Olhos pintados no traseiro do gado ajudam a afastar leões e leopardos no Botsuana

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Uma estratégia aparentemente invulgar está a revelar-se eficaz na redução de ataques de grandes felinos ao gado no norte do Botsuana: pintar grandes olhos no traseiro das vacas. A técnica, desenvolvida pelo investigador Neil Jordan e pela sua equipa, explora o comportamento de predadores como leões e leopardos, que dependem do elemento surpresa para caçar.

Na região do Delta do Okavango, onde o gado pasta livremente durante o dia, os ataques de leões e leopardos causavam prejuízos financeiros significativos aos produtores rurais e agravavam o conflito entre as comunidades locais e a fauna selvagem. Sem a presença constante de vaqueiros, os animais ficavam expostos a emboscadas mortais.

Entre 2015 e 2018, a equipa do projeto iCOW acompanhou 2.061 bovinos de 14 rebanhos. Recorrendo a moldes de espuma e tinta acrílica, os investigadores pintaram olhos artificiais no traseiro de parte dos animais, transmitindo a impressão de que estavam a ser vigiados por uma presa atenta.

Marcação no traseiro Número de animais Mortes por leões ou leopardos
Olhos pintados 683 0
Cruzes pretas 543 4
Sem marcação 835 15

Os resultados suscitaram grande interesse na comunidade científica. Dos 683 bovinos com olhos pintados, nenhum foi morto por leões ou leopardos ao longo do período de estudo. Em contraste, 15 vacas sem qualquer marcação e quatro com uma simples cruz preta no traseiro foram predadas.

A explicação reside no instinto dos predadores de emboscada. Ao detetarem padrões que evocam olhos, leões e leopardos podem interpretar que foram vistos e abandonar a caçada — uma reação semelhante à observada noutras espécies da natureza, como borboletas que exibem «olhos» nas asas para afugentar atacantes.

Para além de proteger o rebanho, a iniciativa oferece uma alternativa não letal para reduzir represálias contra leões e leopardos, espécies ameaçadas em várias regiões de África. Para os investigadores, a simplicidade e o baixo custo do método constituem as suas maiores vantagens: não exige cercas elétricas, armadilhas nem a remoção de animais selvagens.

Apesar do êxito registado, os cientistas sublinham que a técnica não garante uma proteção absoluta. Ainda assim, os dados indicam que os «olhos pintados» podem tornar-se uma ferramenta valiosa na convivência entre pecuaristas e grandes carnívoros, contribuindo simultaneamente para a segurança económica das comunidades rurais e para a preservação da vida selvagem no Botsuana.


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