AF!
Há uma nova elite intelectual: os pais! Os pais que decidiram que a medicina é apenas uma sugestão e que o Google é uma faculdade. Não são médicos, claro — médicos estudam durante anos, o que já desperta suspeitas —, mas dominam uma ciência superior: a ciência do comentário às três da manhã, com bónus de áudio de WhatsApp e legenda em maiúsculas.
Foram vacinados quando bebés, sem poder protestar, e sobreviveram. Que ingratidão! Agora, adultos, saudáveis e cheios de opinião, exigem para os filhos o direito de conhecer pessoalmente doenças que os próprios pais lhes pouparam. É quase um plano de herança: “Meu filho, eu tive vacinas; tu terás sarampo, como manda a tradição.”
Dizem que “as crianças de antigamente apanhavam tudo e ficavam bem”. Sim. E os que não ficaram bem estão disponíveis para dar entrevistas? Não. Estão, infelizmente, indisponíveis — o que, para o novo epidemiologista de sofá, é sinal de que o assunto não é grave.
Afirmam que as doenças desapareceram naturalmente. É verdade: a poliomielite cansou-se de paralisar crianças e decidiu tirar férias. O sarampo emigrou. A difteria abriu uma loja de velas. Nada teve a ver com vacinas, campanhas de saúde pública ou cientistas; foi tudo obra da energia positiva, do chá de camomila e de uma mãe que leu um post enquanto o micro-ondas aquecia o jantar.
Chamam-lhe “liberdade de escolha”. Escolha admirável: os pais escolhem, as crianças adoecem, e os bebés demasiado novos para serem vacinados também participam no sorteio, sem bilhete nem consentimento. É a democracia levada ao extremo — um voto por família, com direito a contágio universal.
Desconfiam dos médicos porque “há interesses”, mas confiam cegamente no senhor do vídeo que vende suplementos, cursos, livros e gotas de esperança com desconto na segunda compra. A farmacêutica quer lucro, dizem. Já o charlatão que cobra cinquenta euros por um frasco de água com boas intenções trabalha por puro amor ao próximo.
Têm coragem, não neguemos. É fácil ser corajoso quando o risco recai sobre o corpo de uma criança. Mais difícil seria explicar a um pediatra por que razão “pesquisei muito” substitui “confio na evidência”. Ou visitar um arquivo histórico e descobrir que as enfermarias de poliomielite não eram cenários de filme de terror, mas realidade recente.
As vacinas foram tão eficazes que certas doenças se tornaram raras. E, como num milagre da lógica invertida, a raridade tornou-se prova de que nunca houve perigo. É como apagar um incêndio e dizer, diante das cinzas: “Vejam? Nem precisávamos de bombeiros.”
Um dia, talvez, compreendam que os seus pais não os vacinaram por medo, submissão ou conspiração, mas porque amavam-nos e preferiam preveni-los a enterrá-los. Talvez percebam que não foram vítimas da ciência, mas beneficiários dela.
Até lá, os vírus agradecem. Passaram décadas a ser combatidos por médicos, investigadores e memória coletiva. Agora têm um aliado novo, mais contagioso do que qualquer micróbio: a ignorância convencida de que descobriu, entre duas histórias e um vídeo de nove minutos, o que a medicina inteira não percebeu em dois séculos.
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