Freguesias da Madeira: Calheta

 

CALHETA. FOTO: © ANABELA GOMES, OUTUBRO 2026.

 

Nelson Veríssimo

Durante muitos anos, a Calheta foi sobretudo um ponto de desembarque para quem se dirigia ao Rabaçal. A construção de novas infraestruturas rodoviárias e a instalação, no litoral, de equipamentos turísticos, espaços de lazer e estabelecimentos comerciais e de restauração durante o período da autonomia política, administrativa e financeira da Região Autónoma da Madeira contribuíram para transformar a freguesia num destino de lazer, veraneio e atividade económica, procurado tanto pela população local como por visitantes nacionais e estrangeiros.

O topónimo Calheta significa um pequeno boqueirão ou abertura na costa brava, que permite a entrada de um navio para arribar a terra, ou seja, uma pequena enseada.

Segundo o cronista Jerónimo Dias Leite, na viagem de reconhecimento do litoral da ilha da Madeira, Zarco e os homens, que o acompanhavam, «foram dar a uma aba grande, donde desejosos de saber da terra desembarcaram entre uns penedos donde fizeram à mão um desembarcadouro a que o Capitão pôs nome Calheta».

O poeta Manuel Tomás, na ‘Insulana’, dirigindo-se a Zarco, escreveu: «Verás um Porto, aonde por regalo / À mão farás calheta para entrá-lo.» (V, 75, 7-8).

Não se conhece a data da criação da paróquia da Calheta, mas terá ocorrido depois de 1461 e antes de 1502, o ano da elevação deste lugar à categoria de vila. O seu orago é o Espírito Santo.

O primeiro templo religioso desta localidade foi dedicado a Nossa Senhora da Estrela. Num documento de contas do ano de 1509, ficou averbado que o vigário de Santa Maria da Estrela auferia 6000 rs. de mantimento, por ano.

Escreveu Dias Leite, por volta de 1579, que João Gonçalves Zarco doou terras da Calheta ao seu filho João Gonçalves e à sua filha Beatriz Gonçalves e, numa lombada, «em um lugar alto de boa vista do mar e da terra traçou da sua mão o mesmo Capitão uma igreja de Nossa Senhora da Estrela, e disse que esta igreja havia deixar muito encomendada a seus filhos, porque havia muito tempo que desejava edificá-la num lugar a seu gosto.»

A capela de Nossa Senhora da Estrela foi a primeira sede da freguesia da Calheta. Nos finais do século XIX, encontrava-se já em ruínas. Do edifício, nada resta à vista. O Museu de Arte Sacra do Funchal conserva, porém, uma escultura proveniente desta capela.

NOSSA SENHORA DA ESTRELA. C. DE 1501-1510. ESCULTURA FLAMENGA EM MADEIRA DE CARVALHO POLICROMADA E ESTOFADA. FOTO: MUSEU DE ARTE SACRA DO FUNCHAL.

No ano de 1531, a Igreja da Calheta era já uma colegiada, com um vigário e quatro beneficiados. Por colegiada, entende-se uma igreja com um colégio de clérigos, obrigada a um culto solene, semelhante ao praticado nas catedrais. No ano seguinte, havia já seis beneficiados, o que revela prosperidade da freguesia.

Apesar deste templo conservar ainda elementos arquitetónicos quinhentistas, sobressaem diversas intervenções dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX.

MATRIZ DA CALHETA. FOTO: © ANABELA GOMES, OUTUBRO 2026.
CAPELA-MOR DA IGREJA DA CALHETA. FOTO: © ANABELA GOMES, OUTUBRO 2026.

Duas datas – 1639, inscrita no púlpito, e 1699, no arco do lado do Evangelho – documentam intervenções seiscentistas. Por alvará régio de 26 de fevereiro de 1612, Filipe II de Portugal mandou pagar ao imaginário, Álvaro Luís, e ao pintor de óleo, Domingos Nunes Teixeira, ambos moradores na ilha, «a obra de madeira e pintura do retábulo da capela-mor» da Igreja do Espírito Santo da vila da Calheta.

Em 1809, a igreja da Calheta encontrava-se muito arruinada. Na sequência da vistoria então realizada, foi proposta ao príncipe regente a construção de um novo templo, noutro local, «em lugar seguro e mais a meio do povo», tendo chegado a ser elaborado o respetivo projeto arquitetónico. Dois anos depois, em nova vistoria, concluiu-se que a matriz se mostrava imprópria para a celebração dos ofícios divinos, determinando-se a transferência do Santíssimo, das esculturas religiosas e da pia batismal para a igreja do Convento dos Franciscanos. A igreja foi então encerrada. Decorrido o prazo legal para se considerar o templo profanado, este deixou de gozar das imunidades e privilégios que o Direito Canónico e Civil concedia aos lugares consagrados a Deus. Em 1819, o bispo do Funchal proibiu os enterramentos na igreja da Calheta. Ainda em 1834, a paróquia da Calheta tinha sede na igreja do Convento de São Sebastião, devido à ruína do templo antigo.

