«Nessa cadeira antiga te sentavas…Se o assento era incómodo, as possibilidades expressivas da cadeira davam-te motivo suficiente para fazeres dela um objecto interessante e com agrado a utilizavas quando, à volta da mesa reunias os acessórios propícios aos teus devaneios, ou simplesmente o material urgente da tua rotina, o dia a dia do trabalho e do percurso imediato….a cadeira era um dos poucos objectos que te restavam dos haveres ancestrais e poderias dizer dela que era modelo Arte Nova, se não pura, pelo menos habilmente executada por um artesão anónimo, desses que vivem e morrem sem entrar na História, cujo contributo para ela tem a sorte que esperam todos os mortais: o esquecimento. Só os imortais têm direito ao jazigo dos museus e à devastação das memórias. A cadeira era assim importante porque permanecia ainda coisa viva entre as pertenças em uso, o que garantia ao seu autor o direito da prevalência, que superava o da imortalidade».
Vim a saber mais tarde que esta cadeira que faz parte ainda do meu acervo de memórias, descrita no livro «Angélica e a sua Espécie» era feita em pau de nogueira e encontrei um exemplar semelhante num catálogo de mobílias antigas divulgado em suportes recentes de informação. Tem um fundo de contraplacado. com um desenho simétrico pirogravado, em forma de concha ou palma, de onde emerge uma espécie de laço cujas pontas recurvas ostentam folhas fendidas e no centro uma folha de parra. A circundar esta forma central parecem estar representados pequenos ramos de oliveira com as respectivos frutos, ou simplesmente a sugestão estilizada de botões de flores. O processo da estilização das formas da Arte Nova adoptou várias designações, consoante os países onde se desenvolveu acabando por se fixar na Espanha como Modernismo.
Perante a industrialização que favorecia o fabrico de peças em série, e opondo-se ao academismo dos movimentos artísticos anteriores, os artistas modernos, entre o fim do sec- 19 e início do sec 20, pondo de parte as telas e os cavaletes, criaram esta arte aplicada utilizando os mais variados suportes e materiais juntando, num todo, beleza e função. Surgiram assim novas tecnologias artísticas em ferro forjado, vidrarias, cimento, madeira e metais. A impressão que se colhe destas representações reverte para um conceito de sofisticação e requinte na criação dum padrão que dominou várias áreas de consumo, edifícios, mobiliário, roupas, joias, distinguindo-se pela sinuosidade de linhas e geometrização das formas observadas no mundo vegetal Os objectos criados pela Arte Nova conjugavam linhas curvas com linhas rectas, inspiravam-se em gavinhas, em padrões repetitivos à semelhança das folhas opostas dísticas dos ramos das plantas; simetrias, irradiações e espirais análogas â organização das pétalas de certas flores como o malmequer ou margarida, crisântemo, girassol e dente- de- leão.
Os cartazes publicitários utilizavam a figura feminina como elemento central envolta numa aura sensual, rodeada de flores e longas linhas onduladas. Alphonse Mucha foi um pintor Modernista com uma vasta obra nesta modalidade. Gustav Klimt realizou trabalhos de pintura em murais e outros suportes. Gaudi encheu Barcelona de magníficos edifícios e hoje a Sagrada Família é o nome duma das mais espantosas basílicas do mundo. .
O Modernismo revelou-se pela rejeição aos códigos da arte tradicional, optando por uma liberdade formal, anulando a perspectiva, opondo-se ao impacto recente da fotografia, anunciando a desconstrução da imagem que derivou mais tarde no cubismo e nos movimentos que se seguiram.
A cadeira de que falo reflecte as características deste estilo, em versão popular, e restou dos haveres dos meus antepassados. Mais do que ser apenas um acessório, guarda a memória de algumas vidas que por ela passaram, gente que não conheci mas sei que existiu, à volta duma mesa de rotinas diárias e acolhedores afectos.
Serve-me agora de assento à beira da página onde redijo estas linhas. Tal como dantes a cadeira vive ainda, intacta e prestante.
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