funchal; razão pela qual, somente no dia 7 de Janeiro de 1946 foi possível assinar o contrato da entrega do edifício em favor do Carmelo Teresiano; reza assim: «Havemos por bem aprovar o contrato firmado na data de 7 do corrente (Janeiro de 1946) entre a Confraria de Nossa Senhora do Carmo da cidade do Funchal e o Reverendo P. Provincial dos Carmelitas Descalços sobre a entrada dos Padres Carmelitas na Igreja e  dependências do Carmo».

Assim, no dia 11 do mesmo mês o Diretor da V.O.T. Reverendo P. Lopes convocou o Conselho da Ordem Terceira para ultimarem a vinda dos Carmelitas Descalços, e tratarem das despesas da sua acomodação, das passagens, e etc. Todos estiveram de acordo porque se entendia como muito bom para o zelo das almas, a expansão da Ordem e o aumento da devoção a Nossa do Monte do Carmo. E, assim, em colaboração da Confraria tornou-se realidade a presença dos Carmelitas Descalços na Ilha.

Realizados todos protocolos: autorização do Senhor Bispo (9 de Janeiro de 1946), da Sagrada Congregação dos Religiosos (28 de Setembro de 1946) e a dos Superiores Maiores Carmelitas (4 de Outubro de 1946) ficou canonicamente erecta esta comunidade carmelita descalça do Funchal.

Concluídos os trâmites para a cedência efetiva desta casa, chegaram ao porto do Funchal, no dia 4 de Novembro de 1946, os Padres Frei Constâncio do Menino Jesus, superior, Frei Benigno do Menino Jesus e Frei Aniceto do Divino Redentor que foi nomeado professor do Seminário Diocesano da Ilha.

Do dia 4 ao 6 os três primeiros frades hospedaram-se no Paço Episcopal e no dia 6 (dia de São Nuno Álvares Pereira de Santa Maria) fixaram a sua residência nas instalações da Igreja do Carmo preparadas pela Confraria do Carmo. Esta é, pois, a data da fundação dos Carmelitas Descalços no Funchal – daí a razão de louvarmos e rejubilarmos o Senhor pelos oitenta anos de permanência fervorosa e constante. Durante os sessenta anos seguintes a Província carmelitana de São Joaquim de Navarra (País Basco) que foi a restauradora da Descalcez em Portugal, enviou muitos frades que, com toda a dedicação, profundo amor à Igreja, zelo apostólico e piedade mariana serviram o povo de Deus na Madeira, dedicando-se generosamente ao atendimento das confissões e à direcção espiritual, à catequese e à criação e acompanhamento das Confrarias de Santa Teresinha e do Menino Jesus de Praga, à ereção e apoio à Ordem Secular – tanto no convento como em várias paróquias da Ilha –, à orientação espiritual de comunidades religiosas e à visita aos doentes.

A presença da comunidade carmelita descalça no Funchal era discreta, mas necessária, de modo especial a partir da renovação promovida pelo Vaticano II no campo litúrgico. Por essa razão mudaram-se as celebrações e restaurou-se a igreja (verificaram-se obras no altar-mor e nos altares laterais da Igreja), bem como se apoio o Prelado diocesano nos tempos conturbados do 25 de Abril. Foram ainda tempos de dedicado serviço apostólico, de renovação da Catequese, no acolhimento e acompanhamento espiritual de tantos jovens cristãos e dos estudantes católicos sem descuidar a silenciosa pastoral do confessionário (contando, isso sim, nos tempos fortes da celebração do Sacramento, com confessores idos do continente).

Por inteiros anos a fio, pelo Carmo do Funchal passaram dezenas de Carmelitas Descalços que não reclamaram nem jamais receberam condecorações – senão a dos Rei dos reis – mas que, calados e laboriosos, aqui deixaram a sua vida, alguns dos quais repousam no cemitério de Nossa Senhora as Angústias (Padres Marcial, Desidério, Gonçalo e Cecílio).

Entre tantos frades que foram do claustro do convento da Senhora do CArmo do Funchal, destacam-se o Padre Marcial do Santíssimo Sacramento (falecido nos anos Setenta, em odor de santidade); o Padre Santos da Sagrada Família (+1.12.2011), que aqui viveu e trabalhou por mais de cinquenta anos; o Padre Cecílio do Menino Jesus, aqui falecido com mais de cem anos (+19.11.2015); os Padres Joaquim Ferreira Fernandes (+16.3.2004) e Fernando Sá Reis (+5.9.2020) que aqui viveram e trabalharam por mais de trinta anos; o Padre Desidério de São José (+1990); o Padre Gonçalo Azkuna (15.10.1993).

Actualmente a comunidade do Carmo do Funchal é constituída pelo Padre José Arun, Superior; pelo Padre Manuel Dias (que aqui vive e trabalha há mais de trinta e três anos) e pelo Padre Eyyo Varghese; os padres Arun e Varghese pertencem à Província carmelitana de Malabar, Índia.

Fiéis à Igreja e procurando caminhar lado a lado e em obséquio de Jesus Cristo, a quem queremos imitar, e na sequência do XVI Capítulo Provincial recentemente celebrado, a Província portuguesa de Nossa Senhora do Carmo espera manter esta sua presença que tantos frutos espirituais tem dado ao serviço da Diocese do Funchal.

Volvidos 80 anos da chegada à Madeira, hoje, 6 de novembro de 2026,  é um dia de louvor e acção de  graças ao Senhor; por isso a todos convidamos a cantar connosco as maravilhas de Deus em nossas vidas e nas vidas de tantos cristãos madeirenses, e a suplicar a Nossa Senhora do Carmo, nossa Mãe e Irmã, que nos ajude a sermos fiéis servidores da Igreja ao estilo de  Santa Madre Teresa de Jesus e de São João da Cruz, cujo jubileu dos 300 anos de canonização e os cem de doutoramento eclesial nos encontramos a celebrar.

Laus Deo”.

 

 

 

 


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