Durante vários anos, prolongou-se a discussão em torno de duas alternativas: a reparação da matriz ou a edificação de um novo templo noutro local. Esta última solução, contestada pela Câmara da Calheta, acabou por não se concretizar.

Na Matriz, existiu um tríptico flamengo, do qual sobram dois volantes com representações de Santo António e de São Francisco (anversos) e da Anunciação e do Arcanjo São Gabriel (reversos), datáveis de 1525-1529, hoje no Museu de Arte Sacra do Funchal.

VIRGEM DA ANUNCIAÇÃO. C. 1525-1529. PROVENIÊNCIA: IGREJA MATRIZ DA CALHETA. FOTO: MUSEU DE ARTE SACRA DO FUNCHAL.

No entanto, podem observar-se ali o tecto mudéjar, a cruz processional, do século XVI, o sacrário de prata e ébano de três corpos, do século XVII, o grupo escultórico “Ultima Ceia”, da segunda metade do século XVII, a escultura de Santa Ana, do século XVIII, entre outras obras artísticas de relevo. O empedrado do adro ostenta a data de 1954.

 SACRÁRIO DA IGREJA DA CALHETA. SÉC. XVII. FOTO: © ANABELA GOMES, OUTUBRO 2026.

Pelo decreto do bispo D. David de Sousa, de 24 de novembro de 1960, a paróquia da Calheta foi desmembrada, sendo então instituídas duas novas paróquias: Atouguia e São Francisco Xavier. Iniciaram a sua atividade em janeiro do ano seguinte, a primeira na capela de São Pedro de Alcântara, fundada em 1783 por João Baptista Teixeira, no Lombo do Atouguia, e a segunda na capela de São Francisco Xavier, no Lombo do Salão, instituída por Manuel da Silva Pinheiro em 1693.

A nova igreja de São Francisco Xavier, projetada pelos arquitetos António de Freitas Leal e António Flores Ribeiro, em 1965-1966, ficou concluída em 1984. A consagração do templo ocorreu em 22 de julho desse mesmo ano.

Por sua vez, a nova igreja do Atouguia, com a invocação de São João Baptista, foi dedicada em 24 de junho de 2012. O projeto arquitetónico é da autoria de João da Cunha Paredes. O custo da obra ascendeu a 1,75 milhões de euros, dos quais 1 milhão foi assegurado pelo Governo Regional, 300 mil euros pela Câmara Municipal da Calheta e os restantes 450 mil euros pela comunidade paroquial.

Na Calheta, existiam muitas capelas instituídas por proprietários fundiários, com o propósito de lhes permitir assistir com maior comodidade às práticas litúrgicas, promover o sufrágio das suas almas e ostentar a sua condição social. Por disposições testamentárias, eram afetadas terras e respetivos rendimentos para assegurar o pagamento dos serviços religiosos em benefício das almas dos instituidores.

Algumas já desapareceram. Outras, porém, permanecem, como as capelas de Jesus, Maria e José, atualmente conhecida por Capela do Cristo-Rei, no Lombo do Doutor; de São Francisco Xavier, no sítio do Cadeado, no Lombo do Salão; de Nossa Senhora do Bom Sucesso, no Lombo da Estrela; de São Pedro de Alcântara, no Lombo do Atouguia; de São José, no Vale da Bica.

CAPELA DE JESUS, MARIA, JOSÉ. FOTO: © ANABELA GOMES, OUTUBRO 2026.
RETÁBULO DA CAPELA DE JESUS, MARIA, JOSÉ.

A Capela de Santo António dos Milagres, situada no Lombo do Salão, encontra-se num estado de profunda degradação e corre o risco de ruína. A Paróquia da Calheta aguarda a concretização do prometido apoio governamental para a sua recuperação e salvaguarda, enquanto património histórico e cultural do concelho.

CAPELA DE SANTO ANTÓNIO DOS MILAGRES. FOTO: © ANABELA GOMES, SETEMBRO 2026.

Já as ruínas da Capela de São João permanecem, há décadas, cobertas de silvado e de outras plantas invasoras, necessitando de trabalhos de limpeza e manutenção para preservar as estruturas existentes e salvaguardar este testemunho da história local.

RUÍNAS DA CAPELA DE SÃO JOÃO, CALHETA. © ANABELA GOMES, OUTUBRO 2026.

Em 1535, estava instalada a Casa da Misericórdia da Calheta. Na atualidade, esta instituição continua a prestar serviços de solidariedade social, nomeadamente através da Estrutura Residencial para Pessoas Idosas Nossa Senhora da Estrela, inaugurada em 15 de setembro de 1996, e outras respostas sociais e serviços em todo o concelho.

Constitui património da Santa Casa da Misericórdia os seguintes imóveis: ERPI Nossa Senhora da Estrela e Centro de Convívio, edifício onde funciona atualmente o Centro de Saúde da Calheta, edifício da Câmara Municipal da Calheta e o edifício da Conservatória do Registo Civil e Predial.

Aqui também existiu um convento franciscano, dedicado a São Sebastião, fundado em 1670, por Pedro de Bettencourt de Atouguia. O capitão Manuel de Figueiroa, proprietário da Quinta de São João, na Ribeira da Calheta, foi um grande benfeitor deste estabelecimento franciscano, pertencendo-lhe e aos seus descendentes a capela-mor da igreja conventual, vindo a ser aí sepultado no túmulo que ali mandara edificar.

O topónimo Calheta ficou associado ao título nobiliárquico de conde da vila da Calheta, concedido pelo rei D. Sebastião, em 1576, a Simão Gonçalves da Câmara, quinto capitão do Funchal, pelos seus feitos e pelos dos seus antepassados.

A paisagem agrícola da Calheta é dominada pelas culturas da cana-sacarina, da vinha, de hortícolas e de frutos subtropicais, com especial destaque para a banana. À semelhança de outras freguesias, regista-se um decréscimo da área cultivada. Esta retração deve-se não só ao abandono da agricultura tradicional e de subsistência – motivado pelo envelhecimento demográfico, desinteresse dos jovens e elevados custos de produção –, mas também à forte pressão e investimento no sector da construção civil.

No centro da vila, permanece em funcionamento um antigo engenho, testemunho vivo de uma tradição secular de aproveitamento da cana-de-açúcar, que marcou profundamente a história e a identidade da Calheta.

ENGENHO DA CALHETA. FOTOS: © ANABELA GOMES, OUTUBRO 2026.

 

Ainda hoje, esta fábrica produz rum agrícola e mel de cana-de-açúcar, preservando técnicas, conhecimentos e saberes transmitidos ao longo de gerações. O núcleo museológico aqui instalado permite conhecer as diferentes etapas do processo de laboração, ajudando a compreender a importância desta atividade e o seu papel na preservação da memória e da identidade do lugar.

Fundado no início do século XX, este engenho pertence à Sociedade de Engenhos da Calheta. Constituída em 1952, integrava três engenhos: Lopes & Duarte e António Rodrigues Brás, ambos na vila da Calheta, e o de José Gomes Henriques de Araújo, no Paul do Mar.

A Central Hidroelétrica da Calheta, inaugurada em 5 de julho de 1953, permitiu um melhor aproveitamento e distribuição dos recursos hídricos, beneficiando significativamente a irrigação dos terrenos agrícolas da Calheta e freguesias vizinhas. Depois de utilizada para a produção de energia, a água seguia para o regadio pelas levadas da Ponta do Pargo e do Arco da Calheta.

Na Calheta, situa-se o MUDAS – Museu de Arte Contemporânea. De início, este polo cultural limitava-se à Casa das Mudas, uma casa do século XVIII, pertencente aos Cabrais, sendo Francisco de Ornelas Cabral o primeiro a receber a alcunha de «mudo», que, todavia, se manteve na família por várias gerações. Recuperada nos finais do século passado, a casa viria a acolher uma biblioteca e uma sala de exposições.

A necessidade de ampliar este espaço conduziu à construção de um novo edifício, projetado pelo arquiteto madeirense Paulo David. O Centro das Artes – Casa das Mudas foi inaugurado em outubro de 2004, implantando-se numa encosta sobranceira à vila da Calheta e ao oceano Atlântico. A sua conceção teve em conta a paisagem envolvente, procurando integrar o edifício na encosta e estabelecer uma relação entre a arquitetura, o território e o mar. Em 2015, passou a denominar-se MUDAS – Museu de Arte Contemporânea da Madeira.

MUDAS – MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DA MADEIRA. FOTO: © ANABELA GOMES, OUTUBRO 2026.

Atualmente, o MUDAS é um dos principais espaços de arte contemporânea da Madeira, dando continuidade à função cultural da antiga Casa das Mudas e do Museu de Arte Contemporânea do Funchal que, de 1992 a 2015, funcionou na Fortaleza de Sant’Iago. Além das exposições, o museu promove diversas atividades culturais e educativas, contribuindo para a divulgação da criação artística contemporânea e para a aproximação de diferentes públicos às artes.

Os ‘Censos de 2021’ apontam 3188 habitantes na Calheta. A população desta freguesia tem vindo a diminuir desde 1981, comparativamente com as demais décadas do século XX.

Segundo o Recenseamento Eleitoral de 15 de junho de 2025, existiam 3510 cidadãos nacionais, 7 da União Europeia e 11 outros cidadãos estrangeiros residentes.

BRASÃO DA FREGUESIA DA CALHETA.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de ouro, monte de três cômoros de verde, movente dos flancos e de um pé ondado de três tiras de prata e verde; em chefe, roda dentada de vermelho, entre dois pés de cana-de-açúcar de vermelho, folhados de verde. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: “FREGUESIA DA CALHETA – MADEIRA”. (Diário da República, n.º 117, 3.ª Série, Parte A, 21-05-2001).

Agradecimentos: Rev.º Padre Silvano Vieira Gonçalves e Museu de Arte Sacra do Funchal.


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